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>O SUBLIME CHORO: UM BREVE ENSAIO SOBRE A IDENTIDADE BRASILEIRA

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Findo os Jogos Olímpicos de Pequim, e dado o fracasso dos nossos atletas nesta competição, teve início a temporada de expiação dos pecados e de descoberta de algum “bode expiatório” responsável pelo desempenho pífio do Brasil. Diga-se de passagem, esse Escriba compartilha da opinião de muitos que esse desempenho foi algo absolutamente previsível e esperado, dadas as nossas limitações no que toca a formulação de uma política esportiva coerente e consistente que contemple não apenas os atletas de alto desempenho, mas também o esporte de base, praticado em nossas escolas, clubes e praças pelo país…

Apenas como um exemplo da “miopia” de nossas autoridades esportivas, basta ver que o esporte mais praticado no Brasil é o handebol – vide as aulas de Educação Física em nossas escolas dos Ensinos Fundamental e Médio. No entanto, a maioria esmagadora dos nossos atletas que pratica essa modalidade esportiva joga no exterior, tanto para seu sustento quanto para manterem-se competitivos, e os nossos resultados nos Jogos foram um fulgurante fracasso…

Como “esculachar” os outros é o verdadeiro esporte nacional, agora abriu-se a Caixa de Pandora para descubrir quem são os verdadeiros culpados pela ferida narcísica que sofremos em nossos brios verde-amarelos. Aproveitando o período eleitoral, os candidatos são vários: o patrocínio das empresas estatais, que despejaram generosas verbas para as confederações sem o devido retorno (e auditoria) esperado; o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, um notório vaidoso e um plutocrata contumaz, que vive do passado graças às glórias auferidas com o voleibol (aliás, o nosso único esporte competitivo na atualidade, posto outrora ocupado pelo nosso futebol); os nossos atletas, mal-treinados, mal-alimentados, mal preparados, emocionalmente instáveis, que choram por qualquer coisa e em qualquer situação; os treinadores que, no alto das suas olímpicas empáfias (turbinados por gordas recompensas financeiras oriundas de livros e palestras de auto-ajuda), se recusam a olhar com mais detalhe e profissionalismo o papel da preparação mental e do controle emocional no esporte de alto rendimento; por fim, a mídia nacional-ufanista que, ao inspirar-se nos tempos da propaganda do Estado Novo, nos cobriu de falsas expectativas que depois se transformaram em decepção e revolta. Como vocês podem ver, a lista é inesgotável…
A grande conclusão dos Jogos, ou pelo menos uma delas, é que o treino mental e a preparação psicológica é algo a ser levado a sério pelos atletas, treinadores e confederações. Vejam, por exemplo, o caso do voleibol feminino, a nossa Fênix de Ouro. De “amarelonas” nos últimos Jogos Pan-Americanos, tornaram-se “douradas” em função de um trabalho científico da comissão técnica que levou para Pequim uma psicóloga na delegação – fato bissexto no esporte nacional…
Até o presidente do COB afirmou que o uso da Psicologia seria a solução para os nossos males! Como diria o notável Quincas Borba, o filósofo de algibeira de Machado de Assis, “ao vencedor, as batatas!”
O fato é que, ao largo dessa discussão acerca do descontrole emocional dos nossos atletas, repousa uma questão tanto antiga quanto polêmica a respeito das características do chamado “povo brasileiro”. Não pretendo aqui entabular uma discussão envolvendo a construção das idéias de nação, nacionalidade e nacionalismo, mas parto da pressuposição de que tais termos são construções sociais e culturais que refletem o momento histórico da constitução de cada país e de cada grupo étnico. Longe de ser algo naturalizado e objetivo, a ideía de nação é um constructo social que, por ser socialmente plasmado, é construído e reconstruído ao longo do tempo histórico, dada a mudança das circunstâncias econômicas, políticas, materiais, sociais e culturais dos seus atores envolvidos.
Isto tudo vem a calhar com um belíssimo livro que estou lendo, intitulado Comunidades Imaginadas, de autoria do cientista social Benedict Anderson (Editora Companhia das Letras). Sua principal tese é a de que os conceitos de nação, nacionalidade e identidade social são construídos historica e socialmente – isto é, são “inventados” – a partir de uma apropriação seletiva e resignificadora de determinados eventos históricos ocorridos em um passado distante (nem sempre, em determinados casos) em uma determinada coletividade, que propicia a formação de uma identidade comunitária que estabiliza e cria laços psicológicos de coesão e identificação entre os seus membros.
Como afirma Anderson, a nação pode ser entendida como uma comunidade política imaginada, limitada e soberana, que exerce uma profunda ação identitária sobre os seus componentes, forjando laços de solidariedade e pertença.
A construção do ideal de nação, bem como o sentido de nacionalidade de seu povo, é fruto de uma apropriação seletiva de um passado histórico que é resignificado e reinventado, dado os interesses de um determinado grupo político dominante em um dado momento histórico. Além de proporcionar aos seus habitantes um senso de coletividade e identidade nacionais – um poderoso “cimento social” amparado na identificação do indivíduo com a coletividade, a velha e boa tese freudiana da Psicologia das Massas -, o conceito de nação inventa e define um determinado espaço geográfico onde serão consagrados determinados ritos, hábitos, costumes e práticas sociais características e definidores de um determinado “povo”.
Por sermos uma nação relativamente jovem e sem um passado heróico – em comparação a países da América Latina como o México e o Peru -, o nosso imaginário nacional é eivado de elementos idílicos e paradisíacos – basta, para isto, ler a carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei de Portugal. Em nosso imaginário, somos um país repleto de riquezas e belezas naturais, com um povo amável e amistoso, sem um histórico guerreiro e de rivalidades profundas entre os nossos vizinhos. Dado o seu gigantismo, expresso na estrofe do hino que nos diz “deitado eternamente em berço esplêndido”, somos um país distópico e arrogantemente isolado, tanto do Primeiro Mundo quanto da América Latina.
Ou seja, parodiando a música de Jorge Ben Jor, moramos em um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza!…

A sutil ironia que jaz nesse raciocínio é que, por trás dessa retórica da paz e da abundância, somos um país cujo narcisismo é maior do que as nossas fronteiras. Tudo do bom e do melhor ocorre no Brasil, e só nós é que podemos falar mal da nossa pátria! (Recentemente, um anúncio das sandálias Havaianas na TV faz alusão a esse tema, quando um “pobre” argentino resolve tocar nas nossas mazelas sociais). É muito comum um dos nossos, em pleno momento de ufanismo verde-amarelo, afirmar categoricamente que Deus é brasileiro…
Tudo no Brasil é superlativo: suas terras, suas belezas naturais, suas riquezas, suas praias, sua gente, sua música, seu futebol… Todas as nossas chagas são suprimidas, como num passe de mágica, pela ginga e malemolência da nossa “gente bronzeada” que, com seu irresistível charme, teima em incomodar as potências mundiais em competições esportivas. E a nossa mídia falada, escrita, televisiva e digital, acaba tendo um papel importantíssimo na consolidação desta identidade nacional, tanto para o consumo externo quanto para o deleite interno de nossos cidadãos…
Diferentemente de outros países, os nossos heróis são músicos, poetas, artistas e atletas. Até bem pouco tempo atrás, os nossos futebolistas ocupavam a primazia na construção da identidade nacional, incensados pela mídia do mundo inteiro. Apenas os nossos pilotos rivalizavam com os nossos jogadores – o caso do Ayrton Senna é prá lá de emblemático.! Agora, diversificamos o nosso panteão, e apresentamos ao mundo um sem-número de cavaleiros, iatistas, nadadores, corredores, saltadores, inclusive com a tão demorada inclusão das nossas mulheres – a mais perfeita tradução das nossas “belezas naturais”. Agora mesmo, almoçando em um restaurante aqui em Goiânia, vi o noticiário televisivo acompanhando de perto a volta ao país da nossa saltadora Maurren Maggi, campeã olímpica em Pequim. Tudo isso acompanhado do bordão BRAAASSSIIILLL em altíssimo volume! É de encher os nossos corações de alegria…
No entanto, fracassamos! Claro que o fracasso é inerente a qualquer atividade da vida, inclusive no esporte, pois sempre haverá ganhadores e perdedores. Porém, dado o nosso superlativo ufanismo e o nosso narcisismo desavergonhado, encaramos tudo na vida como um jogo de “soma-zero”, onde “winners take all”!
Ao perdermos, por um instante saímos da apostasia apoteótica fomentada pela mídia nacionalista e patriótica, e “caímos na real”: somos humanos, falíveis e funestamente imperfeitos. E a constatação disto passa pela via do choro compulsivo, manifestação de não- conformismo perante a fórmula gasta do “amanhã é outro dia”, dado que a vida é uma batalha diária, uma luta pela sobrevivência na qual só nos tornamos alguém digno de atenção se ganhamos…
Os mais conservadores e europeizados podem ver nesse ato, a partir das teorias raciais e etnocêntricas dos séculos XVIII e XIX, uma afirmação de nossa instabilidade emocional e de nossa fraqueza de caráter, dado nossa origem latino-americana. Segundo essa perspectiva, choramos porque somos fracos, inseguros, infantis, inábeis, lamentavelmente ineptos tanto psiquicamente quanto emocionalmente. Ao agir dessa maneira, somos crianças mimadas nos estágios iniciais do desenvolvimento, e não suportamos o outro, a verdade, a nua e crua realidade. Para evitar esse sofrimento atroz, nos refugiamos na muralha erigida do narcisismo, mantendo a nosso melancólica subjetividade protegida dos ataques do outro, que nos assola e nos assusta…
Em minha humilde opinião, chorar não é um indício de fragilidade psíquica ou de má-formação de caráter. Derramar-se em lágrimas é um ato simbólico, profundamente cultural, eivado de significado, um gesto sublime que une o herói decaído ao povo que nele depositou as suas esperanças. Daí, explica-se o perdido de perdão emocionado do ginasta que perde a medalha – certa, diga-se de passagem! – no último salto a “todo o povo brasileiro”. É nesse gesto que se solidifica a nossa identidade – socialmente construída – como país, povo e nação, e estabelece-se um forte nexo psicológico e emocional entre o indivíduo e a comunidade.
Alguns povos se orgulham de seus reis, de seu passado conquistador, de seus pensadores e filósofos, de suas leis e respeito aos direitos individuais, de sua fé. Nós, brasileiros, nos identificamos bastante pela via do esporte. Os nossos laços culturais são renovados a cada instante, em pequenas e pungentes situações, tais como o churrasco com os amigos no final de semana, a partida de vôlei na praia, o futebol no final de semana, a ida ao Maracanã, o chopinho gelado após o trabalho, a corrida de Fórmula 1 nas manhãs de domingo, no almoço dominical com a família, no capítulo da telenovela, no noticiário das 8, na Copa do Mundo, nas Olimpíadas, ou quando toca o nosso hino nacional…
Quando um brasileiro ganha, é como se toda uma nação se regojizasse de júblio: afinal, “nós ganhamos, nós podemos chegar lá!”. O nosso pavilhão, tão sacaneado pelos políticos fdps, desponta e diz ao mundo que não somos só florestas, macacos, favelas, pobreza, crianças na rua, violência, mazelas sociais. Os nossos heróis são os nossos atletas, assim como os são os nossos músicos, poetas, pintores, artistas, sambistas, cordelistas. Gente comum, que tira leite de pedra, que ama e dignifica esse solo, mas que se posiciona criticamente e não se deixa enganar!
Portanto, não há nada de estranho no choro de nossos atletas, sejam eles vencedores ou derrotados. Que a mídia teve um papel imprescindível nisto, ao superlativar as chances de nossos representantes, quanto a isso não há dúvidas! Porém, na vitória ou na derrota, nos reconhecemos como um povo, como um país, como uma nação, mesmo que temporariamente. Afinal, todos nós precisamos de algum tipo de ilusão e magia em nossas vidas…
“Não sou brasileiro, não sou estrangeiro, não sou de lugar nenhum, sou de nenhum lugar, nenhuma pátria me pariu…” (Titãs, Lugar Nenhum) .
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