ISSO EXISTE DE VERDADE!

Muitos dos meus alunos ficam espantandos quando, em minhas aulas de Pesquisa de Mercado, lhes digo que os problemas de acessibilidade aos entrevistados devem ser levados seriamente em consideração, e definitivamente minimizados a fim de não comprometer o sucesso de uma pesquisa. Especialmente quando ela é realizada em grandes centros urbano, fatores como preconceito, medo de sequestros, assaltos e outras fobias urbanas costumam emergir como variáveis intervenientes, tornando-se um fator complicador quando se trata de abordar um determinado target.

Não se trata aqui de “bom mocismo” ou da reafirmação da surrada metáfora do “bom pobre” – derivada do famoso argumento do “bom selvagem” de Rousseau. Mas, que é difícil entrevistar pessoas de renda mais elevada, habitantes de bairros abastados das grandes cidades, ah isso é!…

Estão em dúvida? Perguntem, então, aos pesquisadores do IBGE as agruras que eles estão passando na cidade do Rio de Janeiro, por ocasião do levantamento de dados para o Fundo de Participação dos Estados e Municípios. O relato do ocorrido encontra-se em uma reportagem da edição de sábado (ontem), publicada no periódico Folha de S. Paulo, no caderno Cotidiano 2

Segundo a matéria, a resistência aos pesquisadores do IBGE é muito maior nos bairros da Zona Sul da cidade em comparação às comunidades e aos bairros situados nas Zonas Norte e Oeste. Isto é, a paranóia que tomou de assalto a classe média e os emergentes da Cidade Maravilhosa está tornando mais trabalhosa a vida dos nossos recenseadores…

Em média, os pesquisadores têm de ir cinco vezes nas residências localizadas em bairros de classe alta para concluir o trabalho da pesquisa, contra a média de duas visitas dos entrevistadores nas favelas e bairros mais pobres. Segundo a matéria, os técnicos do IBGE estiveram de três a cinco vezes em prédios de bairros da Zona Sul (Copacabana, Leme, Ipanema, Leblon, Lagoa, Jardim Botânico, Botafogo, Flamengo, Glória, Catete, Laranjeiras, Largo do Machado, Cosme Velho, Gávea e São Conrado) para concluir o levantamento, contra quatro vezes na Zona Oeste (Barra da Tijuca, Jacarepaguá, Vila Valqueire e Recreio) e na Zona Norte (Tijuca, Praça da Bandeira, Vila Isabel, Grajaú, Jardim Guanabara, Galeão, Méier, Engenho Novo, Engenho de Dentro, Lins de Vasconcelos, Madureira e Vila da Penha), e três vezes em bairros de Niterói (Icaraí, São Francisco e Santa Rosa), na Região Metropolitana da cidade.

Já nas comunidades carentes, a média que os técnicos enfrentaram para encerrar o levantamento foi de duas visitas. As favelas em questão são: Rocinha, Pavão-Pavãozinho, Rio das Pedras, Cidade de Deus, Santo Cristo, Mineira, Manguinhos, Jacarezinho, Vila Cruzeiro, Vigário Geral, Juramento, Vila Aliança, Carobinha, Barbante e Buraco do Boi (esta última em Niterói).

Ou seja, apesar das dificuldades inerentes a pesquisa em comunidades carentes – o acesso físico complicado, além das barreiras impostas pelo tráfico de drogas -, é muito mais fácil chegar aos habitantes destas regiões do que aos moradores dos bairros mais abastados – cujo acesso, em tese, seria mais fácil…

As barreiras de ingresso aos pesquisadores do IBGE nessas áreas são óbvias. Uma breve visita a estes bairros, uma olhadinha em sua arquitetura pontilhada por prédios e abastadas casas, basta por si só: muros altíssimos, grades altas, cercas eletrificadas, inúmeras guaritas de segurança, vigias mal-humorados, além de moradores desconfiados até o último fio de cabelo… Desconfiados, pouco corteses e, na grande maioria das vezes, bruscos e mal-humorados com os pobres dos técnicos do órgão governamental!

Segundo os pesquisadores, os moradores das áreas ricas são bastante práticos, porém extremamente reservados quando o assunto é a renda familiar do domicílio. Em especial, o bairro do Leblon é um dos mais problemáticos para a coleta de dados. Em contraste, os recenseadores são recebidos de maneira mais calorosa e atenciosa pelos moradores da áreas mais carentes, a despeito do medo real que assombra estas comunidades…

Tudo isto para ilustrar algo que discuti durante a semana passada toda com as minhas turmas em Botafogo, Barra da Tijuca e Blumenau: há de se prever (e precaver), por ocasião do planejamento de uma pesquisa de mercado, de possíveis percalços no que diz respeito ao acesso aos entrevistados. Caso isto não seja feito de maneira cuidadosa e pensada, o resultado pode ser a demora na coleta dos dados, com o consequente aumento dos custos da pesquisa, além da incidência de possíveis erros amostrais.
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