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APESAR DA CRISE, UNIVERSIDADES PARTICULARES CRESCEM NO BRASIL

Como todos os meus leitores sabem, sou professor universitário, e atuo tanto na iniciativa pública quanto na empresa privada no âmbito de cursos de graduação e de pós-graduação. Iniciei a minha vida acadêmica em universidades particulares, inclusive tendo feito o Mestrado e o Doutorado em uma delas – tudo bem, a PUC-Rio é uma universidade confessional de ponta, e não se pode tomá-la como um parâmetro para o setor. Mas, vale lembrar, sou egresso de uma universidade pública federal (UFRJ), e atualmente sou Professor Adjunto de uma universidade estadual (UERJ), além de lecionar em uma escola executiva privada de ponta no Rio de Janeiro (FGV).

Durante 17 anos, trabalhei em uma universidade particular aqui no Rio de Janeiro, chegando inclusive a ser chefe de departamento, e depois coordenador de graduação. E, infelizmente, o que eu vi e vivi não foi nada agradável. Percebi, desde o início, que os controladores dessas instituições – na maioria das vezes trata-se de empresas familiares, salvo bissextas exceções – são despreparados para a função, não entendem nada de educação, são cercados por assessores idiotas que lhes dizem as coisas mais óbvias do mundo, e ainda por cima são oriundos de uma cultura familiar perdulária, predatória, descompromissada e absolutamente preconceituosa com a educação e, principalmente, para com os professores. Para esses camaradas, “reitores” dessas universidades, eles encaram a coisa da seguinte maneira: a educação é um negócio, e os professores são um custo (despesa).

Eu mesmo ouvi da boca do “reitor” dessa universidade em que trabalhei a seguinte “pérola”: para mim a universidade ideal é aquela com alunos pagantes, que não a frequentam, e sem professores (sic). Daí, entende-se a opção que muitas dessas intituições estão fazendo pela Educação à Distância (EaD) – mas isso é assunto para um outro post

O resultado, como não poderia deixar de ser, é tenebroso: excesso de vagas, turmas superlotadas, alunos mal-preparados, diretores incompetentes e “vendidos”, investimentos massivos em propaganda e marketing, sem cuidar da infra-estrutura educacional e da capacitação dos profissionais da educação… E, o mais interessante de tudo: professores com salários atrasados, tendo a sua carga horária reduzida a cada semestre letivo, com salários cada vez mais achatados, e dirigidos por gestores imbecilizados que impõem as suas regras sob o signo do medo e da punição – olha, vai ficar sem carga horária, heinm?! Você terá a sua carga zerada se continuar agindo assim -, e outras coisas do gênero.

A cultura que emerge daí é o reflexo do que se observa em sala de aula: a “praga” do aluno-cliente. O professor é um mero prestador de serviço, não um educador, mas sim um mero “auleiro” subserviente às demandas do aluno – afinal, ele mesmo se define como um “pagante” do ensino…

No entanto, tudo indica que esse modelo, nefasto para os professores, é “vencedor” para os “empresários” do ensino. Pelo menos é o que mostra a matéria publicada na segunda-feira passada (28/01/08) pelo jornal Folha de S. Paulo.

Segundo a reportagem, as cinco maiores instituições privadas de ensino superior no país tiveram um crescimento de 34% no número de alunos em seus cursos de graduação, apurado no ano de 2006. A taxa é superior não apenas ao crescimento total do número de alunos matriculados nas universidades do país (cerca de 12%), mas também supera em muito a taxa de crescimento de matrículas nas instituições particulares como um todo (cerca de 16%), segundo os dados do Censo da Educação Superior do Inep.

As dez maiores universidades do país, em número de alunos, são as seguintes:

1. Unip (Universidade Paulista): 136.341 alunos em 2006, contra 93.210 em 2004 – uma taxa de crescimento de 46%;

2. Universidade Estácio de Sá (Unesa), do Rio de Janeiro: 117.679 alunos em 2006, contra 104.346 em 2004 – crescimento de 13%;

3. Uninove (Centro Universitário Nove de Julho), de São Paulo: 57.666 em 2006, contra 39.931 em 2004 – crescimento de 44%;

4. Uniban (Universidade Bandeirante), de São Paulo: 54.789 em 2006, contra 28.665 em 2004 – o maior crescimento de todos, de 91%;

5. Universo (Universidade Salgado de Oliveira), do Rio de Janeiro: 54.177 em 2006, contra 47.557 em 2004 – crescimento de 14%;

6. Unipac (Universidade Presidente Antonio Carlos), de Minas Gerais: 52.839 em 2006, contra 35.755 em 2004 – crescimento de 48%;

7. USP (Universidade de São Paulo), a primeira instituição pública (estadual) da relação: 48.027 em 2006, contra 46.114 em 2004 – crescimento de 4%;

8. Ulbra (Universidade Luterana do Brasil), do Rio Grande do Sul: 47.018 em 2006, contra 47.883 em 2004 – o primeiro decréscimo (-2%);

9. UFPA (Universidade Federal do Pará): 33.524 em 2006, contra 31.843 em 2004 – crescimento de 5%; e, por fim,

10. PUC Minas: 33.372 em 2006, contra 36.903 em 2004 – um decréscimo acentuado de alunos (-10%).

Vale lembrar que as duas universidades que lideram o ranking – a Unip e a Estácio – são donas de outras instituições em outros estados da federação, com nomes e mantenedoras diferentes, driblando assim a legislação vigente – que permite apenas que a universidade atue em seu próprio estado. As estimativas, segundo o Inep, é que em 2007 a Unip teria cerca de 192 mil alunos em seus 73 campi, enquanto a Estácio teria 189 mil alunos em seus 62 campi. Ou seja, é aluno prá dedéu…

E, com o aumento dos custos e a dificuldade de captar novos alunos, a tendência é que as universidades menores sejam adquiridas pelas grandes do setor, em um movimento de fusões e aquisições que ocorre em outros setores da atividade econômica. A Estácio, por exemplo, já iniciou um movimento nesse sentido, comprando instituições em outros estados e abrindo o seu capital para a iniciativa privada. Sem dúvida nenhuma, pode-se dizer categoricamente que estamos diante da era do “varejão do ensino”…

Meu querido pai, que já faleceu, foi diretor durante décadas de instituições de ensino superior privadas. Ele sempre me dizia que a educação é um grande negócio para o dono, e um péssimo negócio para o professor. E me parece que o panorama não mudou muito do tempo dele para os dias de hoje…
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