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BRASIL, A PÁTRIA DO CAFÉ: SOLUÇÃO OU PROBLEMA?

O Brasil é o maior produtor e exportador de café do mundo, e seus habitantes estabeleceram um caso de amor seríssimo pela rubiácea. Segundo pesquisa recente realizada pela TNS Interscience, 97% dos brasileiros consomem regularmente a bebida. Uma simples olhada nas ruas e shoppings centers de nossas cidades atesta o “boom” das cafeterias – afinal, nada melhor do que ler uma revista, ou então acessar a internet na companhia de um bom ristretto. Perguntem para a Nespresso, Starbucks, Fran’s Cafe, Café do Ponto, Vanilla Cafe, Otavio, Rei do Mate, Casa do Pão de Queijo, dentre inúmeras outras bandeiras, acerca do potencial do mercado brasileiro?

O café, definitivamente, entrou na moda, e vem sendo tratado – corretamente, em minha humilde opinião – como uma bebida sofisticada e diferenciada, em um posicionamento inspirado no segmento da vitivinicultura. Termos oriundos deste último, tais como terroir, blend, corpo e aroma, agora fazem parte da experiência de degustação de cafés premium.

No entanto, o que parece ser um “pote de ouro”, traz uma série de problemas para o segmento das torrefadoras de café…

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o brasileiro consome em média cerca de 4,5 quilos de café por ano – menos da metade da média do consumidor europeu. Em termos de volume, o consumo cresceu cerca de 4% em relação a 2007 – 18 milhões de sacas -, mas pesquisas de mercado indicam que o consumo residencial cresce a taxas marginais. Além disso, conforme discuti em outro post, a maioria esmagadora dos nossos consumidores prefere o café coado – o nosso querido “cafezinho” servido em botequins nas ruas movimentadas dos grandes centros, entre um intervalo e outro no trabalho – do que outras variações da bebida, tais como os espressos, os capuccinos, os macchiattos e outros blends mais sofisticados.

Eis o problema de marketing: como aumentar o consumo de café por habitante em nosso mercado? Aliás, em primeiro lugar, como despertar no brasileiro novos hábitos e formas de degustação dessa maravilhosa rubiácea de origem etíope?

Pensando nisso, na última quinta-feira, os fabricantes de cafés da indústria brasileira participaram de uma reunião em um resort ensolarado no litoral pernambucano discutindo novas formas de incentivar o consumo da bebida. Várias idéias muito interessantes foram levantadas: café com leite gelado vendido em garrafinhas de iogurte, cafés terapêuticos, café com soja ou refrigerantes, e até mesmo produtos a base de café para o consumo infantil – dada as propriedades estimulantes da bebida. Até mesmo cerveja com café foi sugerida – o que já não é propriamente uma novidade, pois a cervejaria Colorado de Ribeirão Preto (SP) lançou uma versão combinando estas duas paixões nacionais…

O fato é que a indústria está se mexendo, e algumas novidades já estão prestes a serem lançadas no mercado. Por exemplo, a Café Iguaçu lança agora no mês de dezembro um pó para milkshake de café. A empresa já tinha produzido uma série especial de cafés saborizados para o período de inverno. Já a Melitta está lançando no Sul do país uma linha de cafés de diferentes regiões produtoras – Mogiana paulista, Sul de Minas e Cerrado mineiro -, e pretende expandí-la para todo o Brasil.

No entanto, um dos grandes problemas a serem enfrentados está na introdução do café na dieta infantil. Os principais stakeholders – nutricionistas, médicos e educadores – nutrem sérias reservas quanto a esse fato, dadas as notórias propriedades estimulantes da cafeína, um de seus elementos mais característicos. É público e notório a propaganda negativa que cerca a bebida, especialmente no âmbito da mídia escrita e televisiva. A adoção – ou pelo menos a busca – de um estilo de vida mais “saudável” também contribui para esse quadro, dado que o café é visto como sendo a sua antítese. No entanto, a indústria pretende convencer pais, escolas, professores e governos das propriedades terapêuticas da bebida, investindo pesadamente em pesquisas médicas, marketing e relacionamento com os consumidores.

Vale lembrar que é no segmento infantil que se encontram as piores taxas de consumo de café, cuja dieta é dominada pelos achocolatados. O café carrega a pecha de “bebida para adulto”, e cerca de 58% das pessoas afirmam que a recusa em beber café repousa no fato da bebida fazer mal à saúde. No mínimo, é um dilema de marketing interessante a ser enfrentado pelo setor…

De qualquer maneira, em tempos de crise econômica, é sempre bom investir em inovação. Pois, segundo aponta Chris Anderson em seu best-seller “A Cauda Longa”, aumentar o leque de opções de escolha é sempre salutar para o consumidor, e também para as empresas. Afinal, a variedade estimula o consumo, e não o contrário, pois a mesmice é um saco, e as pessoas querem novidades… sempre!
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