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>DICA DE CINEMA – "VICKY CRISTINA BARCELONA"

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Sou fã dos filmes de Woody Allen. Confesso, sem pestanejar! Para quem me conhece mais amiúde, nada mais previsível do que esta preferência. Afinal, além de minha formação “psi”, gosto de diretores norte-americanos com um ar europeu, que filmam como se sentissem “peixes fora d’água” – aliás, algo que ocorre frequentemente comigo. Além disso, gosto de entretenimento inteligente, perspicaz, com humor sarcástico e mordaz, que possibilite fazer inúmeros links com outros conteúdos e experiências…

Nada melhor do que encontrar isto nos filmes deste judeu nova-iorquino com décadas de tratamento psicanálitico, apaixonado por jazz e eventual clarinetista, cujas histórias soam atemporais, posto que tratam daquilo que é mais frequente no ser humano: suas neuroses, seus temores, suas insatisfações, suas inconstâncias, suas frustrações… ou seja, tudo aquilo que atormenta e ao mesmo tempo nos possibilita rirmos de nós mesmos. Assim como expresso no título de um livro do filósofo alemão Friedrich NietzscheHumano, Demasiado Humano

Ou seja, Woody Allen é um cineasta de alma européia que, por um capricho do destino, vive na América como um judeu nova-iorquino, que conta histórias pretensamente comuns, porém deliciosamente belas e singelas, de encontros e desencontros entre homens e mulheres, além dos tormentos do ser humano com a genialidade e a criatividade versus a banalidade e a bestialidade do mundo. No meu entendimento, é por estes motivos que seus filmes exercem um poder catártico sobre a sua audiência. Afinal, quem nunca se viu projetado na tela ao presenciar alguns (dos inúmeros e feéricos) diálogos travados entre as suas personagens?

Assistir a um filme dele faz bem para o corpo e para a alma: desentoxica o cérebro, e desopila o fígado…

Claro, como bom saudosista, adoro as obras clássicas do cineasta, especialmente que se passam em Nova York – tais como Annie Hall (1977), Manhattan (1979), Memórias (1980), Zelig (1984), Hannah e Suas Irmãs (1986), Crimes e Pecados (1989), Desconstruindo Harry (1997), Celebridades (1998), Melinda e Melinda (2005) -, assim como os dramas de inspiração bergsoniana – a fantástica trilogia Interiores (1978), Setembro (1987) e A Outra (1978) -, além de outras películas deliciosas de se ver – como, por exemplo, A Rosa Púrura do Cairo (1985), A Era do Rádio (1987), Simplesmente Alice (1990), Neblinas e Sombras (1992), Poderosa Afrodite (1995), Todos Dizem Eu Te Amo (1996), dentre várias da vasta obra do diretor.

Apesar de gostar do diretor, estou bastante desatualizado quando o assunto é sua obra mais recente. Culpa da falta de tempo, sempre ele, a me atrapalhar quando o assunto é desfrutar das melhores coisas que a vida nos oferece…

No entanto, aproveitando o raro final de semana na Cidade Maravilhosa, corri para o cinema para ver a estréia de seu mais novo filme, Vicky Cristina Barcelona (2008). Estranhamente, o filme é ambientado na belíssima cidade catalã de Barcelona, assim como os três últimos filmes do diretor – Match Point, Scoop e O Sonho de Cassandra -, ambientados na cinzenta Londres, fora da outrora tão amada e incensada Nova York. Tal fato se deve a um misto de oportunidade e prazer, segundo o diretor, uma vez que há pouco dinheiro disponível na América para rodar as suas produções – que são de baixo custo, mas cada vez menos populares na terra do Tio Sam.

Esse ressentimento, aliás, é exposto no filme quando por ocasião do noivo de uma das protagonistas da trama, um americano típico, um otário mauricinho com cara de idiota, materialista até o último fio de cabelo, um tremendo babaca que despeja frases feitas repletas de descricionariedade e de clichês de livros de auto-ajuda…

O filme é uma comédia fina, daquelas típicas do diretor, que mostra uma alternância de triângulos amorosos entre três mulheres – a neurótica Vicky (Rebecca Hall), a mais neurótica ainda Cristina (a deslumbrante Scarlett Johansson, a nova musa do diretor) e a auto-destrutiva Maria Elena (a belíssima Penélope Cruz, em uma interpretação hilariante e cheia de presença) – e um pintor histriônico, um verdadeiro canastrão sedutor (interpretado pelo talentoso Javier Bárden, surpreendente para quem o viu em Quando Os Fracos Não Têm Vez), um canalha que toda a mulher um dia irá se deparar, ou já se deparou, em sua vida…

A trama é ensolarada, leve e divertida, em uma atmosfera relaxada tal como essa belíssima parte mediterrânea da Espanha. Apesar disso, Allen se sente pouco à vontade com o sol excessivo, além de explorar pouco as belezas de Barcelona, caindo inevitavelmente nos clichês americanos sobre o caráter latino – tudo no filme exala sexo, desde o som das guitarras, até as flores que decoram as ramblas, passando pelas fincas, a arquitetura feérica e excêntrica de Gaudí (muito pouco explorada pelo cineasta), as praças, os jantares à noite, os olhares de soslaio, tudo isso regado a muito, muito vinho…

Tudo isso, no entanto, são meros detalhes diante do prazer de assistir a um filme seu. São pequenas máculas que não interferem tanto no resultado final, especialmente se o seu objetivo é buscar um entretenimento inteligente e sofisticado, diferente dos filmes banais de ação, terror e suspense que infestam as nossas telas de cinema ultimamente.

Como hoje é sabadão de sol, um tremendo feriado, vale a pena dar um esticada no cinema e assistir a película. Pelo menos, lhes garanto, o mesmo dá um apetite tremendo, dada a quantidade de restaurantes interessantes e vinhos espanhóis maravilhosos sorvidos pelas personagens. É um deleite para a alma em tempos tão sombrios, com certeza…
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