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EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA: UMA SOLUÇÃO PERIGOSA PARA AS UNIVERSIDADES "CAÇA-NÍQUEL"

Continuando o tema do post anterior, a maioria esmagadora das universidades brasileiras que integram o ranking das maiores instituições de ensino superior vêm investindo pesadamente na Educação à Distância (EaD) – modalidade de ensino mediada pelas Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs), que pode seguir modelos semi-presenciais ou totalmente não-presenciais.

Atualmente, o MEC autoriza até 20% da carga horária de um curso de graduação presencial a ser realizada em atividades à distância. Essa brecha legal permite que essas universidades – as particulares em sua totalidade, já que no âmbito das instituições públicas a adoção é tema polêmico e explosivo – introduzam, em suas grades curriculares dos cursos de graduação, disciplinas cursadas à distância.

O número de alunos matriculados em cursos à distância cresce a cada ano, e a tendência é que essa expansão aumente ainda mais. A evolução do número de matrículas mostra que a EaD veio para ficar, e a expectativa é que essa taxa aumente mais aceleradamente em função dos pesados investimentos em TI que as universidades particulares vêm empreendendo, bem como a adequação de seus conteúdos e metodologias de ensino para essa abordagem educacional diferenciada. A evolução das matrículas, apesar de lenta, é incontestável: em 2001, foram 1.682 alunos matriculados em cursos de graduação na modalidade EaD (0,1% do total de alunos matriculados em cursos de graduação no Brasil); em 2001, foram 5.359 alunos (0,2% do total); 40.714 alunos em 2002 (um salto espetacular, abocanhando 1,2% do total); 49.911 em 2003 (1,3%); 59.611 em 2004 (1,4%); outro salto notável em 2005, com 114.642 alunos matriculados (2,6%); e em 2006, o último dado disponível, cerca de 207.206 alunos estão matriculados em cursos de graduação à distância em nosso país (abrangendo 4,4% do total de matrículas nos cursos de graduação).

No entanto, a experiência dos últimos anos mostra que a introdução da EaD nos cursos de graduação presencial não é tão positiva para os alunos quanto pensam as universidades. Muitos alunos desenvolvem a percepção de que, ao serem ofertadas disciplinas à distância, as instituições estão muito mais interessadas em resolver os seus problemas financeiros (redução da carga horária dos professores, diminuição dos custos fixos com infra-estrutura, docentes e funcionários) do que propriamente encontrar uma nova forma de dinamizar os conteúdos a serem trabalhados. Muitos alunos dessas instituições, inclusive, são excluídos digitais – ou não possuem computador em casa, ou desconhecem o manejo dos aplicativos educacionais -, o que reforça ainda mais a exclusão e o preconceito do aluno para com essa modalidade educacional. Inclusive, essa resistência é agravada pelo fato de que muitas instituições ofertam esses cursos sem a comunicação prévia ao aluno, e muitas vezes a opção é compulsória – do tipo, é cursar ou cursar. Tudo isso fruto da pressa e da falta de planejamento prévio…

Some-se a isso o fato de que muitas dessas intituições não desenvolvem um trabalho sério no âmbito da EaD, apenas transpondo para o meio virtual a metodologia utilizada na sala de aula presencial. Isso significa um material pedagógico não adequado para a realidade da sala de aula virtual – o que, em minha experiência de docência on-line na UERJ, é fatal nesses casos, levando a um aumento da evasão dos alunos. Muitos professores inclusive não são capacitados adequadamente, migrando para a EaD muito mais por uma questão de sobrevivência financeira e manutenção do próprio emprego, do que propriamente uma crença nesta modalidade de ensino. Daí, muitos alunos se sentirem insatisfeitos e lesados ao final desses cursos on-line, reforçando ainda mais o preconceito e a residência para com a EaD…

Bem entendido, esse Escriba não é de forma alguma contra a EaD – seria um contra-senso de minha parte, dada a minha alocação no Departamento de Estudos em Educação à Distância (DEAD) da UERJ, bem como o meu trabalho nos cursos de licenciatura à distância em Pedagogia e Formação de Professores ofertados no consórcio CEDERJ – consórcio implantado pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, que abrange as universidades públicas desse Estado. O xis da questão não é a EaD em si, mas sim a maneira como ela é introduzida e dinamizada por parte das universidades…

Tal questão possui alguns desdobramentos cruciais para o sucesso da modalidade educacional online: a instituição acredita, de fato, na EaD como modalidade de ensino, ou apenas a concebe como uma forma de equacionar os seus problemas de custeio? Há uma infra-estrutura necessária para a oferta de cursos nessa modalidade? Há um projeto político pedagógico adequado que contemple as demandas de alunos e professores? O material didático ofertado é adequado ao ambiente virtual, ou é apenas uma mera transposição do que é utilizado na sala de aula física? Há investimento na capacitação dos professores para a docência online? Há um estudo claro dos gargalos – leia-se, motivos de evasão – que possam ocorrer durante a realização desses cursos? Há uma comunicação e sensibilização desta modalidade para o corpo discente da instuituição ou, ao contrário, é levado aos alunos como um “fait accompli”?

Caso isto não seja observado, as universidades estarão resolvendo os seus problemas de curto prazo, mas certamente prestarão um tremendo deserviço à Educação à Distância. Para nós que trabalhamos seriamente com a EaD, é preciso que haja pesquisas e reflexões em cima de cases selecionados – tanto de sucessos quanto de fracassos -, pois ninguém nasce sabendo, e é uma prova de humildade reconhecer o desconhecimento sobre um determinado tema. Eu mesmo conheço muitas instituições de “peso” que estão obtendo ótimos resultados com uma EaD séria e de qualidade: a própria UERJ, a FGV, a Fiocruz, o Sesi, e várias outras que por descuido esqueci de citar…

E nem é preciso lembrar aos meus obsequiosos leitores que a EaD é uma política do Governo Lula: basta ver o cronograma da expansão da UAB (Universidade Aberta do Brasil) para saber que a modalidade virtual de educação será uma realidade cada vez maior em nosso país. Pessoalmente, acho que a EaD não veio para acabar com a educação presencial; ela atua de maneira complementar, atingindo determinados nichos de alunos impossibilitados – por motivos econômicos, geográficos, ou até mesmo por falta de tempo – de frequentar os cursos presenciais.

Caso contrário, se tais questões não forem respondidas de maneira satisfatória por parte das instituições de ensino superior, o alunato irá cristalizar a percepção de que a opção pela EaD é apenas um caminho a mais para a obtenção de diplomas fácies, rápidos, baratos e sem muito esforço. Basta olhar para as universidades “caça-níqueis” espalhadas pelo país, para saber que muitas delas encaram dessa forma a educação virtual. Eu mesmo, aqui no Rio de Janeiro, conheço algumas que não fazem a menor cerimônia em esconder esse fato. Basta perguntar aos alunos dessas instituições…
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