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>SESSÃO DE CINEMA – "MISTÉRIO DO SAMBA"

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Apesar do cansaço que venho sentindo proveniente dessa última semana de trabalho frenético, aproveitei a “folga” que tive ao chegar mais cedo ao Rio para dar uma ida ao cinema – coisa que esse Escriba gosta muito de fazer, mas nem sempre consegue dada a minha crônica escassez de tempo…

Como um “carioca da gema”, nascido e criado em Madureira – Zona Norte, Subúrbio da cidade -, tenho algumas pertenças e alguns pequenos desencontros com essa minha origem. Aliás, a minha história com ela é pendular: ora conflitante, ora integradora, ora tensa, ora reconfortante…
Algumas pertenças: adoro futebol, gosto de lembrar das brincadeiras na rua quando eu era moleque, e me encanta muito o clima “interiorano” e intimista dessa parte da cidade, para mim o chamado Rio “profundo” – as cadeiras na calçada de casa, a cervejinha no “pé-sujo” da esquina, o bate-papo na pracinha, o namoro no muro da escola perto de casa, o futebol de várzea no “campinho”…
O meu principal desencontro: não sei sambar – sou o que na gíria carioca se chama de um “doente do pé” -, e também não sou um aficcionado por esse tipo de música. Uma heresia, podem pensar os meus exigentes leitores, pois samba e subúrbio carioca são o verso e o reverso da mesma moeda! Fazer o quê, nem sempre pode-se ser perfeito…
No entanto, fui criado ouvindo o batuque do samba, pois na minha terra estão situadas duas das maiores escolas de samba do Rio de Janeiro: no Morro da Serrinha, em plena Madureira, está o Império Serrano, berço do “jongo” e de Mano Décio da Viola; e, mais para frente, uma estação de trem depois, em Oswaldo Cruz, está a eterna Portela, a Campeã das Campeãs, cuja história é composta por um naipe de “bambas” de altíssima qualidade tais como Paulo da Portela, Manacéa, Argemiro, Jair do Cavaquinho, Monarco, Casquinha, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, dentre outros mais.
Como se não bastasse ter nascido na terra do samba, meu querido pai vivia cantarolando os sambas portelenses e imperiais em meu ouvido, mesmo que naquela época eu não os compreendesse muito bem. Agora, mais velho, entendo que é como se ele estivesse me dizendo “não esqueça de onde tu vens, das tuas raízes, mesmo para onde fores”. Sábias palavras envelopadas por belas e sincopadas melodias, que só o tempo e a experiência nos permitem ressignificar muito mais tarde…
Foi em busca dessa melodia perdida no tempo, mas bem familiar aos meus ouvidos, que fui ver O Mistério do Samba (2008), o badalado documentário sobre a Velha Guarda da Portela, produzido pela cantora e compositora Marisa Monte, dirigido por Lula Buarque de Hollanda (sobrinho do Chico Buarque) e Carolina Jabour (filha do Arnaldo Jabour). A ligação de Marisa com a escola é antiga, posto que ela frequentava os pagodes na quadra da azul e branca quando menina, acompanhada de seu pai.
O documentário em si foi filmado durante uma década, posto que Marisa iniciou o projeto na segunda metade dos anos 1990 ao resgatar a memória portelense dos sambas compostos pela Velha Guarda, que acabou culminando com o belíssimo e comovente disco Tudo Azul, lançado em 1998. Aliás, foi justamente este projeto que acabou resgatando a importância das Velhas Guardas das diferentes escolas cariocas para a cultura musical brasileira.
O filme é uma beleza, de uma candura e uma doçura incríveis, maravilhosamente poético. O seu grande barato é o tratamento privilegiado que foi dado à música e aos seus principais personagens, que são os membros da Velha Guarda Portelense – alguns deles, inclusive, falecidos durante as filmagens, como nos casos do “Seu” Argemiro e do Jair do Cavaquinho. Outro ponto a favor do roteiro é que evita-se a glamurização do subúrbio e da pobreza – uma tentação muito comum em tramas desse tipo -, e um dos destaques do filme se dá por ocasião das histórias memoráveis de seus integrantes, uma lembrança clara da velha e boa “malandragem” carioca…
As cenas, invariavelmente, remetem a uma ambiência tão familiar para mim que é a do subúrbio carioca: as crianças brincando na rua, as biroscas onde o pagode “rola solto”, a linha do trem, o morro, as habitações populares com seu mobiliário antigo e datado (que, aliás, me lembrou muito a casa dos meus avós), a roda de samba na quadra da escola, regada a muita cerveja, rabada, mocotó e angu…
Tudo isso envolvido por uma atmosfera ao mesmo tempo melancólica e alegre. Melancólica por ser uma celebração de tempos que não voltam mais, da saudade de amores já idos, de amigos que já partiram dessa para melhor, da juventude vivida e passada, de tempos melhores que não são nem sombra da impessoalidade dos dias atuais. Ao mesmo tempo alegre pelo fato de que os personagens estão ali pelo fato da simples e maravilhosa celebração da vida, embalada pelo batuque do samba, ao irmanarem-se por serem guardiões da memória de uma comunidade que teima em resistir às vicissitudes do mundo.
Encontram-se na tela senhores e senhoras, “bambas” e “pastoras”, a nos lembrar o tempo todo que viemos dali, e que o samba nada mais é do que uma metáfora da vida. Afinal, qual música consegue mesclar sentimentos tão díspares quanto a felicidade e a tristeza?
Além disso, o documentário conta com a presença de outros artistas ilustres ligados às tradições portelenses, como Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, além, é claro, da Marisa Monte. Bem entendido, o filme não pretende ser um retrato biográfico da azul e branco de Madureira – que tem a Águia como seu símbolo -, muito menos um relato histórico da trajetória da escola. Apenas é um olhar reverente, emocionado e comovido, sobre a vida de pessoas humildes e comuns, que conseguem musicar poesias sublimes e tocar o nosso coração. Como exemplo desse fato, pelo menos na sessão em que vi o filme, todos os espectadores batucavam imaginariamente os sambas retratados na tela. E, ao final da sessão, todos aplaudiram de pé, ficando até o último crédito sumir na telinha…
Em suma, vibrei algumas vezes, chorei outras tantas, sorri outras mais, numa fantástica viagem emotiva ao cerne de minhas recordações mais queridas e caras para mim…
Mesmo que a sua escola de samba do coração seja outra – como, por exemplo, Mangueira, Salgueiro, Beija-Flor, Vila Isabel, Mocidade Independente -, ou então que você não seja tão fã de samba, vá ao cinema e prestigie o que há de melhor na cultura popular brasileira. Afinal, O Mistério do Samba é o nosso Buena Vista Social Club. E estávamos precisando disso, pois esse resgate da nossa cultura musical nos faz lembrar que somos essencialmente brasileiros…
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