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A POSSE DE BARACK OBAMA NO CARGO MAIS IMPORTANTE DO MUNDO

Me considero um privilegiado, não porque sou um ególatra desenfreado ou um narcisista inveterado, mas sim porque tive a felicidade de ser testemunha de alguns eventos históricos marcantes – mundiais, nacionais e regionais – em minha relativa curta existência. Apesar de garoto, vi as manifestações de rua das “Diretas Já”; votei já na primeira eleição presidencial após a “Nova República” (e no Lula, podem me gozar à vontade meus queridos leitores!); vi o Brasil tetra e pentacampeão mundial de futebol (bons tempos!!!); vi o Flamengo de Zico jogar – e ser Campeão Mundial -; vi o primeiro Presidente – operário e de origem humilde – do meu país chegar ao poder; vi os atentados de 11 de setembro de 2001… ufa, quanta coisa eu já vi!

Hoje, mais uma vez, testemunhei um momento marcante da história mundial ao assistir pela TV a posse do novo presidente americano, Barack Hussein Obama. Não bastasse ser um jovem senador negro (apenas 47 anos) do estado de Illinois, Obama traz em seu nome a marca da história multicultural desse melting pot que é a América. O primeiro e o último nomes refletem às origens quenianas do presidente, e o Hussein do meio remete ao islamismo do qual o seu pai era devoto. Filho de pai africano emigrado e de mãe branca, Obama nasceu no Hawaí, passou sua adolescência com um padrasto indonésio, estudou Direito em Harvard e chegou à presidência da única superpotência mundial apesar de sua curta carreira política.

Apesar disso, o tempo todo o cerimonial de posse tentou esconder o Hussein do meio, seja omitindo-o, seja abreviando-o. Notaram?

É notável como um país desse porte e tamanha importância histórica consegue reunir, simultaneamente, tantas virtudes e vícios. Terra da democracia, da liberdade individual e da livre iniciativa, os Estados Unidos foram os bastiões da ruptura com o sistema colonial que regeu a economia mundial durante os séculos XV, XVI e XVII, quando então a sua República foi proclamada. Os textos e atitudes dos founding fathers são lidos e relidos exaustivamente todos os dias no mundo inteiro, em busca de inspiração e guia, além de forjarem os ideais do mundo ocidental. Primo pária da Europa – protestante, não católico, ex-colônia rebelde alçada a condição de líder mundial -, o que chamamos de Ocidente em grande parte coincide com os Estados Unidos da América.

Onde há virtudes também há vícios, e neles a América é pródiga. Terra da arrogância e do desprezo para com o resto do mundo – e que foi elevada à enésima potência neste último ciclo presidencial que, graças a Deus, encerrou-se hoje -, foi lá também que campearam livremente os males do capitalismo, a saber, o individualismo exacerbado, a miopia e o desdém perante outras tradições culturais e religiosas, o patriotismo excludente, o “olhar para o próprio umbigo”, fruto da crença inabalável – e eivada do messianismo cristão – de que a América é a “terra prometida para o povo escolhido de Deus”, a nova Canãa, terra de redenção e de recomeço da humanidade em direção a um mundo melhor. Não existe melhor homólogo do Califado sunita propalado por Osama bin-Laden do que o fundamentalismo cristão cultivado nas entranhas do território norte-americano, no heartland como eles mesmos gostam de chamar. Ambos se alimentam, e se nutrem, de ódio para com o outro, de rejeição à alteridade, de supressão da diferença, do pensar diferente, do ter uma opinião discordante – o que, diga-se de passagem, é o elemento central da tão falada democracia ocidental…

Não sou portador do sentimento anti-americano apesar de, como qualquer cidadão de bem no mundo inteiro, tenha um desprezo profundo por tudo o que o governo anterior fez – leia-se Guantânamo, Abu-Ghirab, Iraque, Faixa de Gaza -, e também pelo suporte dado às ditaduras militares na América Latina durante as décadas de 1960 e 1970. Estive na América bem antes dos atentados de 11 de setembro, e me encantei profundamente com tudo o que vi (Washington, Filadélfia, Boston, Maryland). Adoro o jazz, o blues, o rock, o country, o folk, o soul, o rhythm and blues, tudo aquilo que negros, brancos e mestiços puderam produzir em termos musicais. Adoro o cosmopolitismo de Nova York, seus museus, vida noturna, cafés, suas oportunidades. Adoro o progresso que a tecnologia nos oferece, bem como a liberdade de pensar e de se expressar, além do próprio conceito de cidadania e de liberdade individual.

No entanto, não gosto da arrogância suprematista americana, seu desprezo para com o resto do mundo, sua ignorância frente a outras realidades sociais e tradições culturais, que reduzem tudo aos signos de atraso e primitivismo. A primeira América me inspira, a segunda me gera desprezo e náuseas. Como as duas convivem numa só, daí a minha relação de amor e ódio para com o nosso vizinho do Norte. Tal como numa boa relação afetiva ou nas melhores famílias, onde imperam altos e baixos…

E foi essa América que me inspira que eu vi hoje, na posse de Barack Hussein Obama. Uma América sorridente, confiante, disposta a rever a sua relação com o seu passado discricionário frente aos negros e as minorias. É esse farol que ilumina e inspira o mundo que vi hoje no discurso do novo presidente, fazendo alusão aos muçulmanos, aos hindus, aos católicos, aos protestantes e aos judeus. Uma América mais solidária com os problemas mundiais tais como o clima e o uso intensivo dos recursos naturais. Uma América mais fraterna para com a miséria e a pobreza do mundo. Uma América mais cooperativa para com os seus parceiros, aberta ao diálogo inclusive para com os seus maiores opositores. Enfim, uma América mais aberta, open minded, não mais short sighted

Particularmente, não nutro muitas esperanças em mudanças radicais na presidência de Obama. Sua agenda é particularmente pesada e difícil, e o seu discurso austero de posse deu o tom do tamanho da tarefa que ele irá encarar. No entanto, acho que haverá mais uma mudança de atitude, onde o exercício de poder será menos coercitivo (hard power) e mais concertivo (smart e soft power), mais aberto ao diálogo, à cooperação e ao entendimento entre as nações.

No caso brasileiro, acho que a agenda americana será mais social e cooperativa, prevalecendo temas como aquecimento gobal, fontes de energia alternativa e producão de alimentos. O Brasil hoje é a potência regional da América do Sul, e o movimento de resistência de seus vizinhos demonstra esse fato. Tal como a América, o Brasil deverá ser uma liderança inspiradora para os seus vizinhos mais próximos, aprofudando alianças com países do Mercosul como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai, e controlando os arroubos “encrenqueiros ” da Venezuela, da Bolívia e do Equador. Aliás, penso que a agenda norte-americana para a América Latina passa pela Venezuela e por Cuba – essa última, marcada por um embargo anacrônico, que espero que Obama suspenda após a morte de Fidel Castro.

Enfim, os desafios são inúmeros para essa Presidência que se inaugura alvíssara, porém com enormes e graves questões a serem enfrentadas. Particularmente, esse Escriba estará de olho nas questões que envolvem o Brasil, a América Latina e o Oriente Médio. Assim como Lula, que veio da esquerda para desmontar as suas políticas quando do lado de lá do poder, Obama traz uma enorme expectativa de diversos segmentos da sociedade norte-americana. Espero que ele possa continuar a trilha dos founding fathers, olhando o passado mas vislumbrando o futuro, mas sem esquecer os ensinamentos de um Pastor que um dia disse ter um sonho onde, em seu país, as pessoas seriam julgadas não pela cor de sua pele, mas sim pelo seu caráter e valores…

May God help America!
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