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DESCONSTRUINDO LULA

Hoje, ao descer para o trabalho, estava escutando uma entrevista na rádio CBN da líder do governo no Senado, Ideli Salvatti (PT-SC), a respeito do lançamento da candidatura do Senador José Sarney (lembram-se dele???) para Presidente do Senado da República. Como é do seu estilo um tanto o quanto histriônico, a entrevistada demonstrava a sua indiganção e espanto frente a uma candidatura que não foi construída organicamente no seio do partido do Presidente da República – e que, aliás, já tinha lançado o seu candidato para a Presidência da casa, o Senador Tião Vianna (PT-AC). Noves fora, uma coisa me chamou a atenção na fala da Senadora: 2010 já começou, e as cartas para o jogo da sucessão presidencial já estão na mesa…

O PMDB é um daqueles partidos que, desde a redemocratização, abriu mão de um projeto de poder pela via presidencial – quem não se lembra da candidatura “cristianizada” do Dr. Ulysses Guimarães em 1989? Optando por operar nas “bases”, o PMDB é um partido que vem apliando a sua atuação nos rincões do país, obtendo inúmeras prefeituras nas pequenas cidades afastadas dos grandes centros urbanos – atualmente nas mãos do PT e do PSDB -, dominando as Câmaras de Vereadores, Assembléias Legislativas e Congresso Nacional, numa clara estratégia de robustecimento da base legislativa. E, dentro do sistema político brasileiro, que é um Presidencialismo “amarrado” pelo Parlamento, o resultado disso todos nós sabemos: aumento do “poder de barganha”, leia-se, mais cargos em Ministérios, especialmente no segundo e terceiro escalões, além de participações nos governos estaduiais e municipais.
Atualmente, o PMDB possui 6 Ministérios em sua mão – alguns deles importantes, como os da área de infra-estrutura e energia. Na Eletrobrás, por exenplo, não há ninguém que não tenha sido chancelado pelo partido, e isto aumenta em muito o seu capital político. Na hora da barganha e da repartição de cargos, isso conta muito…
O que a aguerrida senadora apontou, e com muita perspicácia, é que começou o processo de “desconstrução do Governo Lula”. Eleito duas vezes com maioria esmagadora popular, especialmente entre os mais pobres, a ascensão do torneiro mecânico ao poder é um dos fatos mais marcantes da vida política nacional nos últimos anos. Sem sombra de dúvida, apesar de todas as críticas que venho fazendo ao seu governo e ao PT, trata-se de algo histórico e prova inconteste do amadurecimento de nossas instituições políticas. No entanto, Lula ganhou mas não levou. Por quê?
Ganhou a Presidência, mas teve de repartí-la com os demais partidos por não possuir a maioria no Congresso Nacional. A população elegeu o Lula, mas não o PT, por seu histórico de posições radicais e exacerbadas. O povo brasileiro é conservador, não gosta muito de novidades, e prefere não mudar o time que está ganhando. Daí, a sua reeleição – e o progressivo enfraquecimento do PT, metido em escândalos como mensalões, dólares na cueca, aloprados forjadores de dossiês, e outras coisas mais. Pelo seu governo passaram José Dirceu, Pallocci, Gushikhen, José Genoíno, e outros figurões petistas que foram “queimados” em prol da governabilidade. O resultado: Lula cresceu, o PT encolheu, e a maior prova disto foi a derrota para a Prefeitura de São Paulo. Definitivamente, com Lula no poder, o PT foi do céu para o inferno…
Ao deixar de lado o seu partido, Lula teve de engendrar um governo de coalização com o PMDB – aliás, alguém consegue governar o país sem o PMDB? Apesar de ser mais uma frente do que um partido, dadas as cizânias e divisões internas, o PMDB é expert no modelo político brasileiro, e seus operadores políticos sabem como ninguém tirar proveito dessa situação. Enquanto Lula poderia ser reeleito, a sua popularidade em alta e a economia e o emprego nadando a braçadas largas, seus líderes deram a impressão de que o Presidente “era o homem”, o “líder”, o “timoneiro” da reconstrução do país. Agora, já entrando em final de mandato, com a economia mundial em recessão, a “marolinha” que virou tsunami, e as demissões campeando em massa – especialmente nas cidades de médio porte, onde o eleitorado lulista é bastante expressivo -, tá feia a coisa para o nosso Presidente. E a candidatura de José Sarney à Presidência do Senado é apenas um sintoma da operação “desconstruindo Lula”, que já está a pleno vapor…
O setor produtivo nacional, que aderiu explicitamente ao projeto petista de desenvolvimento, ao pegar empréstimos com juros baratos, financiou a sua expansão, exportou muito, lucrou horrores e agora, com a crise se adensando, resolve demitir em massa com a justificativa de que é necessário adequar-se a nova realidade da economia mundial. Fiesps, Vales, Usiminas, CSNs, Peugeots-Citroens, antes consideradas parceiras do projeto lulista, agora estão desembarcando do vagão em busca de posições mais conservadoras. Pobre Lula, que nutriu esperanças de ser o grande “salvador da Pátria”, enquanto esses caras todos estão aí há séculos no país, lucrando, predando, explorando, aviltando, expoliando. Meus amigos, acordem para a realidade objetiva: esses caras todos são sócios no lucro, mas não são parceiros no prejuízo. Perguntem se eles, ou os seus diretores, aceitam uma diminuição em seus salários para manter os empregos? Falando em lucrar é com eles mesmos; falou em dividir prejuízo, todo mundo sai de fininho, alegando problemas de agenda, outros compromissos…
Pior mesmo foi a ingenuidade do Lula, achando que com a sua imensa popularidade, poderia reverter esse estado de coisas. No que diz respeito à constituição política de um país, o tempo da mudança obedece a uma razão geológica, e não cronológica…
Não é à toa que o nosso Presidente anda irritado, falando aos brados com os seus assessores, conforme publicado na edição de hoje do jornal O Globo. Não é à toa que a Ministra Dilma Rousseff, atual ungida do “companheiro”, fez plástica e aparece em tudo o quanto é evento – se bobear, até em enterro de anão. Nada disso adianta, pois a roda da fortuna já foi acionada, e agora será cobrado do nosso Presidente o preço do enfraquecimento do seu partido em prol da governabilidade.
Enquanto isso, no andar de baixo, o lunpem está adentrando o purgatório, com as demissões, encarecimento do crédito, empréstimos a juros escorchantes, etc e tal. Imagino quem entrou na onda do Presidente que, no final do ano, disse aos brasileiros para continuarem consumindo e endividando-se…
2010 começou, e Lula virou um “lame duck”!
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  1. Anonymous
    janeiro 22, 2009 às 8:57 pm

    Muito esclarecedor, Mestre.

    Impressionante!

    Quem apostou no médio/longo prazo hoje tem uam vantagem monstruosa. Abraço! Rossi

  2. Mariana Grecco Grano
    janeiro 26, 2009 às 7:57 pm

    Oi professor. Tudo bem com você?
    Fez boa viagem?
    Eu estava lendo as notícias do site do clube da Criação de SP e encontrei um artigo interessante sobre uma recente pesquisa do IBOPE acerca do comportamento do consumidor na internet. Aí vai o link: http://www.ccsp.com.br/ultimas/noticia.php?id=37326
    Achei que podia te interessar.
    Abços e até mais.
    Mariana

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