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>OS BOMBARDEIOS EM GAZA (1) – O PRIMEIRO TESTE INTERNACIONAL DO GOVERNO OBAMA

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Há um aforismo consagrado em Relações Internacionais que afirma que toda política externa de uma nação é, em certa medida, um reflexo de sua política interna, posto ser fruto da luta legítima de interesses de diferentes atores sociais e de grupos de pressão existentes na cena política de um determinado país. Além do mais, isto é de fundamental importância quando o assunto é entender os vetores que guiam as decisões de política externa de países como os Estados Unidos e Israel.

Tal como nos EUA, Israel também tem o seu “lame duck” – o atual PM Ehud Olmert, envolvido em uma gama de escândalos de corrupção e favorecimento ilícitos, tornando-o um verdadeiro “zumbi” político no final de seu mandato. Como na política não há vácuo, e a fila anda, é mais do que óbvio de que estão abertas as inscrições para o seu sucessor. Duas candidaturas despontam neste cenário: a atual Ministra de Relações Exteriores Tzipi Livni, representante do partido centrista Kadima (fundado pelo ex-PM Ariel Sharon), e o ex-PM e atual presidente do partido direitista Likud, Benjamin Netanyahu. É nesse cenário político-eleitoral que deve ser compreendida a decisão atual do exército israelense em revidar violentamente contra os foguetes lançados pelo partido radical sunita Hamas na Faixa de Gaza, bem como a promessa feita pelo atual governo de Israel de “varrer do mapa” o Hamas, que atualmente controla o governo da Faixa de Gaza – dada a divisão no seio dos atores político palestinos, a Cisjordânia é governada por Mahmoud Abbas e o moderado Partido Fatah, fundado pelo falecido líder palestino Yasser Arafat.
Apenas a título de esclarecimento, o Hamas venceu as últimas eleições palestinas, forçando a criação de um governo de coalizão com o Fatah. Após um início turbulento, a trégua entre os dois partidos rompeu-se de forma violenta – com centenas de mortos de ambos os lados -, levando a uma profunda cisão na Autoridade Palestina que até hoje não foi solucionada…
A questão é que a chanceler Livni, candidata favorita nas eleições para o novo governo israelense, vem sido acusada – mais especificamente, o seu partido, o Kadima – pelo Likud de Netanyahu de leniência e tibieza ao enfrentar a ameaça do Hamas na Faixa de Gaza. O estopim do atual conflito se deu durante a semana dos festejos natalícios, onde os militantes do Hamas resolveram “comemorar” o feriado lançando foguetes que atingiram as cidade de Ashkelon e Sderot.
Por outro lado, a eleição de Barack Obama para o governo dos EUA lança sérias dúvidas sobre uma futura configuração do governo americano para com a questão israelo-palestina, bem como a manutenção do “alinhamento irrestrito” entre os dois países, cultivado pelos falcões e neocons do governo W. Bush – isso, apesar do vice de Obama, Joe Biden, ser um notório defensor e um dos principais lobistas da causa israelense em Washington.
Portanto, dadas as circunstâncias desfavoráveis para o atual governo do Kadima, é que o premiê Olmert resolveu desferir um ataque arrasador contra as posições do Hamas em Gaza, matando mais de 300 pessoas (até o presente momento), e deixando milhares de feridos – inclusive civis, como mulheres e crianças. A desproporcionalidade do revide israelense reflete o poderio militar do Estado Judeu na região, além de obedecer a máxima clausewitziana de que “a guerra é a continuação da política por intermédio de outros meios”. A guerra é uma forma possível de resolução de conflitos utilizando-se de outras ferramentas – como a violência e o terror. Afinal, os generais entram em cena quando os diplomatas fracassam, e os políticos se aproveitam…
Por outro lado, Barack Obama, que até o presente momento vem mantendo o silêncio justificando que “só há um Presidente de cada vez”, enfrenta de cara uma das maiores crises de seu futuro governo. Tudo o que não lhe interessa agora é um Oriente Médio em chamas, dadas as respostas dos governos árabes condenando os ataques aos palestinos, e as inúmeras manifestações nas ruas das grandes capitais da região, como Beirute, Aman, Teerã e Cairo. Apesar da tradicional desunião do mundo árabe – afinal é sunita de um lado, xiita do outro, wahabista correndo por fora, uma verdadeira “casa de Noca”- , é evidente que não é nem um pouco interessante que governos atualmente alinhados com os EUA – os casos do Egito, da Jordânia e da Arábia Saudita – sejam questionados pelos seus súditos. Caso isso aconteça, a Síria, o Irã e o libanês Hezbollah de Hassan Nasrallah agradecerão, e pedirão passagem…
Aliás, a lógica tradicional de Israel para com a questão palestina não tem sido muito eficaz nas últimas décadas. Pelo menos é o que afirma Tom Seguev, em artigo publicado hoje no periódico israelense Haaretz (http://www.haaretz.com/hasen/spages/1050706.html), ao afirmar a ineficácia da estratégia israelense, baseada em dois aspectos: primeiro, a de que os palestinos, dado o seu fundamentalismo religioso baseado na irracionalidade, só conseguiriam ser dobrados à base da força, obedecendo a infalivel “lógica do porrete”; segundo, os bombardeios aos líderes palestinos fariam com que a população civil da Faixa de Gaza se rebelasse contra o Hamas, abrindo caminho para o surgimento de lideranças políticas mais moderadas e mais “palatáveis” ao gosto tanto de Israel quanto dos EUA.
Infelizmente, a história nos mostra o contrário. Basta lembrar do “banho de sangue” da última Intifada, bem como os atentados suicidas a cafés, bares, hotéis e ônibus em Jersualém, Tel-Aviv, Haifa…
Noves fora essa confusão toda, o fato é que o futuro governo Obama está diante daquilo que certamente será a sua primeira grande crise internacional, e que poderá “atropelá-lo” no que diz respeito a uma estratégia, antecipada em sua campanha presidencial, de dialogar com os governos pertencentes ao chamado “Eixo do Mal” – leia-se, a Síria e o Irã. Talvez a marcha dos acontecimentos faça com que os estrategistas de Obama, capitaneados pela futura Secretária de Estado Hillary Clinton, tenham de fazer alguns ajustes diante do que foi outrora planejado. Um dos sinais mais indicativos desse fato é que, hoje, o governo sírio declarou ter “congelado” as negociações com Israel no que diz respeito a devolução das Colinas de Golam, perdidas após a Guerra dos Cem Dias
Vamos aguardar o desenrolar das operações na região, bem como a entrada em cena da diplomacia da União Européia, da Rússia e da China, além dos apelos norte-americanos de cessar-fogo imediato. Torço para que chegue-se logo a uma trégua pois, a cada dia que passa e o bodycount progride em escala geométrica, é possível que uma faísca gere um incêndio de incomensuráveis proporções, levando ao transbordamento do conflito para outras áreas – leia-se, o Líbano
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