>INTERESSANTE…

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Nada melhor que um pouco de afastamento para entender melhor o que se passa ao nosso redor…

Estou teclando em meu notebook em uma manhã demasiadamente acabrunhada em Sampa, ao lado do aeroporto de Congonhas, cercado por um céu acinzentado e uma garoa tipicamente paulistana. Desço do quarto de hotel para tomar o desjejum, leio os jornais do dia, e confesso que o segundo turno das eleições municipais vai se tornando interessante a cada dia…

Especialmente no Rio de Janeiro – a “outrora ainda” Cidade Maravilhosa -, que vem perdendo assustadoramente a sua atratividade econômica, porém mantendo o seu charme e encanto especialmente para aqueles que vêm visitá-la…

Com a definição do segundo turno, a disputa pela Prefeitura da cidade envolve os deputados federais Eduardo Paes (do PMDB, apoiado pelo Governador Sérgio Cabral) e Fernando Gabeira (do PV, apoiado pelo PSDB). Após um início e campanha prá lá de “morno”, marcada pela disparada do ex-bispo atual Senador Marcelo “Cavalo Paraguaio” Crivella, Gabeira cresceu na reta final e arrebatou a vaga para a segunda etapa do pleito.

Como se isso não bastasse, pesquisa publicada pelo Data Folha no meio desa semana indicava que Gabeira liderava o segundo turno com 43% das intenções de voto, contra 41% de Paes. Como explicar tudo isso?

Assim como tudo na vida, política é oportunidade e momento, e Gabeira sobre capitalizar o descontentamento da classe média carioca, órfã do governo catastrófico de Cesar Maia, e imprensada entre a “fanfarronice” e a política de enfrentamento do Governador Sérgio Cabral. Para quem não conhece a política carioca em seus meandros, é necessário dizer que o eleitorado da capital é completamente diferente do restante do Estado, além de ser extremamente crítico e “do contra”. Como exemplo, basta ver que o PT teve um ganho colossal na região metropolitana, especialmente nos municípios da Baixada Fluminense (Nova Iguaçu, Belfort Roxo e Mesquita, principalmente), ao passo que o seu desempenho na capital foi previsivelmente pífio e redículo.

Seja por saudosismo ou revolta mesmo, o carioca protesta contra a dilapidição do tecido urbano da cidade, além da perda do prestígio econômico e político da cidade. Além disso, na cidade, o potencial de transferência de votos do Presidente e do Governador do Estado para o seu candidato é muito reduzido, apesar das práticas clientelistas e dos favorecimentos que transformam o cenário político da vereança uma lama só – basta ver os candidatos apadrinhados pela milícia e pelo tráfico de drogas, que foram estrepitosamente eleitos, tornando a próxima legislatura uma sucursal de processos, cassações e escândalos…

Como carioca, professor e pesquisador, faço aqui algumas considerações que me chamam a atenção no pleito atual:

1. A não ida de Crivella para o segundo turno não me espantou nem um pouco, dada a altíssima taxa de rejeição que o mesmo goza no seio dos eleitores da capital. Graças as práticas “heterodoxas” da Igreja Universal, da qual o candidato emergiu, a imagem entre os eleitores mais escolarizados e os formadores de opinião é a pior possível! Além disso, o segmento evangélico – que não é um bloco monolítico, mas sim repleto de nuances e tendências – não vota em Crivella, a não ser os fiéis e simpatizantes da IURD.

2. A rejeição a Eduardo Paes é maior entre os funcionários públicos – e é preciso que se entenda que, dado o seu caráter anterior de capital federal, a cidade do Rio possui um número muito grande de “barnabés” tanto na ativa quanto aposentados. Independentemente do caos de seu último governo, o Prefeito Cesar Maia sempre tratou a “pão-de-ló” o funcionalismo público – tenho uma mãe em casa, professora aposentada, que é testemunha disso! Apesar do fracasso de sua candidata Solange Amaral, Maia ainda tem um considerável respaldo por parte desse segmento. Some-se a isso o fato de que o atual Governador do Estado, o “fanfarrão” Sergio Cabral, está muito mais para produtor de factóides do que propriamente um gestor competente da máquina pública. O governador é odiado pelo funcionalismo público do Estado por sua política de reajustes pífios e achicalhes em público – recentemente, ele chamou os médicos do Estado de “vagabundos”. Por um instinto de auto-preservação e auto-proteção, os funcionários municipais correm de Eduardo Paes como o Diabo foge da cruz…

3. Gabeira, apesar de totalmente identificado com o espírito libertário da Zona Sul, cresceu nessa reta final por sua imensa capacidade de comunicação com o público. Sua fala mansa e calma, seu típico bom humor carioca e sua vasta experiência política ajudam a diminuir a rejeição de aspectos polêmicos de sua trajetória pública – como, por exemplo, ser “terrorista”, a de defender a descriminalização das drogas e os direitos dos homossexuais. Além disso, é inteligente, articulado, charming e cosmopolita – enfim, não é um candidato “mauricinho”, artificil, robótico, forjado nos inúmeros briefings de marqueteiros políticos…

Ambos os contenedores têm grandes desafios. O de Gabeira é o de crescer nas Zonas Oeste e Norte, regiões da cidade com a maior concentração de eleitores, e que possuem características peculiares de dinâmica política completamente diferentes da Zona Sul – onde o candidato verde é apoiado em massa! Por outro lado, Paes tem uma grande vantagem por praticar uma política de apoio nessas regiões que, em sua vasta maioria, são áreas empobrecidas, violentas e alijadas da ação do poder público…

Por outro lado, Paes precisa desesperadamente reverter a sua imagem perante o funcionalismo público municipal, que teme em demasia o tipo de tratamento dispensado aos funcionários do Estado pelo atual Governador. Além disso, a Zona Sul – que não é majoritária, mas é formadora de opinião – abraçou o candidato do PV, e vê com imensa desconfiança o bom-mocismo e a tecnicalidade discursiva de Paes.

Enfim, um confronto do gigantes, que promete ser emocionante até o final…

Por fim, após a leitura dos jornais, não posso deixar de comentar o quão tem sido sido interessante a dinâmica das alianças para esse segundo turno. Por um lado, os partidos de tradição “progressista” e de esquerda (PT, PC do B, PDT e PSB) apóiam Eduardo Paes, muito em função da pressão de Sérgio Cabral após a “lavada” que o mesmo colheu no Estado, dada a derrota de seus candidatos em municípios importantes na Baixada Fluminense. Até o Lula, coitado, teve de gravar uma mensagem de apoio a Paes, depois deste ter “esculachado” o Presidente durante a CPI do Mensalão. Como é incrível a política, não?

Por outro lado, Gabeira recebeu o apoio discreto do Cesar Maia, e sua base eleitoral nas Zonas Oeste e Norte sente-se muito mais à vontade apoiando um candidato líder nas pesquisas com uma trajetória de ascensão meteórica de dar inveja a qualquer político!

Com diz um querido amigo meu: o partido pode apoiar, mas a base toda de esquerda não irá votar em Eduardo Paes…

Enfim… deixa eu encerrar por aqui, pois daqui há pouco estarei pegando o vôo de volta para o Rio. Espero que com menos chuva e mais sol, para curtir um pouco o restinho de domingo que ainda me sobra…
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