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SESSÃO DE CINEMA – "NA NATUREZA SELVAGEM"

Há um tempo sem ver filmes – seja por preguiça ou por pura desmotivação -, fui convencido por um casal de amigos a ver o último filme do diretor e ator Sean Penn, Na Natureza Selvagem (Into the Wild, 2007). O filme é baseado no livro homônino do escritor norte-americano John Krakauer, que conta a história bela e trágica do jovem Christopher Johnson McCandless que, nascido em uma família de classe média e educado em ótimos colégios, joga tudo para o alto e sai em busca de sua identidade e crescimento espiritual em uma viagem de ida – como dizem os americanos, in a one-way ticket…

Particularmente, eu já tinha visto o trailer desse filme no cinema, e confesso aos meus leitores que na época não dei a mínima para a película. Sou um camarada deveras urbanóide, apegado as coisas materiais e ao sucesso financeiro, e nunca fui muito fã de histórias de pessoas que “chutaram o pau da barraca” para viver uma vida mais frugal e simples. Além do mais quando a trama envolve hippies e outros espécimes outsiders, pois sou cínico e cético o suficiente para não acreditar em qualquer tipo de filosofia existencial ingênua e naïve

Pois bem, nada disso importa agora. Acabei de ver a película, e estou absolutamente chapado! Impactado, essa é a palavra certa! O filme é belo, lindo, maravilhoso! Acho que ficaria horas e horas descrevendo sobre todas associações que fiz durante o filme. Talvez, a coisa mais legal seja o seu aspecto simultaneamente feliz e trágico – uma verdadeira tragédia na acepção plena da palavra, pois o reconhecimento e as consciência de si do herói somente advêem de uma viagem insólita aos recônditos da alma, submergindo para depois emergir…
As palavras me faltam para descrever o que estou sentido. Pouquíssimas foram as histórias que me deixaram assim, emocionado, encantado e arrebatado por essa viagem que começa com uma simples rebeldia adolescente pequeno-burguesa, para depois se transformar em uma belíssima trama onde a descoberta de si passa por um outro estilo de vida, onde o ser é mais importante do que o ter, e toda uma nova estilística existencial é posta em jogo com um único objetivo: alcançar a sabedoria e a plenitude espiritual, representadas na afânise do plano final do filme – arrebatadora para qualquer pessoa que, como esse Escriba que vos fala, acha que existe muito mais encanto na vida do que apenas trabalhar feito um louco, ganhar muito dinheiro, ter uma boa casa e um belo carro…
Não, não se assustem meus caros leitores! Definitivamente, esse Escrba está à anos-luz de se tornar um hippie tardio – nem é do meu gosto! -, mas confesso que, com o passar dos anos, começo a considerar seriamente em minha vida a possibilidade de algum tipo de reflexão espiritual – que não necessariamente envolva algum tipo de religião ou credo organizado, mas que passa pela simples constatação de que deve haver algo a mais no mundo do que essa vida em que vivemos – algo a mais que nos torne seres iluminados, mais felizes, mais compassivos e mais preocupados com as outras pessoas e com o mundo que nos cerca…
Como disse antes, palavras são insuficientes para descrever toda a riqueza intrínseca ao filme. Assim como as interpretações arrebatadoras tanto do jovem ator Emile Hirsch (que faz o protagonista do filme) quanto a do veterano Hal Holbrook (que faz um viúvo ensimesmado e solitário). Bem como as belíssimas imagens da natureza selvagem norte-americana que permeiam o filme inteiro, graças a fotografia de Eric Gautier (o mesmo de Diários de Motocicleta, de Walter Salles Jr.), e a trilha sonora de Eddie Veddar (o vocalista do Pearl Jam), rústica, autoral e selvagem tal como a trama e as imagens do filme. Enfim, tudo na película se encaixa com maestria, e não sei a que horas irei dormir, posto que até agora estou em estado de choque…
Talvez o que mais tenha me tocado seja que, guardadas as devidas proporções, também sou um sujeito ensimesmado e um tanto o quanto casmurro, buscando agir segundo uma ética existencial ferrenha que acaba restringindo em muito o número de pessoas com as quais eu tenho verdadeiramente prazer em me relacionar. Não sei se fruto da idade, ou então por pura teimosia ou ingenuidade, estou cada vez mais sem paciência para a truculência do cotidiano, e estou buscando relações – tanto com as pessoas quanto com o mundo – que sejam mais densas, construtivas e existencialmente consistentes. Isto é, estou começando a ficar enfadado com a superficialidade, a aparência e a “fraqueza” das relações interpessoais “‘líquidas” (obrigado Baumann) na contemporaneidade…
Enfim, não sei, estou em processo. E, certamente, Na Natureza Selvagem o fez acelerar ainda mais, acentuando um pouco mais a minha já adensada misantropia. Espero sinceramente que, no final dos tempos, eu seja agraciado com a possibilidade de vivenciar uma experiência de contato pleno com o mundo, tal como descrita na última – e apoteótica – cena do filme…
Enquanto isso não ocorre, vou vivendo, me inspirando e buscando o meu quinhão de felicidade nesse deserto emocional que é esse plano existencial em que vivemos – ou estaremos aprisionados? Agora, não deixem de ver esse filme! Vale a pena, pois é emocionante. Pelo menos, é o que eu estou sentindo agora, e que certamente se estenderá durante as próximas semanas…
PS: A primeira foto deste post foi revelada da máquina do próprio McCandless, retirada do ônibus abandonado que lhe servia de abrigo em pleno Alasca. Trata-se de um auto-retrato que, supõe-se, foi tirado por ele um pouco antes de sua morte. É ou não um rosto iluminado, de quem está prestes a ingressar em uma outra dimensão espiritual?
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Categorias:Arte, Cinema, Entretenimento
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