DEMOREI, MAS VOLTEI!

Desculpem, meus queridíssimos e fiéis leitores, a ausência tão prolongada de posts aqui no PRAGMA, mas o fato é que esse Escriba que vos fala anda muito ocupado – aliás, ocupado e cansado em demasia. O motivo desse interregno tão espaçado é um tanto o quanto simples, mas justificável. É que eu estava em viagem, representando a minha universidade (UERJ) no 6o. Seminário Nacional da Unirede, ocorrido esse ano na cidade mineira de São João D’El Rey, mais especificamente no simpaticíssimo e histórico campus da UFSJ – Universidade Federal de São João D’El Rey.

Fiquei hospedado em um belíssimo casarão colonial, uma pousada bem ao estilo mineiro, na estrada antiga que liga São João à Tiradentes. Sem acesso à internet – o hotel não possuía wi-fi nos quartos, contando apenas com uma mísera máquina no balcão da recepção -, preferi experimentar um pouco do sentimento da info-exclusão – ou melhor, um verdadeiro “spa” de “desintoxicação digital”, associado a uma tremenda “dieta de engorda” a base dos quitutes da típica e maravilhosa cozinha mineira (uma orgia de tutus de feijão, lombos de porco ora pro nobis, torresmos, pastéis de angu, linguiças, além das compotas e doces maravilhosos acompanhados de uma cachacinha para arrematar – afinal, esse Escriba também é filho de Deus!). Resultado: além de algumas arrobas a mais, a minha vesícula reclamou muito, mas voltei com o coração um pouco mais feliz, e a alma com um espírito mais elevado. Afinal, estamos falando das Minas Gerais, terra que tem uma capacidade de nos transformar e nos revigorar…

Terra de Tancredo Neves, de Dom Lucas Moreira Neves, de Otto Lara Resende, da Lira Sanjoanenese e dos artefatos em estanho (diga-se de passagem, cada um mais lindo do que o outro), São João D’El Rey é uma cidade relativamente grande (cerca de 85.000 habitantes), com todas as funcionalidades e confortos dignos de um urbanóide inveterado como eu (uma fartura de agências bancárias e um centro da cidade bem agitado), onde o casario antigo e as igrejas históricas se mesclam às novas construções, gerando um tecido urbano híbrido e interessante. Antes que os meus curiosos leitores me perguntem, apesar da UFSJ ficar em frente à Igreja de São Francisco de Assis (vide foto), não tive tempo de visitá-la nem de ir ao túmulo de Tancredo Neves, localizado no cemitério nos fundos da mesma. Culpa da correria da agenda, do calor infernal que lá fazia e até mesmo do pouco interesse que tal programa me despertava – apesar de seu status de herói, o filho dileto da cidade que chegou à Presidência da República…
Aliás, fomos muitíssimo bem recebidos pela UFSJ – a nossa anfitriã, Profa. Bernadete, coordenadora do Núcleo de Educação à Distância (Nead), foi a simpatia e a hospitalidade mineiras em pessoa! Não apenas a pousada em que ficamos hospedados era muito bonita – um casarão colonial no meio do mato, tendo por moldura a Serra de São José e o céu estreladíssimo -, mas foram várias as surpresas que foram preparadas pela equipe de recepção do evento aos convivas. Saraus de poesia recitados com atores em roupas de época, música de câmara, violeiros embalando suas violas com um cardápio típico de “buteco” (uma tradição mineiríssima, para quem não sabe), tudo isso entremeado com muito café adoçado, pão de queijo, broa de milho, queijo minas… Bom demais da conta!!!
Mas, confesso, o que mais me impressionou foi a cidade de Tiradentes. Um povoado bem pequeno (com um pouco mais de 6.800 habitantes), que mantém quase que integralmente as suas características do século XVII (o casario antigo, suas igrejas magníficas exalando o esplendor do barroco mineiro, o calçamento do tempo do ciclo do ouro), cujo centro histórico permanece intacto e impressiona e muito o visitante. É diferente de outras cidades históricas que visitei antes – como a própria São João D’El Rey e Parati -, onde o casario antigo é preservado, porém cercado de habitações mais novas que destoam do restante. Claro que cada uma delas é charmosíssima, mas foi em Tiradentes que eu pude experimentar de maneira mais plena o famoso senso de “mineiridade”…
Dada a sua continentalidade e a ausência de mar, Minas Gerais é uma terra muito estranha para quem, como eu, é um “carioca da gema”. E essa estranheza aguçou o meu sentimento de curiosidade quando me deparei com essa pequena cidade. Não sei, mas a sensação que passa é que a qualquer instante você irá cruzar com uma procissão religiosa, com sinhás e mucamas conversando animadamente enquanto espiam as últimas “modas” trazidas pelos mascates em suas viagens ao litoral. Tiradentes parece uma cidade que parou no tempo, um instantâneo do tempo do Brasil Colônia, onde você se vê só (ah, esqueci, você e os cachorros!), em meio ao casario histórico, e se põe a ouvir as vozes e histórias daquele tempo. Com certeza, cada pedra capistrana do calçamento irregular, cada esquina, cada igreja, cada altar ornamentado de ouro, cada ladainha recitada ao sofrido deslizar das mãos pelas contas do rosário, cada réquiem, tudo remete à religiosidade extrema das Minas Gerais. ..
Tudo isso tendo ao fundo o paredão da Serra de São José e as dobraduras a perder de vista das montanhas que, de forma inclemente, nos lembram o quão essa terra é tão espiritualizada, mágica e profundamente reflexiva. Confesso que me senti em meio ao cenário típico dos romances de Cornélio Penna, onde a mística religiosa que transpira das igrejas coaduna com o ar decadente de um Brasil que não volta mais, próspero e aúreo, mas que teima em existir na mente e nos hábitos de seus habitantes. Tiradentes é bela como um relicário a céu aberto, eivada de fantasmas do passado, que nos sussuram histórias, intrigas e tertúlias do tempo em que éramos uma colônia, um departamento lusitano d’além-mar. Em uma simples palavra: é emocionante…
Fiquei tão impactado, que pretendo voltar lá o mais breve possível. Afinal, quero fazer uma viagem de Maria-Fumaça de São João D’El Rey até Tiradentes – coisa que não pude fazer, pois o passeio só ocorre nos finais de semana. Além disso, pretendo não apenas rever essa jóia mineira, como também quero conhecer outras cidades históricas mineiras – tais como Congonhas do Campo (e ver os profetas em pedra-sabão do Aleijadinho), Sabará, Mariana, a mística Ouro Preto (todos que lá foram me disseram que é um negócio do outro mundo!), e quiçá Diamantina (terra de Xica da Silva, apesar de ser longe prá dedéu!). Em janeiro, para desintoxicar, vou pegar a estrada e vou para lá, para ver se deparo com um pouco mais de poesia e arte em minha vida…
Tiradentes é um encanto e um espanto, simultaneamente. Uma cidade mágica, parada no tempo, um instante eterno no pensamento de alguém tão mobilizado pelo sentimento de história como esse Escriba que vos fala. Sem sombra de dúvida, passei a respeitar e a olhar com outros olhos as Minas Gerais. Só lá é que você entende melhor porque o céu estrelado da noite parece tão próximo da terra, a ponto de nós quase tocarmos as estrelas com os nossos olhos…
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