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OS BOMBARDEIOS EM GAZA (2) – O PAPEL DO LÍBANO

Há alguns países que são atormentados pela geopolítica. Isso nos remete a famosa frase do ditador mexicano Porfírio Diaz que, ao analisar no início do século XX a posição geográfica de seu país, afirmou de maneira categórica: “Pobre do México! Tão longe de Deus, tão próximo dos Estados Unidos”…

Outro país que também foi “abençoado” pela geopolítica é Cuba. Também, pudera, resolveram fazer uma revolução socialista nas barbas dos Ianques!… Como prêmio de consolação, toma-lhe de bloqueio econômico, de retração de investimentos estrangeiros, e de uma economia que quase chegou ao ponto da Idade da Pedra…

Por fim, outro candidato a “azarado” é o Líbano. Historicamente uma terra de passagem, berço da grande civilização fenícia, assistiu ao longo dos séculos a marcha de diferentes exércitos tais como persas, gregos, romanos, árabes, bizantinos…

Criado “por decreto francês” na primeira metade do século XX, o País do Cedro sempre foi um lugar para onde convergiram – e convergem até hoje – as tensões do Oriente Médio e do mundo árabe, uma região alvíssara de conflitos encarniçados e explosivos. Nação cuja estrutura social é baseada em clãs e em confissões religiosas – a atual constituição do país reconhece a existência de 18 confissões diferentes! -, seu objetivo principal seria o de ser uma terra-modelo de convivência e tolerância religiosas, habitada por cristãos (maronitas, melquitas, ortodoxos, armênios, caldeus), muçulmanos (xiitias, sunitas, drusos) e judeus (atualmente, varridos do país após a Guerra dos Cem Dias).

No entanto, tal como o México, já não bastassem os seus problemas internos (famílias que brigam com famílias, clãs que se digladiam entre si por dinheiro e influência política), o Líbano é cercado de vizinhos “do barulho” que impedem a consecução de um projeto nacional viável e venturoso – deste país que tem o tamanho do Estado de Sergipe, mas que conta com a metade de seus habitantes.

Vejam só: primeiro, a Síria, irritadíssima desde o que ela considera como “usurpação” que foi a criação do País do Cedro, em 26 de novembro de 1941; Israel, o “verdugo dos árabes”, que volta e meia resolve invadir o país, dado o sul ser atualmente dominado pelo partido radical xiita Hezbollah; isso sem falar na interveniência das potências regionais – os casos do Irã e da Arábia Saudita – e mundiais – como os Estados Unidos, a antiga União Soviética (no auge da Guerra Fria), a França, a Inglaterra. Isto é, a máxima da política externa como projeção da política interna é invertida no Líbano, dadas as relações estreitas e intestinas que as suas comunidades confessionais desenvolveram o longo do tempo com os seus “protetores” externos…

Como tudo o que acontece no Oriente Médio acaba reverberando no Líbano, é assustador a perspectiva de um conflito entre Israel e os palestinos na Faixa de Gaza. Assustador, por um lado, dado o grande número de refugiados palestinos no Líbano, cujas revoltas nos campos de refugiados podem se tornar uma fonte de desestabilização do governo do Presidente Michel Suleiman e do PM Fouad Siniora. Desesperador, por outro lado, se o Hezbollah – cuja milícia domina o sul de Beirute, bem como a grande parte do sul do país, além de ser o maior, mais bem equipado exército do mundo árabe, dizem os especialistas – resolver “comprar o barulho” dos palestinos de Gaza…

Esse parece ser o rumo escolhido pelo Secretário Geral do Hezbollah, Sayyed Hassan Nasrallah, em discurso transmitido via satélite nessa segunda-feira para milhares de manifestantes contrários aos ataques israelenses, em Danyeh, no sul de Beirute, área controlada pela milícia xiita.

Apesar do Hezbollah ser xiita, e o Hamas ser sunita – uma divisão prá lá de séria no mundo islâmico -, Nasrallah não se furtou a declarar solidariedade ao povo palestino, e conclamou os muçulmanos do mundo inteiro a lançaram uma Terceira Intifada contra Israel e os Estados Unidos.

Além disso, dado o seu discurso explosivo e assertivo, Nasrallah declarou que determinados estados árabes são omissos e lenientes com a questão palestina. O caso do Egito foi citado de maneira particular, e o líder conclamou a população desse país a se rebelar contra esse estado de coisas, gerando um sério atrito com o longevo governo do Presidente Hosni Mubarak.

Além disso, Nasrallah exortou que o Líbano convocasse uma reunião de urgência da Liga Árabe para discutir o tema, fato este apoiado posteriormente pelo presidente libanês.

A questão é preocupante, tendo em vista a memória recente da invasão do Líbano por Israel em 2006, dado os ataques do Hezbollah. A questão é mais preocupante ainda, pois o Hezbollah não é o Hamas: o primeiro é mais numeroso, infinitamente mais organizado, armado e disciplinado, com uma logística e uma cadeia de comando de dar inveja a muitos exércitos da região. Além disso, a última invasão é uma grande ferida na opinião pública israelense pois, além de ser uma “vitória de Pirro”, vários soldados israelenses foram feitos reféns e encontram-se até hoje nas mãos do Hezbollah como moeda de troca, para o sofrimento de suas respectivas famílias…

PS: Em tempo, um grande amigo meu, descendente direto de libaneses, me disse que uma piada muito corrente no País do Cedro era de que grande parte dos problemas do Líbano seriam resolvidos se este pudesse trocar de posição geográfica com Cuba, e vice-versa…
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