SALÁRIOS E ENSINO SUPERIOR

A recuperação de renda dos segmentos econômicos menos favorecidos na sociedade brasileira é um fato público e notório. Já comentei exaustivamente aqui no PRAGMA os fatores que levaram a esse fenômeno econômico e social notável. Aproveitando esse ensejo, muitas empresas enxergam oportunidades de negócios visando atender a esse consumidor ávido por ascensão social – o tão falado consumo “aspiracional”. No entanto, nem em todos os segmentos a coisa é tão fácil assim…

Um dos valores basilares da chamada classe média “tradicional” – faço aqui uma diferença entre esse segmento e a chamada classe média “emergente”, fenômeno típico do Governo Lula – é o investimento pesado em qualificação educacional. Composta em sua grande maioria por profissionais liberais e funcionários públicos, a classe média sempre entendeu que a Educação é o melhor meio de ascensão social, dado possibilitar um melhor posicionamento na competição por melhores cargos e salários. Tanto na iniciativa pública quanto privada – basta ver os programas dos concursos públicos e os processos seletivos de estagiários e trainees -, a formação educacional superior de qualidade é um requisito indispensável. No entanto, essa relação linear entre salário e educação vem sofrendo sensíveis alterações nos últimos anos. Consequentemente, é preciso que mudemos a nossa maneira de pensar essa questão…

Segundo artigo de Naércio Menezes Filho publicado no jornal Valor Econômico do dia 03/10 passado, uma análise dos dados da Pnad 2007 (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios) do IBGE evidencia uma tendência que vem se avolumando nos dois últimos anos: a de que a diferença entre os salários do ensino superior e do ensino médio vem diminuindo a passos largos. Ou seja, o ingresso na universidade não é mais a certeza tanto de emprego quanto de uma melhor remuneração. Por que será que isto está ocorrendo?

Vamos aos dados: em 1992, a diferença entre os salários do ensino médio e do ensino superior era de 140%, atingindo o seu ápice em 2004 com o patamar de 200%, declinando desde então até atingir o nível de 180% em 2007. Ou seja, após um longo e teneboroso inverno, o ensino profissionalizante e as habilitações técnicas vêm recuperando a sua atratividade no âmbito do mercado de trabalho em nosso país.

Como em qualquer fenômeno microeconômico, esse movimento se explica pela lei da oferta e da procura. A demanda por profissionais de ensino médio vem crescendo acima da oferta, fato que ocorre inversamente no âmbito do ensino superior. Alguns fatores explicam este fenômeno de renovação de interesse por profissionais de nível técnico, mas dois se destacam de maneira mais intensa.

A primeira diz respeito ao processo de reconversão da capacidade produtiva da economia brasileira, baseada na introdução de novas tecnologias – em especial as TICs (Tecnologias da Informação e da Comunicação). Consequentemente, aumenta a necessidade das empresas por profissionais que tenham uma elevada qualificação técnica, voltada para as áreas da tecnologia de ponta – robótica e automação, microeletrônica e processamento de dados. E, nesse sentido, o ensino técnico profissionalizante de nível médio no Brasil sempre apresentou experiências eficientes, de qualidade e de excelência. Basta ver os exemplos mais do que positivos de instituições como os Cefets, os Senais, os Senacs e Sesis da vida…

A segunda diz respeito ao boom do ensino superior privado a partir dos anos 1990, com a explosão de faculdades, centros universitários e universidades em nosso país. Dada a atratividade do ensino superior – em função da promessa de salários elevados e carreiras mais sólidas -, a universidade tornou-se o sonho de consumo para as classes sociais em vias de ascensão social. Daí, obedecendo a velha máxima microeconômica, o aumento da procura levou ao aumento da oferta de vagas em instituições privadas de reputação duvidosa e de qualidade sofrível.

Ou seja, pagamos o preço da qualidade em prol da quantidade, e o resultado agora é uma compressão dos salários da profissões superiores graças a um mercado inundado por profissionais de baixíssima qualidade, formados em “pardieiros”, “arapucas” educacionais, faculdades de “fundo de quintal” do tipo “pagou-e-passou”, onde a máxima do “aluno-cliente” é o foco das ações de relacionamento dos gestores educacionais. Como a regulação governamental nesse período também foi deveras deficiente, os empresários do ensino preocuparam-se muito mais em satisfazer a sua ânsia plutocrática do lucro à curto prazo do que em incrementar a qualidade da formação oferecida em suas instituições de ensino – na grande maioria das vezes, labels que ostentam inclusive o nome de suas famílias….

O resultado disto é que, dado o prêmio obtido pelo investimento em educação superior ser cada vez menor, ocorre uma diminuição da procura pelos cursos superiores no Brasil, com um aumento da ociosidade dessas instituições. Por sua vez, estas, para se adaptar a esses tempos “bicudos”, tomam medidas drásticas de redução de custos que comprometem ainda mais a qualidade de seus cursos, gerando uma espiral descendente de qualidade. Ou seja, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come…

Se pelo lado da oferta o negócio está feio, pelo lado da demanda a coisa também está bastante esquisita. Segundo dados da mesma Pnad 2007, pela primeira vez na história do país há uma diminuição das taxas de natalidade – as famílias estão menos entusiasmadas a conceber e criar filhos. Além disso, os filhos das classes econômicas menos favorecidas – diga-se de passagem, as que apresentam as maiores taxas de fecundidade – estão frequentando menos a escola (em especial, o ensino médio), em função das pressões econômicas e da necessidade imperiosa de ingresso no mercado de trabalho para auxiliar o sustento de suas famílias. Tudo isso proporcionou o declínio contínuo do número de matrículas no ensino médio brasileiro nos últimos anos. O resultado, já sabemos: menos gente na escola, menos formandos no ensino médio; quanto menor o número de formandos, menor a demanda para a educação superior.

E assim, la nave va…

No entanto, esse cenário não é ruim de todo. Pelo lado do ensino médio, a baixa procura está ligada ao ensino de baixa qualidade (especialmente público), com currículos desatualizados e bolorentos, além de professores mal remunerados e mal formados, fora as péssimas condições estruturais nos Estados e Municípios. Talvez, uma das soluções seria investir pesadamente em cursos técnicos e profissionalizantes, que tornar-se-iam mais atraentes para os jovens mais carentes – que, além de resolver a necessidade urgente de mão-de-obra mais qualificada, afastariam os estudantes das situações risco social.

Por outro lado, paradoxalmente, a demanda por ensino superior de qualidade cresce vertiginosamente. Muitos alunos formados por essas universidades, ao final de seus cursos de graduação, buscam instituições de ensino de ponta para ingressar em cursos de MBA e Especialização a fim de qualificarem-se de maneira adequada e consistente para um mercado de trabalho arduamente seletivo. No fundo, é o velho dilema entre as orientações de curto e longo prazo fazendo com que, ao final, apenas os que possuem qualidade possam sobreviver.

Em suma, é a velha máxima darwinista da “luta pela sobrevivência” aplicada ao segmento educacional…
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  1. Josiane Cabral
    outubro 11, 2008 às 3:08 am

    excelente texto professor!
    vc mesmo num texto longo, contagia e faz a gente ler até o fim, até mesmo aqui na telinha.

    fico me perguntando pq naum tive a idéia de pedir pra vc autografar meu livro tb… uixxx…q burra!

    semana q vem eu vou pra Blumenau de certeza. vamos pra oktober?

    abraços,

  2. José Mauro Nunes
    outubro 14, 2008 às 2:36 pm

    Olá Josiane, tudo bem?

    Não tem problema! Se passares em Blumenau, leve o livro que eu assino!

    Quanto a Oktober, infelizmente não poderei ir. Tenho um compromisso no Rio no domingo…

    Abraços

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