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>O HÁBITO BRASILEIRO DO "CAFÉZINHO" ESTÁ MUDANDO

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Não sei quanto aos meus pacientes leitores, mas esse Escriba, como um bom brasileiro, é um viciado em café. Adoro café de qualquer jeito – seja ele quente ou gelado, expresso ou coado, curto ou longo, além de suas deliciosas variações tais como o capuccino, o Irish Coffee, acompanhado de um belo licor… Com certeza, o café é uma das minhas paixões gastronômicas – além, é claro, do vinho, da cerveja, do árak. Como se diz na gíria, o meu coração é de mãe, pois cabe sempre mais um – quando o assunto é uma boa mesa!

Apesar dos malefícios que são atribuídos ao café por uma parte significativa da literatura médica – tais como insônia, ansiedade, gastrite, irritabilidade, labilidade afetiva e outras coisas mais -, não posso começar o dia – aliás, passar o dia inteiro! – sem doses generosas da rubiácea. Além de aumentar a minha concentração e, paradoxalmente, diminuir a minha ansiedade (principalmente pela manhã), adoro estimular as minhas papilas gustativas com um belo café. Apesar de gostar bastante de um café expresso, ainda sou um consumidor inveterado do café de coador – e nunca feito em cafeteiras, pois acho o gosto chapado! -, assim como a maioria esmagadora dos brasileiros. No entanto, esse hábito vem lentamente mudando nos últimos anos. Pelo menos é o que diz uma matéria publicada na última sexta-fera no jornal Valor Econômico.

Uma conjunção de fatores explica essa lenta mudança de hábitos prá lá de arraigados. O primeiro deles é a crescente instalação, principalmente nos grandes centros urbanos, de grandes redes de cafeterias tanto brasileiras quanto estrangeiras, que divulgam a experiência de degustar bons cafés premium, invariavelmente “tirados” das máquinas de espresso por baristas cada vez mais bem preparados. No Brasil, há cerca de 2.500 cafeterias em pleno funcionamento, a grande maioria localizadas nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Segundo dados do setor, são abertas cerca de 250 novas lojas a cada ano, o que mostra que o mercado brasileiro está prá lá de aquecido… e perfumado pelo aroma de café!

A prova disso foi a entrada da rede norte-americana Starbucks em nosso país – um dos cases de sucesso empresarial mais discutido nos últimos anos nas escolas de negócios. A Nespresso – a grife de cafés de qualidade da suíça Nestlé – também está instalando a passos rápidos suas butiques de cafés por essas bandas. Além disso, torrefadoras de renome como as italianas Lavazza e Illycaffè também querem passar de compradoras dos cafés nacionais para vendedoras de seus blends exclusivos para os nossos consumidores.

As redes brasileras também não ficam atrás. Fran’s Café – aliás, sou frequentador assíduo de sua loja na FNAC localizada no BarraShopping -, Rei do Mate e Casa do Pão de Queijo também estão se aproveitando desse momento muito positivo que vive o segmento de cafés premium em nosso país.

Além disso, cresce a oferta de cafés de blends especiais disponíveis nas delicatessens, supermercados e mercados de convieniência. O brasileiro está aprendendo, pouco a pouco, a escolher os seus grãos prediletos, a partir de fatores como país, região, microclima, tipo e ponto de torragem dos grãos, dentre outros. Não tenho a menor dúvida de dizer que, o movimento que acontece hoje no mercado nosso de café, é o mesmo que aconteceu há alguns anos atrás no mercado de vinhos. Maior diversidade de oferta gera mais consumo, que por sua vez gera mais educação e mais sofisticação do paladar, impulsionando um círculo auspicioso de consumo.

O perfil do consumidor de café varia de um país para o outro. Por exemplo, os japoneses apreciam cafés de qualidade com blends diferenciados, enquanto que os americanos gostam de cafés feitos com blends colombianos, jamaicanos e africanos, de preferência servidos em grandes xícaras. Nossos hermanos portenhos, por seu turno, gostam de cafés curtos e bastante fortes, como os espressos. Já a Itália, a pátria por excelência do hábito de degustar o café de qualidade, é adoradora de um bom espresso e capuccino – porém, este último deve ser degustado até as 11h30 da manhã, pois depois dessa hora, trata-se de um sacrilégio cometido apenas por turistas e “marinheiros de primeira viagem”.

Já nós brasileiros ainda preferimos o café de coador, feito em casa, bem quentinho e fresquinho. Também, há o hábito arraigado do café sorvido na balcão da padaria, servido bem quente após o almoço ou no intervalo entre um destino e outro. Isso sem falar na “média” – o café coado e “pingado” (com um pouquinho de leite), acompanhado de um pão com manteiga -, uma das paixões nacionais…

Só para se ter uma idéia do hábito do consumidor brasileiro, das cerca de 24 milhões de xícaras de café vendidas diariamente na cidade de São Paulo, 19 milhões são de cafés coados, contra 5 apenas 5 milhões de xícaras de espressos.

Que o café brasileiro é de qualidade internacional, todos nós aprendemos desde cedo nos bancos escolares. Afinal, durante grande parte do século XIX, a economia brasileira estava apoiada na exportação do grão cultivado por aqui, então apreciadíssimo no mundo inteiro. No entanto, com a biotecnologia e a engenharia genética, além do desenvolvimento de novas técnicas de cultivo, estamos desenvolvendo cafés de “personalidade” que não ficam nada a dever aos seus concorrentes latino-americanos e africanos. Além disso, tal como na vitivinicultura, estamos desenvolvendo cafés com terroir – isto é, com características típicas do microclima de cada região de cultivo.

Eis algumas regiões de cultivo do café em nosso país: Sul de Minas (cafés de corpo e doçura moderados, com acidez crítica de média à alta), Matas de Minas (cafés de bom corpo, acidez e doçura), Chapada de Minas (equilíbrio entre corpo e acidez, além de aroma consistente), Cerrado mineiro (encorpado), Mogiana (cultivado em São Paulo, de corpo e acidez equilibrados e doçura natural), Centro-Oeste (baixa acidez, corpo moderado e levemente doce), Montanhas do Espírito Santo (bom corpo, acidez e doçura), Conilon Capixaba (a base de muitos blends, o que confere um sabor típico), Paraná (médio corpo, com baixa acidez e doçura), Planalto da Bahia (semi-encorpado, acidez diferenciada e doçura natural), Cerrado da Bahia (equilíbrio de corpo e doçura, com acidez típica refinada) e Conilon de Rondônia (também outro de sabor típico, feito a base de vários blends torrados e moídos).

Além disso, os jornais desse final de semana publicaram algumas pesquisas médicas que indicam os benefícios de um consumo moderado de café para a nossa saúde. Eu, como um bom apreciador da bebida, sempre achei isso, e acho um saco esse “patrulhamento” contra a pobre da rubiácea!

Portanto, brindemos à vida com uma boa xícara de café – coado ou espresso, não importa…
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