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SESSÃO DE CINEMA – "ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA"

Um filme abstrato! Eis o que resume, em minha humilde opinião, o novo filme do cineasta brasileiro Fernando Meirelles, Ensaio sobre a Cegueira (Blindness, 2008). A película é baseada no livro homônimo de José Saramago, o mais famoso escritor português – e também ganhador do Prêmio Nobel – da atualidade. Por si só um desafio e tanto, e que demostra o grau de maturidade que o nosso diretor atingiu…

Cercado de enorme expectativa, o filme é uma prova de que o nosso cineasta é um dos maiores diretores do cinema mundial nos dias de hoje – e isso, bem entendido, sem patriotadas de qualquer espécie! Inspirada pela temática da cegueira branca – epidemia insólita que acomete as personagens sem nome, de uma megalópole sem nome, abstrata e cosmopolita -, o filme é frio, denso, tenso, distópico e ferozmente tétrico. Bem entendido, não de trata de um filme com piques de adrenalina de tirar o fôlego do espectador, mas um longo e progressivo processo de decadência das personagens em direção a um inferno do tipo Hyernomus Bosch. No entanto, longe das representações consagradas do fogo, enxofre e cinzas, o “inferno” de Meirelles é de uma vacuidade branca, um profundo e inóspito “mar de leite” indistinto, salpicado daqui e dali por inúmeras manchas de cinza…
Para quem leu o livro, não vá esperando uma transposição fiel do romance para a telona, pois a linguagem do romance é diferente da linguagem imagética. O desespero das personagens, na linguagem de Saramago, é verborrágica e compadece o leitor, enquanto que na telona os diálogos são frios, econômicos e propositadamente tangenciais. No entanto, o essencial comparece no filme: a degradação, a excrescência, o horror, a irracionalidade, o desespero, a animalidade, a distopia, o there’s no way out…
Contrariamente ao filme do seu compatriota Walter Saller Jr.Linha de Passe, resenhado semana passada aqui no PRAGMA -, repleto de sombras e penumbras, Ensaio sobre a Cegueira quase “cega” o espectador, seja pela alvura da fotografia ou pelo sentimento de Unheimlich (“O Estranho”, no linguajar Freudiano) incutido no espectador a partir da bizarra “cegueira branca” sem causas específicas, o que aumenta ainda mais a claustrofobia e o desamparo da viagem das personagens em direção ao buraco, ao hell on earth, tal como faz a Alice de Lewis Carroll ao entrar na toca do coelho…
Aliás, isto me lembrou muito uma canção fantástica escrita pelo bardo norte-americano Tom Waits, intitulada Misery Is The River Of The World. Edificante, não?
Talvez seja o filme mais ousado que o diretor já realizou, por vários motivos. O primeiro deles, o de encarar a adaptação para a telona de um romance de Saramago, que especificamente não morre de amores pelo cinema, e que vê com muita desconfiança a adaptação de obras literárias para a tela grande. O segundo é, não obstante o estilo literário do nosso patrício, o livro especificamente é um horror, com uma temática especialmente degradante – e que foi atenuado por Meirelles, especialmente nos momentos mais frenéticos de violência sexual. O terceiro, e mais interessante ainda, é que trata-se de uma película que afasta-se do realismo exacerbado dos filmes anteriores do diretor, que retrataram tanto a realidade do tráfico de drogas nas favelas cariocas (como no aclamadíssimo Cidade de Deus, de 2002, que projetou o cineasta para o mundo) quanto a hipocrisia da indústria farmacêutica mundial no mundo sub-desenvolvido (no belíssimo, porém tétrico, O Jardineiro Fiel, de 2005).
Essa ousadia, esse verdadeiro salto no escuro – ou melhor, no claro -, faz com que Ensaio sobre a Cegueira seja um filme imperdível. Belo de se ver, plasticamente irretocável, porém angustiante e dramaticamente contido. Afinal, qual história sobre o caráter humano – notadamente, o pior possível! – não nos causa esse tipo de sentimento? Para quem não acredita nem um pouco na humanidade e nas pessoas, como é o caso desse Escriba, é um filme e tanto…
Para quem é “psi”, então, o negócio é melhor ainda! A trama não deixa de ser um experimento de Psicologia Social: como seria a convivência humana se, num piscar de olhos, tivéssemos abolida a nossa faculdade visual? O que parecia ser inicialmente um caso isolado, se torna uma epidemia mundial, e a irracionalidade cresce em razão exponencial, mostrando o que há de pior e degradante na espécie humana. Todos os pecados capitais – devidamente recalcados e represados pela civilização, como diria o sábio Sigmund Freud – encontram a sua expressão máxima na trama: a gula, por intermédio da fusão repuganante entre alimento e excremento – ambas, necessidades básicas; a avareza, com a dominação e o exercício draconiano do poder de um grupo de cegos sobre os outros; a luxúria, chegando às raias do abuso e da violência sexuais; a ira, que explode desmesurada quando a exploração do homem pela homem chega ao limite do insuportável; a melancolia, representada pelas faces lívidas, eivadas de desamparo e desespero, num estado de ataraxia contida; a preguiça, quando a grande maioria evade à ação coletiva em prol de objetivos individuais, mais básicos e sombriamente animalescos; a vaidade, numa pífia tentativa de resisitir imune ao caos de degradação e inumanidade que cerca as personagens; e, por fim, o orgulho, que é a causa de todos os males da nossa espécie. Ou seja, haja humanidade…
O elenco estelar também ajuda, em muito, a tornar esse estranho filme – na acepção freudiana do Unheimlich – interessante. Juliane Moore (uma das atrizes que esse Escriba que vos fala é fã inconteste, desde o belíssimo As Horas), como a Mulher do Médico que sai da mediocridade da vida para o protagonismo da trama, está lindamente gélida. Gael Garcia Bernal, como o Vilão, me causou um certo desconforto, pois sempre o vejo nas telas representando heróis, românticos ou loucos – não raro, os três juntos! Mas a cena dele cantando uma música de Stevie Wonder é de rolar de rir! Imperdível! Danny Glover, como o Velho de Venda, é o cerne filosófico do livro e da trama. E Alice Braga, como a Prostituta, também apresenta uma interpretação prá lá de convincente…
Enfim, Ensaio sobre a Cegueira é uma metáfora sobre a raça humana, sobre o quão podemos nos tornar irremediavelmente maus diante de circunstâncias degradantes. Aliás, a trama do filme me fez linkar com a tese da banalidade do mal da filósofa política judia Hannah Arendt. Esta, discorrida no livro de sua autoria intitulado “Eichmann em Jerusalém” (e publicado em 1963), ela afirma que o mal em estado puro – neste caso específico, o horror do Holocausto – foi produzido não por demônios ou homens vis, mas, contrariamente, por pessoas comuns, simples, urbanas, instruídas, burocraticamente normais.
Isso nos mostra que, graças à civilização, é que não sucumbimos ao enemy within, àquilo que nos desperta o pior, o mais vil e o mais degradante que habita nos recônditos da nossa mente. Afinal, não é à toa que Freud (sempre ele!) aborda a questão da destrutividade e da negatividade em estado puro a partir do conceito de Pulsão de Morte (Tânatos)…
O filme pode ser visto de vários ângulos, tal como uma pintura abstrata, que provoca a projeção dos espectros da alma por parte do espectador. Para mim, vejo-o como uma metáfora dos nossos tempos atuais, sombrios, onde a paranóia, a desconfiança, a competitividade extremada e a liquefação do cotidiano contribuem para a abertura da Caixa de Pandora, e que atende pelo nome de ser humano. Em tempos de Bush, violência urbana, Guerra no Iraque e no Afeganistão, degradação das relações humanas, homens-bomba, fé que desagrega ao invés de religar as pessoas, trata-se de um tapa na cara com luva de pelica.
Pois, afinal, como disse o astronauta norte-americano Neil Armstrong ao pousar na lua – mais especificamente, em um local chamado “Mar da Tranquilidade”(?!?!?!), e que encerra a obra-prima psicodélica do Pink Floyd“there is no dark side of the Moon really… as a matter of fact it’s all dark”!
Ou será que a escuridão humana é branca como um mar de leite?
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