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É NATAL, É NATAL

Como bom brasileiro que sou, deixo sempre para fazer as coisas na última hora. Como o domingão aqui na Cidade Maravilhosa foi de tempo nublado – com o sol abrindo do meio da tarde em diante – resolvi encarar de frente um shopping center às vésperas do Natal. Coisa de maluco? Retardamento mental depois de velho? Não, simplesmente programa de índio daqueles que eu faço pelo menos uma vez por ano…

Para a minha surpresa, o shopping estava lotado, mas não superlotado – apesar de ser um centro de consumo badaladíssimo, perto de onde moro. Mas, mesmo assim, um desconforto só para quem está acostumado a flanar despreocupadamente pelas alamedas amplas e iluminadas durante os dias de semana regulares. Afinal, sempre quando posso, dou uma “fugidinha” ao shopping para fazer o que mais gosto: ler o meu jornal em paz, bebericar um espresso e olhar os últimos lançamentos em música, filmes, shows e livros. Ou seja, um momento de tranquilidade para depois retornar ao caos do cotidiano…

Além dos corredores cheios e de pessoas portando inúmeras sacolas – muitas delas, inclusive, se equilibrando por contarem com apenas duas mãos -, uma das coisas que mais chama a minha atenção nessa época do ano é o encantamento das pessoas para com os símbolos natalinos. Parei para jantar com a minha esposa em um restaurante próximo a uma árvore de Natal, e vi inúmeros pais, mães, avôs, avós, tios e tias – acompanhados de seus respectivos filhos(as), sobrinhos(as) e netos(as) – olhando embasbacados(as) para esse símbolo-mor do período, para depois clicarem os seus familiares para posteridade nesse momento tão singelo quanto efêmero. Porém, uma questão não me sai da cabeça todas as vezes que me deparo com essas cenas: será que essas pessoas se lembram – ou pelo menos fazem alguma idéia – do que realmente é o Natal?

Festa cristã por excelência, é no Natal que comemora-se o nascimento de Jesus Cristo. Apesar da polêmica envolvendo católicos, ortodoxos e protestantes acerca do local, data e significado do nascimento do Messias, há uma certa concordância de que é nesta época do ano que evocam-se os sentimentos mais elevados do perdão ao próximo, da abertura e compreensão ao outro, além de um momento de circunspecção e reflexão pessoal que todo o indivíduo deveria fazer. Afinal, isto está presente nas outras religiões monoteístas – como, por exemplo, no Yom Kippur judaico e no Ramadã islâmico -, fazendo com que tal ritual não se torne algo exclusivo da cristandade…

No entanto, fico imaginando se aquelas pessoas todas que estavam circulando neste frenesi consumista de hoje à tarde incluíam tais pensamentos em sua agenda de reflexões. Aliás, o que mais me incomoda neste crescimento religioso que o mundo vem experimentando nestas últimas décadas, é o total descompasso entre a crença e a ação. Ou seja, fala-se muito, mas faz-se muito pouco…

Na filosofia, tal desconexão entre o logos (discurso) e a praxis (ação) caracteriza um dilema essencialmente ético, pois o agir humano deve estar em conformidade com o conjunto de crenças e valores que guia as decisões e as escolhas de uma pessoa durante a sua vida, caracterizando uma forma de ser e de existir – um ethos – em consonância com o bem-estar da coletividade. Pois, afinal de contas, há uma diferença gigantesca entre o agir moral – preocupado com o que é bom para o indivíduo – e o agir ético – consubstanciado na preocupação com o bem da coletividade humana. Logo, um dos principais males da civilização humana na contemporaneidade passa necessariamente por uma questão ética, qual seja, a do agir individual irrefletido que passa totalmente ao largo de qualquer tipo de preocupação para com o bem-estar da coletividade humana. Em resumo, trata-se do bom e velho ensinamento familiar que os meus pais me transmitiram à exaustão: o seu direito individual cessa quando começa a interferir no direito da outra pessoa…

Infelizmente, para a grande maioria das pessoas, tal discussão parece conversa abstrata de gente que não tem o que fazer, pois, como disse uma aluna minha há muitos anos atrás, “pensar dá cãimbra no cérebro”! Talvez, isso seja também reflexo do meu amadurecimento posto que, com o correr do tempo, nos tornamos mais reticentes, mais conservadores e mais preocupados com questões existenciais do que quando mais jovens – não que estas questões não existam durante a juventude, pelo contrário, mas a natureza, duração e intensidade das mesmas é completamente diferente…

Isso me lembra uma conversa que tive semana passada com um querido amigo, um psicoterapeuta renomado, quando chegamos à conclusão de que as preocupações que nos assolavam quando jovens passam ao largo dessas novas gerações – mais preocupadas com o imediatismo do resultado rápido, com o lucro financeiro, com o sucesso pessoal a todo o custo, não raro temperado com doses cavalares de consumo exorbitante, aliado a drogas sintéticas “turbinadas” com poderosos energéticos, que são desintoxicadas após horas de spinning nas academias de ginástica.

Chegamos à conclusão de que os livros escritos por psicoterapeutas importantes, porém pouco lidos em nossas gerações – os casos de Victor Frankl e Erik Ericksson -, tornaram-se mais urgentes do que nunca para que possamos significar tempos tão difíceis como esses, atravessados por um mar de afastamentos, distopias e derivas existenciais. As pessoas continuam a sofrer: porém, agora, em corpos “sarados”, “marombados”, ao som de iPods customizados e roupas da moda, invariavelmente compradas em parcelas a perder de vista em cartões de crédito invariavelmente “estourados”…

Meus pacientes leitores, desculpem essa diatribe desse Escriba que vos fala, culpa de uma noite antes do sono em pleno domingão de férias, exausto, após rodar a tarde inteira no shopping à cata de presentes para familiares e amigos. Apenas faço uma breve reflexão a respeito de sentimentos tão contraditórios que inundam as pessoas neste período de virada de ano – e que, muitas das vezes, levam à quadros de tristeza e melancolia. Não quero incutir tais sentimentos em meus precisos leitores – longe disso! -, trata-se apenas de uma simples digressão a respeito de questões que teimam em aparecer em minha tela mental de pensamentos…

Aliás, aproveito a oportunidade para desejar a todos os meus leitores e visitantes do PRAGMA um Feliz Natal para vocês e todos os seus familiares!
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Categorias:Filosofia, Natal, Pensamentos
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