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DICA DE LIVRO – FELIPE PENA: O Analfabeto Que Passou no Vestibular

A falta de tempo na maioria das vezes me atrapalha quando o assunto é ler títulos de literatura. Dada a minha frenética atividade de trabalho, estou sempre às voltas com livros técnicos das minhas áreas de interesse – que, diga-se de passagem, são muitas -, tais como Marketing, História, Ciências Sociais, Antropologia, Educação, Psicologia…

Portanto, é raro eu tecer comentários sobre livros de literatura em si, além do mais quando o negócio é literatura brasileira atual. Reconheço, meus eruditos leitores, que é uma falha desse Escriba que vos fala, e pretendo corrigí-la de maneira mais atenta nos próximos meses. Assim sendo, não resisti a falar sobre um livro cuja leitura terminei em menos de uma semana, tamanho o interesse despertado e a atualidade do tema…

Confesso a vocês que não achei o livro lá essas coisas, mas o tema é irresistível – especialmente quando olhamos o currículo do autor. Trata-se do romance O Analfabeto Que Passou no Vestibular (Editora 7 Letras, 2008), de autoria de Felipe Pena – uma incursão literária no que o próprio autor denomina de “ficção jornalística”. O livro é, parodiando um colunista social das antigas, nitroglicerina pura…

O autor, atualmente professor da Universidade Federal Fluminense foi, num passado não tão distante assim, Diretor do Curso de Comunicação Social, e posteriormente Vice-Reitor da Universidade Estácio de Sá – o maior conglomerado de ensino superior privado do nosso país, com quase 200 mil alunos matriculados em seus mais diferentes cursos, e que recentemente abriu o seu capital na bolsa de valores (je suis désolé!)…

Escrito em uma linguagem ágil e com uma trama prá lá de frenética, o livro é um relato ficcional do submundo das atividades escusas envolvendo os mais diferentes atores e grupos sociais que fazem parte da realidade atual da cidade do Rio de Janeiro. Entre as personagens, traficantes de drogas, milicianos, delegados corruptos, jornalistas anti-éticos e dirigentes de universidades de qualidade duvidosa se misturam em um enredo onde o estado oficial e o estado paralelo não apenas se interpenetram, mas também parecem estabelecer uma relação de parasitismo e de sobrevivência intrínsecas. Nada que assuste um carioca da gema que vive cotidianamente os fatos relatados no livro. Mas, para quem não conhece o contexto, é assustador! Porém, ainda tem mais…

O melhor do livro é o seu tempero especial, contido na descrição (“ficcional”, é claro!) que o autor faz do cultura e do clima organizacionais da fantasiosa Universidade Bartolomeu Dias (?!?!?!) – o maior conglomerado de ensino superior do país, mas que vive à beira da falência por uma conjunção de fatores, que vai desde a má-gestão até a inépcia administrativa: o caráter um tanto o quanto excêntrico de seu dono (que desfere verdadeiros vitupérios contra a educação de um modo geral, professores e suas respectivas formações acadêmicas), o puxa-saquismo e a incompetência essencial de seus assessores (aliás, um pré-requisto indispensável para ser dirigente da universidade), somado à competição intestina envolvendo o dono e os seus enjeitados herdeiros…

O mote da trama gira em torno de uma estudante de farmácia que é misteriosamente baleada no campus da Universidade Bartolomeu Dias, após fugir da favela que cerca o local com um misterioso bilhete que encerra o elemento central da estória. A partir daí, surgem personagens “pitorescos” como o diretor do curso de psicologia dublê de escritor frustado e detetive; a sedutora e insinuante professora do curso de jornalismo; o analfabeto que passa no vestibular, e vira pau-mandado dos puxa-sacos do reitor; os vice-reitores subservientes e espertalhões, que só pensam em passar a perna uns nos outros; o diretor de Marketing da universidade, cujo nome é Manuel Capacho (sugestivo por si só!); o reitor que despreza profundamente a Educação, mas que construiu a sua fortuna às custas da enganação, empulhação e exploração dos seus funcionários. Tudo isso, emoldurado por uma visão da educação como “negócio”, onde o “aluno é cliente”, o “professor é custo” e a qualidade dos cursos é apenas um mero detalhe – desprezível – na equação do lucro desenfreado. Ou seja, como o próprio autor relatou em diversas entrevistas, o seu livro é uma espécie de denúncia contra a banalização do ensino superior e da falta de fiscalização e regulação do Estado no segmento universitário.

Para os mais desavisados, o livro é um retrato tétrico e desalentado sobre o panorama atual da sociedade e da educação brasileiras. Vale lembrar que, apesar da trama ser ambientada na Cidade Maravilhosa, todas as mazelas ali descritas afligem o nosso país como um todo, sem exceção!

No entanto, para quem é um insider do ensino superior privado – como é o caso do autor e desse Escriba que vos fala -, é com uma ponta de satisfação e de orgulho que vejo alguém botar o “dedo na ferida” de um tema tão urgente, porém pouco presente e explorado pela nossa mídia. O quadro é claro: vestibulares de araque, “gestores” incompetentes, professores tratados feito lixo e alunos em busca apenas de um “canudo” – na vã esperança de que este possa melhorar as suas perspectivas de vida. Confesso que, apesar de trágico, não contive inúmeras vezes o riso, tamanha a verossimilhança entre a ficção e a vida real. Apesar de ficcional, o livro é bastante fiel à realidade…

Recomendo fortemente o livro não apenas para professores, alunos e pesquisadores interessados na mercantilização do ensino superior brasileiro a partir dos anos 1990, mas também para todo aquele interessado em saber para onde está caminhando o nosso país. Se a Educação é o melhor indicador que temos para o futuro, realmente estamos indo a passos mastodônticos para o fundo do poço!

Ou seja: We’re going into the fuckin’ pit!!!

Leiam e tirem as suas próprias conclusões. Afinal, o escritor apenas inspira o leitor a interpretar e fazer as suas conexões com a sua própria experiência de vida. Ou seja, cada um faz o seu próprio intertexto, e cabe a nós pensar no que fazer com tudo isto…
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