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Archive for outubro \30\UTC 2008

>BLACKBERRY PARA CONSUMIDORES FINAIS

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Atenta à revolução dos smartphones ocorrida a partir do lançamento do iPhone, da Apple, muitas empresas estão mirando seriamente este segmento de aparelhos na tentativa de buscar mercados mais rentáveis, além de adensar o uso de transmissão de arquivos de dados (música, jogos, vídeo e internet) por parte dos consumidores.

A Research in Motion (RIM), fabricante do Blackberry (gadget predileto dos engravatados, “mauricinhos” do mercado financeiro e professores da FGV!), resolveu deslanchar uma nova linha de aparelhos que busquem atingir esse target composto pelos consumidores finais. Desafio este interessante, posto que os aparelhos da companhia canadense são reconhecidos como sendo os melhores por parte dos consumidores organizacionais. A aposta dos executivos da empresa pode ser resumida da seguinte maneira: “se deu certo com os grandes executivos, que são clientes extremamente exigentes, por que não daria com os usuários finais?”. Um caso típico de transferência dos atributos da marca de um segmento de clientes para outro.

Aparelhos mais recentes da empresa já chegaram no mercado brasileiro – notadamente ávido por novidades quando o assunto é telefone celular. O Blackberry Bold, cuja foto ilustra este post, tem o objetivo de agradar tanto os engravatados quanto jovens posto que esses, além de enviarem e receberem seus e-mails, gostam de estar conectados a redes sociais, ouvir música e ver vídeos na telinha do seu smartphone.

É de babar, não acham? Uma beleza…

BLACKBERRY PARA CONSUMIDORES FINAIS

Atenta à revolução dos smartphones ocorrida a partir do lançamento do iPhone, da Apple, muitas empresas estão mirando seriamente este segmento de aparelhos na tentativa de buscar mercados mais rentáveis, além de adensar o uso de transmissão de arquivos de dados (música, jogos, vídeo e internet) por parte dos consumidores.

A Research in Motion (RIM), fabricante do Blackberry (gadget predileto dos engravatados, “mauricinhos” do mercado financeiro e professores da FGV!), resolveu deslanchar uma nova linha de aparelhos que busquem atingir esse target composto pelos consumidores finais. Desafio este interessante, posto que os aparelhos da companhia canadense são reconhecidos como sendo os melhores por parte dos consumidores organizacionais. A aposta dos executivos da empresa pode ser resumida da seguinte maneira: “se deu certo com os grandes executivos, que são clientes extremamente exigentes, por que não daria com os usuários finais?”. Um caso típico de transferência dos atributos da marca de um segmento de clientes para outro.

Aparelhos mais recentes da empresa já chegaram no mercado brasileiro – notadamente ávido por novidades quando o assunto é telefone celular. O Blackberry Bold, cuja foto ilustra este post, tem o objetivo de agradar tanto os engravatados quanto jovens posto que esses, além de enviarem e receberem seus e-mails, gostam de estar conectados a redes sociais, ouvir música e ver vídeos na telinha do seu smartphone.

É de babar, não acham? Uma beleza…

BLACKBERRY PARA CONSUMIDORES FINAIS

Atenta à revolução dos smartphones ocorrida a partir do lançamento do iPhone, da Apple, muitas empresas estão mirando seriamente este segmento de aparelhos na tentativa de buscar mercados mais rentáveis, além de adensar o uso de transmissão de arquivos de dados (música, jogos, vídeo e internet) por parte dos consumidores.

A Research in Motion (RIM), fabricante do Blackberry (gadget predileto dos engravatados, “mauricinhos” do mercado financeiro e professores da FGV!), resolveu deslanchar uma nova linha de aparelhos que busquem atingir esse target composto pelos consumidores finais. Desafio este interessante, posto que os aparelhos da companhia canadense são reconhecidos como sendo os melhores por parte dos consumidores organizacionais. A aposta dos executivos da empresa pode ser resumida da seguinte maneira: “se deu certo com os grandes executivos, que são clientes extremamente exigentes, por que não daria com os usuários finais?”. Um caso típico de transferência dos atributos da marca de um segmento de clientes para outro.

Aparelhos mais recentes da empresa já chegaram no mercado brasileiro – notadamente ávido por novidades quando o assunto é telefone celular. O Blackberry Bold, cuja foto ilustra este post, tem o objetivo de agradar tanto os engravatados quanto jovens posto que esses, além de enviarem e receberem seus e-mails, gostam de estar conectados a redes sociais, ouvir música e ver vídeos na telinha do seu smartphone.

É de babar, não acham? Uma beleza…

>LÍBANO EM REVISTA – NÚMERO 2

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Para os leitores libaneses ou descendentes, libanistas e demais interessados na riqueza histórica, política e cultural do País dos Cedros, saiu o número 2 do periódico Líbano Em Revista.

Uma publicação da Federação das Entidades Líbano-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (Felb-RJ), em parceria com a Aspecto Cultural Ltda., o segundo número está com um “recheio” prá lá de atraente! Vale a pena conferir…

Duas matérias valem a pena serem destacadas. A primeira aborda o direito dos emigrantes libaneses nas eleições do país, escrita pela Profa. Guita Hourani, da Notre Dame University (NDU). A segunda, escrita pelo renomado economista e historiador libanês George Corm (autor de diversos livros sobre a história recente do País do Cedro e do Oriente Médio), é um overview sobre a situação da política libanesa atual, analisada em suas vertentes interna e externa. Vale lembrar que ambos os artigos, assim como todos que compõem a publicação, são inéditos – conforme a linha editorial do periódico, exposta pelo seu editor por ocasião de seu lançamento.

Como se isso não bastasse, os outros artigos abrangem temas de variado interesse como direito, economia, história, turismo e lazer, gastronomia, cinema e literatura. Como uma das novidades deste número 2, há agora uma sessão intitulada agenda que cobre os eventos culturais mais interessantes que ocorrerão tanto no Líbano quanto no Brasil.

Na parte que me toca, há dois artigos de minha autoria neste novo número da Líbano em Revista. O primeiro é sobre o estado atual da educação no País do Cedro, dada a publicação recente de um relatório do Banco Mundial sobre tal questão no Oriente Médio e no Norte da África (Maghreb). O outro, mais light, é sobre as delícias da cerveja Almaza, atualmente a única a ser produzida no Líbano e a mais consumida no país.

Enfim, é informação e diversão inteligente para todos os gostos. Vale lembrar aos interessados que, a partir desse número, a revista será distribuída apenas para os assinantes e vendida em pontos selecionados (livrarias, bancas de jornais e centros culturais) para o público em geral. Para quem não conhece ainda a revista, quer assiná-la, ou então deseja obter maiores informações sobre a publicação, acessem o site (http://www.libanoemrevista.com.br).

E, até o final do ano, mais novidades irão surgir, especialmente no que diz respeito ao site da revista – que será mais dinâmico, interativo e com muito mais conteúdo para todos os nossos leitores, pesquisadores e apaixonados pelo Líbano – como é o caso desse Escriba que vos fala…

Não deixem de prestigiar a publicação, e boa leitura a todos!

LÍBANO EM REVISTA – NÚMERO 2

Para os leitores libaneses ou descendentes, libanistas e demais interessados na riqueza histórica, política e cultural do País dos Cedros, saiu o número 2 do periódico Líbano Em Revista.

Uma publicação da Federação das Entidades Líbano-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (Felb-RJ), em parceria com a Aspecto Cultural Ltda., o segundo número está com um “recheio” prá lá de atraente! Vale a pena conferir…

Duas matérias valem a pena serem destacadas. A primeira aborda o direito dos emigrantes libaneses nas eleições do país, escrita pela Profa. Guita Hourani, da Notre Dame University (NDU). A segunda, escrita pelo renomado economista e historiador libanês George Corm (autor de diversos livros sobre a história recente do País do Cedro e do Oriente Médio), é um overview sobre a situação da política libanesa atual, analisada em suas vertentes interna e externa. Vale lembrar que ambos os artigos, assim como todos que compõem a publicação, são inéditos – conforme a linha editorial do periódico, exposta pelo seu editor por ocasião de seu lançamento.

Como se isso não bastasse, os outros artigos abrangem temas de variado interesse como direito, economia, história, turismo e lazer, gastronomia, cinema e literatura. Como uma das novidades deste número 2, há agora uma sessão intitulada agenda que cobre os eventos culturais mais interessantes que ocorrerão tanto no Líbano quanto no Brasil.

Na parte que me toca, há dois artigos de minha autoria neste novo número da Líbano em Revista. O primeiro é sobre o estado atual da educação no País do Cedro, dada a publicação recente de um relatório do Banco Mundial sobre tal questão no Oriente Médio e no Norte da África (Maghreb). O outro, mais light, é sobre as delícias da cerveja Almaza, atualmente a única a ser produzida no Líbano e a mais consumida no país.

Enfim, é informação e diversão inteligente para todos os gostos. Vale lembrar aos interessados que, a partir desse número, a revista será distribuída apenas para os assinantes e vendida em pontos selecionados (livrarias, bancas de jornais e centros culturais) para o público em geral. Para quem não conhece ainda a revista, quer assiná-la, ou então deseja obter maiores informações sobre a publicação, acessem o site (http://www.libanoemrevista.com.br).

E, até o final do ano, mais novidades irão surgir, especialmente no que diz respeito ao site da revista – que será mais dinâmico, interativo e com muito mais conteúdo para todos os nossos leitores, pesquisadores e apaixonados pelo Líbano – como é o caso desse Escriba que vos fala…

Não deixem de prestigiar a publicação, e boa leitura a todos!

LÍBANO EM REVISTA – NÚMERO 2

outubro 29, 2008 3 comentários
Para os leitores libaneses ou descendentes, libanistas e demais interessados na riqueza histórica, política e cultural do País dos Cedros, saiu o número 2 do periódico Líbano Em Revista.

Uma publicação da Federação das Entidades Líbano-Brasileiras do Estado do Rio de Janeiro (Felb-RJ), em parceria com a Aspecto Cultural Ltda., o segundo número está com um “recheio” prá lá de atraente! Vale a pena conferir…

Duas matérias valem a pena serem destacadas. A primeira aborda o direito dos emigrantes libaneses nas eleições do país, escrita pela Profa. Guita Hourani, da Notre Dame University (NDU). A segunda, escrita pelo renomado economista e historiador libanês George Corm (autor de diversos livros sobre a história recente do País do Cedro e do Oriente Médio), é um overview sobre a situação da política libanesa atual, analisada em suas vertentes interna e externa. Vale lembrar que ambos os artigos, assim como todos que compõem a publicação, são inéditos – conforme a linha editorial do periódico, exposta pelo seu editor por ocasião de seu lançamento.

Como se isso não bastasse, os outros artigos abrangem temas de variado interesse como direito, economia, história, turismo e lazer, gastronomia, cinema e literatura. Como uma das novidades deste número 2, há agora uma sessão intitulada agenda que cobre os eventos culturais mais interessantes que ocorrerão tanto no Líbano quanto no Brasil.

Na parte que me toca, há dois artigos de minha autoria neste novo número da Líbano em Revista. O primeiro é sobre o estado atual da educação no País do Cedro, dada a publicação recente de um relatório do Banco Mundial sobre tal questão no Oriente Médio e no Norte da África (Maghreb). O outro, mais light, é sobre as delícias da cerveja Almaza, atualmente a única a ser produzida no Líbano e a mais consumida no país.

Enfim, é informação e diversão inteligente para todos os gostos. Vale lembrar aos interessados que, a partir desse número, a revista será distribuída apenas para os assinantes e vendida em pontos selecionados (livrarias, bancas de jornais e centros culturais) para o público em geral. Para quem não conhece ainda a revista, quer assiná-la, ou então deseja obter maiores informações sobre a publicação, acessem o site (http://www.libanoemrevista.com.br).

E, até o final do ano, mais novidades irão surgir, especialmente no que diz respeito ao site da revista – que será mais dinâmico, interativo e com muito mais conteúdo para todos os nossos leitores, pesquisadores e apaixonados pelo Líbano – como é o caso desse Escriba que vos fala…

Não deixem de prestigiar a publicação, e boa leitura a todos!

>QUARTETO DE CORDAS

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De repente, pela primeira vez na vida, teve plena consciência da solidão. Não que fosse algo necessariamente opressivo ou desesperador, mas sim uma leve tensão no ar espraiava-se por todo o seu corpo, retesando os seus músculos, enrijecendo a face – a plena sensação de libertação do espírito, até então entorpecido por sentimentos conturbados, contraditórios, destrutivos, aterradores.

Até o presente momento, tinha se afastado demasiadamente de determinadas marcações, crenças, valores, gostos e preferências, em prol de uma suposta nova maneira de existir e de ser. “Tem de dar certo dessa vez”, pensou há alguns anos atrás, “não agüento mais a tristeza de nunca ter sido, ou melhor, de nunca poder ter experimentado a felicidade”. Felicidade, eis o ponto central. Trabalhe, estude, forme uma família, tenha filhos, ouviu durante anos estas fórmulas carcomidas e ossificadas. “Não posso decepcionar quem tanto investiu em mim, isso não é justo!”. Raio de superego infeliz, que não o largava até mesmo quando encontrava-se relaxado, solto, liberto…

Levantou-se e, pela primeira vez em muitos anos, acendeu um charuto. Prazer proibido, que ele mesmo se impunha apenas em momentos de extrema reflexão, onde buscava flexionar o seu eu em busca de uma corrente auspiciosa de pensamentos. As suaves baforadas, espirais de fumaça que exalavam o aroma terroso de um legítimo habano, lembrava o seu amigo de vários anos, velho companheiro de copo e de tabaco, e que não o via há outros tantos. Tudo isso para ajudar-lhe a entrar em um outro plano de consciência – para ver a vida de um outro ângulo, assaz obtuso, porém não tão dramático.

Decidiu que a longa noite não seria completa sem um acompanhamento digno e especial, que combinava com a excepcionalidade da situação. Não pestanejou: foi a sua adega, e abriu uma garrafa de um bom single malt, destinado apenas para ocasiões especiais e de profunda reflexão. Por um momento, pensou o quanto era relativa a geografia, dada a aproximação entre Cuba e Escócia, entre uma tragada e outra. Compreendeu que esta seria uma bela combinação para comemorar, com bons augúrios, o novo momento que se descortinava em sua vida, onde não mais tentaria fazer o certo, o correto, o esperado, o adequado. Apenas procuraria fazer, sem grandes pretensões ou alardes é verdade, o mais simples ato de realizar as coisas pelo puro prazer de exercer a sua soberania existencial. “A partir de hoje”, disse confiante, “inicio o meu reinado de si”. Je suis le Roi de mon chatêau…

Começou a refletir, inspirado pelas efígies de fumaça que encrustravam-se no ar denso, e que teimavam em desenhar arabescos evanescentes e bizantinos – formas que se construíam e se perdiam no tempo e espaço. Imerso em divagações, fazia libações em busca de uma possível paz de espírito, um oásis em meio da tormenta caótica do torvelinho de pensamentos negativos e destrutivos. “Não é possível”, divagou, “estou sempre suspenso entre um pretérito que teima em não me abandonar e um futuro que insiste em não advir!”. Lembrou-se das Três Moiras do Destino, divindades gregas que teimam em não lhe abandonar, guardiãs de sua sina pessoal. “Livre arbítrio”, não se conteve, “é apenas mais uma das várias figuras de linguagem que povoam os nossos pensamentos. Lembrou-se de seu filósofo predileto, Ludwig Wittgenstein, a quem mesmo escreveu inúmeros artigos: os problemas existenciais podem ser reduzidos a meras ilusões gramaticais. A linguagem, sempre a linguagem, esse conjunto de símbolos deveras traquinas, a sempre nos pregar peças, a descortinar a nossa incompletude, a trair os nossos pensamentos. Pensou que, um dia desses, iria escrever um conto sobre as mulheres e a linguagem. Woman, fire and other dangerous things…

Lembrou-se que a música era a sua companheira inseparável, tanto na alegria quanto na tristeza – como já dizia o velho, surrado e cínico bordão. No entanto, não escutava qualquer música, mas sim aquela que estimulava o seu pensamento, um tanto o quanto especial, very spicy, que o fazia visitar os recônditos mais obscuros e empoeirados de sua alma. Essa música, que era só só sua e teimava em soar em seus ouvidos, como uma boa taça de brandy envelhecido, aquebrantava e aquecia o seu espírito, envolvendo-o e protegendo-o quando estava a deriva no oceano de suas angústias e desilusões…

Como sempre fora fã da aridez e da explosão contida, nunca apreciava manifestações generosas ou exacerbadas das emoções. Pelo contrário, era um adimirador inconteste de músicas difíceis, sonoridades desafiadoras, ritmos dissonantes e estridentes, que causavam estranheza e desconforto a grande maioria das pessoas. “O sentimento de Unheimlich, de estranheza essencial”, afirmou, resgatando Freud, apesar de não lê-lo há muito tempo…

Era um aficcionado por toda e qualquer espécie de música cerebral, pois adorava o desafio, a justa, o duelo, e aprendeu desde cedo que viver era uma espécie de partida de gamão, sempre jogada no tabuleiro mental das ilusões perdidas no branco e preto dos dados, e que abriam para infinitas tonalidades de cinza. Atonalismo, dodecafonismo, minimalismo, choice music, Schoenberg, Stockhausen, Berg, Cage, Reich, Glass, Boulez…“Ai que saudade que tenho de desafiar-me, de me exercitar na espessura do mundo, de flanar pelas arestas e pelos vãos criados pela eterna busca, tal como nos vales lunares, onde a imensidão do vazio nos ajuda a encarar a insignificância de nossa existência”…

Nos últimos anos, vivia uma vida medíocre, castrada, emudecida, sem brilho. Uma casa, uma mulher fútil e imatura, um carro do ano, uma carreira de sucesso – os ingredientes certos para uma vida emparedada entre a penúria d’alma e a babaquice aferrada aos bens materiais. Em suma, uma existência no umbral. “Onde estão as pessoas interessantes, as questões indigestas, os debates acalorados, a turbulência existencial, a mais valia de viver?”, exacerbando-se em auto-recriminações. Um pensamento de Passárgada passou-lhe de relance pela tela da consciência: “que saudades tenho da aurora da minha vida…”

“Eu sou o senhor do meu próprio destino, o timoneiro do meu percurso, a me guiar por entre os arrecifes escusos e os icebergs inauditos, a cruzar o Cabo da Boa Esperança sem se incomodar com os percalços engendrados por Netuno”. No entanto, diferentemente de Ulisses, a sua Penélope era uma mera suposição, uma vã ilusão do espírito, tragada pelo mar revolto de sua incontida, porém necessária, libertação. Sentia-se muito menos um argonauta e muito mais alguém que, como Alice, foi tragado para a Toca do Coelho…

“Música, música para os meus ouvidos!”, sentenciou. Afinal, até mesmo o silêncio se sente um pouco só de vez em quando…

Levantou-se com dificuldade da bergère surrada, e foi até a sua imensa coleção de Cds. “Um tanto old-fashioned”, pensou, mas ele mesmo era um colecionador de antiguidades. Afinal, o que seria de nós sem o passado, sem o sentimento de pertença? O passado, sempre o passado a acariciar a nossa face atormentada…

Correu as inúmeras caixas, e encontrou algo que não ouvia há muito, muito tempo. Villa-Lobos: Quarteto de Cordas 12, 13 e 14. “Fantástico!”, exultou, um verdadeiro achado, uma lembrança de tempos onde ele mesmo se impunha desafios cognitivos escabrosos, extenuantes ginásticas mentais. Lembrou que o velho Villa tinha escrito o Quarteto 12 – o seu predileto – em uma cama de hospital em Nova York, nos anos 1950, por ocasião de um problema cardíaco. “Perfeito: música tempestuosa para um coração convalescente!”, declarou peremptoriamente.

Assim, ouviu o empolgante e tenso primeiro movimento – um allegro exultante –, onde a tensão exaustiva dos dois violinos dialoga com a discrição da viola e a gravidade pungente do cello, – diga-se de passagem, ambos teimam em acompanhá-los, ressaltando a dramaticidade da composição. Uma explosão de sons inundou a sala, e um torvelinho de emoções tomou conta da sua mente conturbada e convulsa. Em especial, era um amante de cellos – sua pungência tocava fundo a sua alma, tal como as mulheres de sua vida, que lhe deixaram marcas profundas, e acabavam por produzir lágrimas econômicas, porém furtivas…

“Quem diria”, divagou, “o velho Villa-Lobos sempre a nos pregar peças!”. Uma composição magistral, simultaneamente autóctone e universal, global e local, particular e geral, popular e erudita, conservadora e moderníssima. A alternância entre scherzos, allegros e andantes era um espelho de seu estado de espírito, convulsionado, doído, rasgado, em frangalhos. Uma ponta de orgulho teimava em despontar todas às vezes que ouvia essa composição, pois era a prova cabal de que nós brasileiros somos criativos, apesar de estarmos situados na periferia do mundo. Talvez seja por isso que olhamos tão bem as coisas, porque as vemos sempre de uma perspectiva demasiadamente afastada. Far away so close…

“Que bela composição”, não se conteve ao dizer em voz alta. Uma lágrima escorreu-lhe dos olhos: não de tristeza, mas sim do reconhecimento de estar diante de uma genuína obra de arte. O sublime evoca o que há de melhor no ser humano. “Vinda do coração para o coração”, asseverou, aludindo ao estado de convalescença do Maestro ao compor tal peça…

Abriu um sorriso, e apreciou este momento único. Inebriou-se de tabaco, de malte e de sons! Afinal, era raro estar consigo mesmo, apesar de encontrar-se sozinho na grande maioria das vezes nos últimos tempos. Como num passe de mágica, toda a tragédia buffa do cotidiano tinha se esvaído, tal como a fumaça do tabaco que desaparecia na imensidão do ambiente. A mediocridade das coisas e das pessoas que o cercavam se tornou mais leve, fluida, e um quê de ironia tornava-a quase imperceptível. Sentiu-se livre, liberto, uma personagem eivada de heroicidade picaresca, suspenso em seu juízo, vivaz époché husserliana. Não se conteve, e acudiu-lhe à mente uma frase de Clarice Lispector, que ele recitava todas às vezes que encontrava-se nessa situação. “A solidão é um luxo”. Recitava-a incansavelmente, como um mantra, até que toda a tristeza e a insensatez esvaíam-se de seu ser…

Aliás, ficava impressionado com o tédio das pessoas, especialmente daquelas que lhes eram mais próximas. Para elas, a solidão era ameaçadora, opressiva, ofegante. Para ele não, era reduzida a um simples statement: luxo. Aliás, como todas as belas coisas da vida, simples em sua banalidade…

Luxo, bem entendido, apenas para ele, que tinha ainda muito a dizer, a pensar e a fazer, apesar do vazio constitutivo que comparecia insistentemente, tal como um inquilino inconveniente, lembrando-o a todo o instante quem ele verdadeiramente era. O que lhe apaziguava era o fato de que a vida era repleta de ironias, de inconsistências, puro nonsense. Afinal, refletia rigorosamente, o que seria do um sem o zero, da música sem o silêncio, do prazer sem a dor, da felicidade sem a infelicidade, da plenitude sem a vacuidade?

Categorias:Meus contos, Pensamentos