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SESSÃO DE CINEMA – "LINHA DE PASSE"

Sou fã do trabalho do Walter Salles Jr., em meu entender um dos responsáveis pelo renascimento do cinema brasileiro no início da década de 1990. Cada filme dele é uma tentativa de explorar a problemática da identidade brasileira, não pela via comum dos clichês e chavões que ligam a nossa terra ao exotismo de nossa gente, fauna e flora, mas sim pelo exercício narrativo de uma construção densa que engloba diferentes níveis de grupos e práticas socais. O Brasil é um tema complexo demais para ficar preso a uma trama só…

Suas películas nos fazem pensar e refletir demasiadamente – o que faz com que algumas pessoas não sejam muito chegadas aos seus filmes, dado o nível geral de “preguiça mental” de nossa população. São filmes densos, poéticos e um tanto quanto difíceis, apesar de girar em torno de tramas um tanto quanto simples, que envolvem pessoas comuns sem nenhum glamour. Apesar disso, sua linguagem é densamente metafórica e alegórica, e cada filme dele é um mergulho em nossa própria constituição subjetiva – não importa se história se passe nos rincões do Brasil (no caso, o sertão, a nossa heartland), no exílio ou no caos vivido em nossas metrópoles…

Por exemplo, A Grande Arte (de 1991) – um de seus primeiros filmes – mostra a personalidade do diretor. Já Terra Estrangeira (de 1995) é um filmaço! O sentimento de expatriamento dado pela emigração, os anos lúgrubres do confisco da poupança após a frustração da Nova República, o senso de deriva oriundo da redemocratização, tudo isso bateu em cheio nas minhas recordações, posto que estes acontecimentos marcaram a minha geração em pleno início da vida adulta. Daí, Terra Estrangeira significar tanto para mim, particularmente: é um retrato vívido do que eu vi e vivi! Daí, o soco na boca do estômago e o mal-estar que me causa toda vez que eu (re)vejo este filme…

Por outro lado, Central do Brasil (de 1998) é até hoje o maior sucesso comercial do diretor, além de ser um marco na história do cinema brasileiro contemporâneo. Afinal, essa película colocou novamente o cinema brasileiro em evidência no mercado internacional, inclusive concorrendo ao Oscar. Realmente, trata-se de uma obra-prima…

Confesso aos meus pacientes leitores que tudo, mas absolutamente tudo nesse filme me emociona profundamente! Os diálogos, as imagens, a música, a fotografia, tudo! Vi-o inúmeras vezes no cinema quando em cartaz, e me lembro claramente que a audiência saía do cinema em êxtase, com lágrimas nos olhos, tal era ligação estabelecida entre a história projetada na tela e a nossa identidade. Central do Brasil, como o próprio título nos informa, é uma viagem do Brasil aos seus recônditos, um reencontro de cada um de nós conosco mesmo. Ou seja, uma beleza!

O filme, assim como outras realizações da nossa cultura – tais como o samba, o maracatu, a bossa-nova, a capoeira, o futebol, as Bachianas Brasileiras, Tom Jobim, Chico Science, as telas de Portinari, Di Cavalcanti e Guignard, a arquitetura de Oscar Niemeyer, a literatura de cordel, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Manoel Bandeira, Drummond, João Cabral de Melo Neto, dentre outros inúmeros e infinitos poetas, cancioneiros e artistas -, é uma forma de olharmos no espelho e nos reencontrarmos, a cada instante, como povo, país e nação…

Abril Despedaçado (de 2001), apesar de um pouquinho inferior ao anterior, é uma peça poética daquelas, tão singela, que é linda de morrer! E, confesso a vocês, a fotografia do sertão sempre me faz chorar, não sei porque – vai ver que é a imagem mais brasileira que vem a minha mente quando penso em meu país. Talvez seja nele que eu reconheça o entrecruzamento entre a minha linhagem portuguesa ancestral e a minha raiz fundamentalmente brasileira. Como diria o Lenine, Jack Soul Brasileiro…

Afinal de contas, não foi Euclides da Cunha que disse, em uma célebre frase retirada de seu épico Os Sertões, que “o mar vai virar sertão, e o sertão irá virar mar”? Para um brasileiro de alma lusa, nada melhor do que o encontro entre essas duas vastidões desérticas – uma líquida e outra árida…

Por fim, Diários da Motocicleta (de 2004). Apesar de particularmente eu não ser muito tocado pela figura de Che Guevara, é uma bela mostra do quanto somos latino-americanos, apesar de sermos falantes do português. Não deixa de ser uma bela história também…

Enfim, tudo que o cara põe a mão é bom demais!!!

Portanto, fui direto ao cinema quando saiu o seu novo filme. Linha de Passe (2008), feito em co-direção com a Daniela Thomas – tendo sido inclusive selecionado para o 61o. Festival de Cinema de Cannes, que ocorreu no primeiro semestre desse ano. Como não poderia deixar de ser, trata-se de mais um belo filme do Walter Salles Jr., cujo mote é: o prazer e a dor de ser brasileiro!

Dessa vez, a trama se passa na cidade grande – ou melhor, em Cidade Líder, na periferia da Grande São Paulo. A trama aborda as desventuras de uma família que tipicamente os meus colegas psicólogos qualificariam de “disfuncional”: a chefe do lar é uma mãe solteira, empregada doméstica, fumante inveterada e corintiana roxa, que vive amontoada em uma casa paupérrima com seus quatro filhos homens (diga-se de passagem, cada um de um pai diferente). Além disso, ela encontra-se grávida de um quinto filho – também de pai desconhecido (!!!) -, e luta bravamene para sobreviver na selva que atende pelo nome de Brasil.

O filme mostra a desventura de cada um das personagens, imersas em seu “inferno” pessoal. Por exemplo: o filho mais velho é evangélico e dá um duro desgraçado como frentista em um posto de gasolina, sendo sacaneado tanto pelo patrão quanto pelos motoqueiros que lá abastecem; o segundo é motoboy, e arrisca a sua vida pelo trânsito caótico da cidade, além de ser mulherengo de primeiríssima linha; o terceiro é um habilidoso jogador de futebol, que quer subir na vida a todo custo, lutando para entrar em um grande clube e mostrar para o mundo o seu valor; o último, é negro (em oposição aos seus irmãos), muito mais jovem do que eles, e vive o tempo inteiro dentro de um ônibus em busca de seu pai – também desconhecido, e cuja única informação é que ele é um motorista de coletivo. Tudo isso acompanhado por uma mãe que trabalha em casa de “madame” mas que, mesmo grávida, não abre mão dos “prazeres da vida” tais como fumar, “encher a cara” de cerveja e ver o jogo do Curingão em pleno Morumbi, prestes a ser rebaixado para a segunda divisão. Haja sofrimento…

Apesar disso tudo, o filme não é uma ode à violência, comum no dia-a-dia das favelas e nas periferias dos grandes centros urbanos – e que foi recentemente ilustrado por filmes recentes e de grande sucesso de mídia e bilheteria como Cidade de Deus e Tropa de Elite. Apesar da fotografia escura, da solidão e dos dramas das personagens, além das agruras típicas vividas pelos pobres em nosso país, o filme é uma tentativa de mostrar que há uma luz no fim do túnel para essas pessoas. Ao jogar com elementos do cotidiano popular – o futebol, a convivência tensa entre ricos e pobres no espaço urbano, o trabalho em condições precárias, a extenuante viagem de ônibus da casa para o trabalho, as brigas com os vizinhos -, Linha de Passe é um mergulho na alma dessas pessoas que, apesar dos pesares, tentam manter a sua dignidade e lutam por um lugar ao sol na vida. Certamente, é um filme que nos faz pensar sobre o estado atual de coisas em nosso país, dada a identificação entre a nossa história pessoal de vida e a vivida pelas personagens na telona…

Insisto, não é um filme fácil de ser visto, dada a atmosfera sufocante e opressiva que ronda a película. Além disso, ele transpira realismo, dado o caráter corriqueiro – e universal – das personagens. São histórias que nos são bastante comuns, especialmente para aqueles que habitam os grandes centros urbanos. A escuridão da fotografia reforça a idéia de que algo não vai bem em nosso país, para além da superfície do lugar-comum do que se entende por Brasil. É um filme para se ver, rever, pensar e discutir com as pessoas. É um filme sobre nós e para nós mesmos…

Gosto dos filmes do Waltinho pois, a cada vez que eu os (re)vejo, me sinto cada vez mais brasileiro.

É uma bela forma de introduzir o Brasil para aquelas pessoas que só conhecem o país pelo céu (do alto de um helicóptero), ou então pela película escura que recobre os vidros do carro. As personagens da tela são tão brasileiras quanto nós mesmos; porém, as tratamos como se fossem cidadãos de segunda classe, strangers in a strange land…
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  1. Rafaella
    setembro 9, 2008 às 10:32 pm

    “Prof”, adorei a dica de filme! =)
    Vou assistir! sentimos sua falta hoje na turma,viu! Muita energia boa na tua aula! Voce é um excelente professor! beijão da tua aluna: Rafaella Rodrigues

  2. José Mauro Nunes
    setembro 10, 2008 às 3:09 am

    Ô Rafaella, obrigado! Você é uma gracinha! Se a energia das aulas é boa, é porque a turma é boa, engajada e de bom coração! Já, já eu estou de volta!
    Um beijo grande,
    José Mauro

  3. Ana Lúcia
    setembro 14, 2008 às 12:23 am

    Professor adorei o post. O filme ainda não chegou aos cinemas do Espírito Santo. Quero muito ver.

    Pelo post vi que você conhece muito bem as obras de Walter Salles. Ainda tem mais um filme dele que não estreiou, os Desafinados. Ouviu falar?

    Ontem eu assiti Era uma vez…de Breno Silveira. Você assitiu?

    Um grande abraço
    Ana Lúcia

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