VIZINHANÇA DO BARULHO

Como se já não bastassem Hugo Chávez e Evo Morales a encherem o nosso saco – justiça seja feita, esse último anda ultimamente de bola baixíssima -, agora mais dois reforços se juntaram ao time de descontentes e recalcados com a pujança da economia brasileira…

Nessa semana que se encerra, dois significativos eventos chamaram a atenção da diplomacia brasileira. O primeiro deles: cerca de 30 soldados brasileiros entraram em território paraguaio, por ocasião de exercícios militares na fronteira entre os estados de Canindeyu (no Paraguai) e Mato Grosso do Sul (no Brasil). Ato contínuo, a chancelaria paraguaia protestou veementemente e, até o presente momento, o nosso Ministério da Defesa não se pronunciou a este respeito.

Dado o histórico anterior turbulento entre os dois países – a Guerra do Paraguai é abordada nas escolas daquele país como um “genocídio” perpretado pelas elites brasileiras -, tal fato é extremamente preocupante. Isso se torna mais relevante dado o fato de que o presidente recém-eleito Fernando Lugo não disse até hoje a que veio, e já existem críticas ao seu trabalho na sociedade paraguaia. Nesse sentido, uma “guerrinha” de nervos entre os dois países seria ótima para reforçar a popularidade do presidente paraguaio entre os seus concidadãos – vide o caso do seu colega boliviano, que teve a sua popularidade jogada às alturas por ocasião da invasão das refinarias brasileiras em solo daquele país…

O segundo incidente, mais grave, já se arrasta há alguns meses, e envolve os governos brasileiro e equatoriano. O “clone” de Hugo Chávez, o Presidente Rafael Corrêa, rompeu unilateralmente um contrato com a construtura brasileira Odebrecht para a construção de uma usina hidrelética em seu país, alegando várias irregularidades por parte da empreiteira. Até aí nada demais, seria apenas um contencioso empresarial a mais em um mundo cada vez mais interligado, se não fosse pelo fato de que a obra foi realizada com recursos conjuntos do BNDES – banco brasileiro de fomento ao desenvolvimento interno, mas que assumiu uma diretriz de financiamento de obras no continente a partir do Governo Lula -, ou seja, com dinheiro meu, seu e dos nossos contribuintes…

Essa semana, Corrêa assumiu o “calote” e disse que vai levar o caso às cortes internacionais de arbitragem. Como o Itamaraty já é “gato escaldado” (vide o caso boliviano), rapidamente o nosso chanceler Celso Amorim chamou para consultas o seu embaixador naquele país – o que, configura, no jargão diplomático, um ato de extrema gravidade, estando na ante-sala da ruptura de relações entre os dois países.

Duas coisas devem ser levadas em consideração no caso equatoriano. A primeira delas é que Brasil e Equador não partilham fronteiras, além do fato de que as relações econômicas entre os dois países sempre foram bastante insossas e pouco densas – em comparação a países como a Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Venezuela, a Bolívia, e até mesmo a Colômbia.

Em segundo lugar, me parece que esta última reação mostrou que a diplomacia brasileira está pautando as suas reações mais por um viés realista (realpolitik) de mundo do que por um viés idealista (amparada por uma “pretensa” união dos governos progressistas e de esquerda no continente, segundo alguns “luminares” do Governo Lula). Coisas de um país que é interpretado como imperialista pelos seus vizinhos, e cuja influência na região cresce proporcionalmente ao desprezo da política externa norte-americana pela América do Sul.

Temos de encarar sem medo tal fato: somos a potência proeminente da região, e o aparecimento destas reações devem ser a tônica daqui em diante no cenário da política externa brasileira. No entanto, parodiando o teórico norte-americano de Relações Internacionais Joseph Nye, nossa predominância se dá no âmbito do soft power (diplomacia econômica, social e cultural) e não na esfera do hard power (poderio militar). O Brasil, no atual cenário interno e externo, não têm arroubos de dominação militar sobre os seus vizinhos, e nem as suas elites políticas têm veleidades ou esquizofrenias dessa natureza. Apesar de nosso gigantismo, somos um país recente no cenário mundial, com inúmeros problemas (pobreza, desigualdade social, violência urbana, dentre outros), e bastante discretos quando o assunto é influência no sistema internacional. Para nós, brasileiros, o que mais nos interessa em um cenário de curto, médio e longo prazos, é um entorno estável para que todos possam prosperar economica, política e socialmente – vide o caso da Argentina.

Agora, daqui há 50 anos, ninguém sabe como o tabuleiro estará armado. Talvez, seja por isso que esses países estejam reagindo tão intensamente à predominância brasileira no continente. Como diria a minha velha avó, cautela e caldo de galinha não fazem mal à ninguém…
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