>VENDAS DE CDs EM QUEDA? AONDE?

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Esse assunto está mais do que surrado, diriam os meus informados e pacientes leitores. Mas, sempre quando pode, esse Escriba que vos fala posta no PRAGMA um contra-exemplo que é ilustrativo do quão perigoso é a adoção de um raciocínio intuitivo baseado em truísmos consagrados por executivos, gurus de negócios, revistas e colunistas de plantão.

Aliás, o bom de ser blogueiro, é que não temos nenhum compromisso com ninguém, a não ser com a verdade e o respeito aos nossos fiéis leitores…

Desde o lançamento de ferramentas P2P e sites de compartilhamento de arquivos (músicas, fotos, vídeos e outros arquivos digitais), o modo de consumir e distribuir música mudou absurdamente. Do disco de vinil para o CD já foi uma tremenda revolução, dado o tamanho diminuto do último e o maior espaço de armazenamento das músicas. Porém, do CD para o MP3, a passagem foi catastrófica para as gravadoras e a indústria musical como um todo, dando poder (empowerment) aos consumidores – aliás, redefinidos como “prosumers”, seguindo o linguajar da moda, definidos como consumidores pró-ativos, engajados e envolvidos na produção e consumo de bens simbólicos, e não meros receptadores passivos de produtos e serviços.

Aliás, esse negócio de “prosumerismo” é a última moda no entender de estrategistas de negócios como C. K. Prahalad (A Riqueza na Base da Pirâmide) e Chris Anderson (A Cauda Longa), além de estar presente em pesquisas que revelam novas tendências de consumo…

Além disto, o MP3 revolucionou a forma de se consumir música (além de outros arquivos digitais), por possibilitar ao consumidor sair do modelo de listas de músicas pré-determinada, possibilitando que estes criassem uma seleção de arquivos afeita ao seu gosto, intento e preferências – fenômeno este chamado de podcasting. Além do mais, quem nunca ficou chateado de gastar os seus preciosos “cobres” em um CD que só têm duas ou três músicas que prestam, o resto sendo jogado fora na prateleira empoeirada das caixinhas de acrílico?

Então, meus caros, bem-vindo ao mundo do prosumerismo: consumidores infiéis, bem informados, que buscam o tempo todo valor, extremamente críticos com relação às estratégias de marketing desenvolvidas pelas empresas, fazendo com que as mesmas gastem cada vez mais e mais para convencer esses “escorregadios” clientes…

Logo, todos os jornais e revistas de negócio se apressaram em escrever réquiens sobre a morte dos CDs, e a emergência de audiências novas interessadas mais na experiência de “baixar” e engendrar listas próprias de música do que comprar e estocar álbuns e caixinhas de acrílico. Elementar, meu caro Escriba: átomos por bits…

No entanto, nada melhor do que um dia após o outro para que os nossos velhos truísmos de mercado sejam desafiados pelos movimentos aleatórios desses prosumidores. Vejam só: um dos maiores sucessos musicais – e comerciais – do ano de 2008 é uma velha e carcomida banda de rock’n’roll. A banda australiana AC/DC, há oito anos sem lançar um álbum de músicas inéditas, resolveu lançar em 20 de outubro desse ano o seu 15o disco com uma estratégia de marketing – digamos – bem tradicional e nada moderninha…

Black Ice, o novo álbum do guitarrista endiabrado Angus Young & Cia., começou a ser vendido nos EUA apenas na rede varejista Wal-Mart, e não pode ser encontrado oficialmente na internet (já nos torrents da vida…). Os caras, pioneiros do hard rock e tremendos vendedores de álbuns, já venderam mais de 1,7 milhões do novo álbum discos desde o seu lançamento – menos de um mês, portanto -, e estão em primeiro lugar nos charts norte-americano e de outros 29 países. Ou seja, um tremendo sucesso!

Apesar de já serem vovôs do rock e do visual prá lá de “old fashioned”, os caras estão de olho na molecada, e liberaram as músicas de Black Ice para o videogame Rock Band – um dos maiores sucessos da indústria, que já vendeu 6 milhões de unidades e faturou US$ 600 milhões. Espertinhos, não?!

Agora, bem entendido, isto tudo só pode ocorrer em uma banda que é um verdadeiro “dinossauro” da história do rock, cuja idolatria de seus fãs beira a histeria. Só para vocês terem uma idéia, desde 1991, a banda vendeu nos EUA cerca de 26,4 milhões de discos, estando à frente dos Rolling Stones, e sendo superada apenas pelos imortais Beatles

Outro fator a ser levado em consideração é a fidelidade dos fãs de rock pesado aos seus artistas, além do fato de que o AC/DC nunca saiu de sua fórmula consagrada – a voz anasalada do vocalista Brian Johnson, os riffs enlouquecedores de guitarra dos irmãos Angus e Malcolm Young, e a “cozinha” baixo-bateria que funciona como um relógio. Enfim, em tempos de experimentalismos e outras doidices, é sempre bom que as pessoas encontrem refúgio naquilo que lhes é familiar e conhecido, que desperta fortes emoções. Especialmente quando o hiato é de 8 anos – aí mesmo é que os fãs não aguentam e vão às lojas em legiões…

Pausa para meditação: será que o case acima é sinal do retornos dos velhos tempos? Ou então um mero capricho do acaso, um último suspiro do tradicionalismo frente aos novos tempos? Um mero canto do cisne? Com a palavra vocês, meus caríssimos leitores…

Uma dica para guiar a reflexão: um produto razoável com um bom marketing gera até bons resultados. Agora, um excelente produto com um marketing consistente, é lucro na certa!

Em tempo: esse Escriba que vos fala comprou Black Ice desde o final de outubro. Confesso: o álbum é tão bom, mas tão bom, que periga “furar” o disco de tanto eu ouvir. O meu aparelho de som, por exemplo, já não aguenta mais…

No entanto, eu quero é MAIS!

I WANNA ROCK!!!

Esta semana, resenho o álbum para os meus leitores roqueiros – como esse Escriba, que sempre vos fala…
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