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O "BOOM" DO ENSINO SUPERIOR NOS PAÍSES ÁRABES

Desde os anos 1990 que se discute a expansão desenfreada do sistema educacional superior em nosso país. Isso se deve, em grande parte, a perda da capacidade de investimento do Estado brasileiro na Educação Superior, e a consequente autorização de um sem-número de instituições privadas que atualmente possuem uma enorme capacidade ociosa – leia-se, mais vagas do que pretendentes. Hoje, no Brasil, a iniciativa privada é a maior provedora de chances de ingresso na educação superior, dada a estagnação da oferta de vagas nas instituições federais e estaduais. O mais interessante disso tudo é que, grande parte dos alunos egressos das classes econômicas menos abastadas – leia-se classes C e D -, migram para as universidades privadas, dada a elevada competitividade do vestibular nas instituições públicas e a ociosidade de vagas acima citada.

Vale lembrar que essa dinâmica vale, em grande parte, em carreiras muito disputadas como Medicina, Odontologia e Direito, enquanto que a “porta de entrada” dos estudantes de baixa renda na universidade pública se dá nos cursos de licenciatura – o grande “patinho feio” da nossa Educação Superior, mas tão ou mais importante do que as outras carreiras. Afinal, estamos falando de cursos de formação de professores, elementos cruciais para o desenvolvimento do nosso capital humano e a superação das desigualdades sociais em nosso país…

No Brasil, como em todo país megalomaníaco, nós achamos que tudo de bom – e de ruim – ocorre primeiro em nossas plagas. Daí, a “chiadeira” gerada pela publicação do ranking das instituições superiores por parte do Ministério da Educação (MEC) – o Índice Geral de Cursos (IGC) – indicando que, se no aspecto oferta de vagas nós estamos razoavelmente bem supridos, o grande problema é a qualidade dos cursos oferecidos. Estamos falando, aqui, de “picaretagens” que atendem pelo nome de faculdades e universidades que, em nome do downsizing e da reengenharia de processos, assumem práticas lastimáveis como: turmas com mais de 70 alunos em sala de aula, tornando o professor um conferencista, e não um formador; redução drástica do salário dos professores, sob forma de redução e fusão do número de disciplinas oferecidas; adoção indiscriminada e sem qualquer planejamento pedagógico da ferramenta do Ensino a Distância (EaD), aumentando ainda mais o preconceito contra este tipo de modalidade educacional; gestores educacionais mais preocupados com indicadores financeiros, do que propriamente com a qualidade do processo pedagógico; assédio moral frequente, onde os professores menos sintonizados com a “patota” do coordenador acabam sendo alijados do quadro de docentes – e consequentemente sem turmas para lecionar; e, para completar o caos, a adoção do modelo “aluno-cliente”, que deposita a cobrança das péssimas condições de ensino no professor, deslocando a responsabilidade do péssimo serviço prestado aos alunos por parte dos gestores da instituição e dos membros da mantenedora.

Quem trabalha, ou já trabalhou, ou é (ou foi) aluno de uma instituição deste tipo, sabe muito bem o que eu estou falando! E estas têm anúncios gigantescos estampados em páginas inteiras nos jornais de domingo. Não preciso dar nomes: basta ver os anúncios, os letreiros e as chamadas para os vestibulares destas verdadeiras arapucas travestidas de universidades…

Noves fora, parece que esse problema da mercantilização do ensino superior não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Pelo menos é o que nos informa uma matéria publicada no último dia 17 de setembro pelo site NOW Lebanon, que discorre sobre o crescimento de faculdades particulares não creditadas no Líbano. E, para quem não conhece muito a realidade desse país, o Líbano é considerado um dos países que possui um dos melhores sistemas de educação superior entre os países árabes, com instituições de peso tanto públicas quanto privadas – tais como a American University of Beirut (AUB), a Lebanese American University (LAU), Notre Dame University, Sagesse University, Université Saint Joseph, além da estatal Université Libannaise. Vale lembrar que muitos quadros da intelectualidade árabe nos últimos 50 anos passaram pelos bancos escolares dessas instituições. Definitivamente, o País do Cedro é uma referência em ensino superior, e o seu desenho institucional apresenta uma complementaridade interessante entre a iniciativa privada e a iniciativa do Estado.

Após o final da sangrenta Guerra Civil (1975 -1989), com os Acordos de Taef, observa-se no país a expansão de instituições de ensino superior de reputação duvidosa, que adotam nomes em inglês – numa clara estratégia de marketing -, prometendo uma graduação conforme os padrões europeus ou norte-americanos. Como o Líbano é um país que sofreu (e até hoje sofre) uma influência muito grande dos franceses, ingleses e americanos, isso é um chamariz e tanto para milhares de jovens árabes que aspiram um vida melhor para si e para suas famílias, obtendo um diploma oriundo destas “prestigiadas” universidades. Ledo engano! Picaretagem, arapuca e má-fé são alguns dos adjetivos publicáveis quando se observa os serviços prestados por essas instituições. Um caso típico de lesar o direito do consumidor…

O problema é que esses “espertalhões” acabam commoditizando a educação superior, atrapalhando o trabalho das grandes universidades do país. Vale lembrar que as instituições libanesas “peso-pesado”, além do ensino de excelência, oferecem programas de intercâmbio com outras universidades de renome no continente europeu e norte-americano. A excelência do corpo docente, a qualidade do currículo e de suas instalações e o dinamismo dos programas de graduação e de pós-graduação tornaram o País do Cedro uma referência quando se pensa em Educação Superior no mundo árabe. E é esta tradição que essas renomadas instituições querem, e precisam defender…

Isto é particularmente problemático em um país com um pouco mais de 4 milhões de habitantes (metade da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro), dispostos numa área que é a metade do Estado de Sergipe, e que conta com 40 instituições de ensino superior acreditadas pelo Ministério da Educação do país – fora um sem-número de outras não-creditadas, e que contam com nomes em inglês ou em francês para dar um “verniz” de respeitabilidade e qualidade. Ou seja, o que ocorre no Brasil há algum tempo está ocorrendo também no País do Cedro, só que em uma escala um pouco menor…

Vale lembrar que, com os atentados de 11 de setembro de 2001, as barreiras relativas ao ingresso de estudantes árabes intensificaram-se na Europa e nos Estados Unidos, criando um mercado no mundo árabe para o ensino superior com o “padrão ocidental”. Além disso, por ser um dos países mais liberais do mundo árabe – em comparação aos países do Golfo Pérsico -, o Líbano exerce um poder de fascínio sobre os jovens da região, por sua liberdade de imprensa, sua vida cultural e suas belezas naturais. Inclusive, ao estudar no País do Cedro, muitos estudantes acabam por experimentar uma vida longe da família, coisa que seria impossível em seus respectivos países de origem.

Portanto, um recado duplo: para nós, brasileiros, esse fenômeno da mercantilização da Educação Superior não é algo que nos é exclusivo; para vocês, libaneses, olho vivo com a concorrência – especialmente a oriunda da região do Golfo Pérsico.
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