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CHATEU KSARA: UMA AGRADÁVEL SURPRESA

Quem regularmente frequenta o PRAGMA sabe que uma das fraquezas desse Escriba é o vinho – além, é claro, das mulheres, do rock and roll e dos livros. Sabendo disso, um assíduo leitor – e amigo – pediu ao seu pai que trouxesse um vinho do Líbano para me proporcionar o prazer de degustá-lo…

Sei que na atualidade nos áreas viníferas vêm se desenvolvendo ao longo das mais variadas regiões do globo, inclusive em locais anteriormente não recomendados para o cultivo de uvas viníferas – vide, por exemplo, a região do Vale do São Francisco, na região Nordeste do Brasil. Como se aprende nos cursos de formação de sommeliers, as melhores regiões produtoras de vinhos de qualidade (França, Itália, Espanha, Portugal, Chile, Argentina e Estados Unidos) estão localizadas em áreas de clima temperado – a região da Serra Gaúcha, nossa maior região produtora, está situada em seu segmento inicial.
No entanto, a sensação do momento são os vinhos elaborados em regiões emergentes e promissoras, tais como a Grécia, a Hungria, o Marrocos e o Líbano. Sendo assim, aceitei de bom grado – agradeci aos céus, é claro! – o desafio de experimentar uma garrafa de vinho libanês. Escrevo aqui, a partir de agora, as minhas impressões sobre a degustação.
O vinho em questão foi um Chateau Ksara Tinto, safra 2002 – aliás, estou ainda com uma taça dele em frente ao meu notebook, buscando inspiração para redigir esse comentário…
A bebida é produzida pela maison do mesmo nome, localizada no famoso Vale do Bekaa, região que vem gerando bons frutos na área da vitivinicultura libanesa. Esse local guarda uma longa tradição vinífera por parte de comunidades cristãs lá localizadas, sendo que o Chateau foi adquirido por padres jesuítas em 1857. Atualmente, segundo padrões da indústria do setor, a vinícola conta com a supervisão de enólogos franceses que desenvolvem vinhos adequados às características da região (o que os gauleses denominam de terroir)…
O micro-clima do Vale do Bekaa, situado entre as cadeias de montanhas do Monte Líbano e do Anti-Líbano, é favorável ao cultivo de uvas viníferas finas pela presença intensa de sol combinada com temperaturas baixas à noite – a variação vai de 30 a 15 graus Celsius -, o que permite a vinificação de vinhos de guarda, bastante tânicos, e com uma elevada gradação alcóolica. No caso do Chateau Ksara, os vinhedos se situam por volta de 1.200 metros de altitude, garantindo um micro-clima alvissareiro para a produção de vinhos finos.
O Chateau Ksara é atualmente a vinícola mais antiga do Líbano, tendo inagurado a tradição moderna da vitivinicultura no país. A despeito de ser o empreendimento comercial mais bem-sucedido deste segmento no País dos Cedros, a casa ainda mantém suas tradição artesanal de vinficação – seus produtos são orgânicos, e não levam em sua composição qualquer aditivo químico.
As castas cultivadas nos vinhedos da maison são variadas, abrangendo uvas tintas (Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Syrah, Mouvèdre, Tempranillo, Grenache, Carignon e Cinsault) e brancas (Chardonnay, Sauvignon Blanc, Semillon, Gewurztraminer, Muscat, Clairet e Ugni Blanc). Além de vinhos tintos, brancos e rosés, a vinícola também produz o famosíssimo e aromático Arak – a bebida nacional do Líbano, um aguardente de vinho aromatizado com anis – que utiliza castas locais (Abaidy e Merwah).
O vinho degustado em questão – uma garrafa de Chateau Ksara Tinto 2002 – me reservou uma surpresa agradabilíssima. Vinho potente, com bastante madeira (dado ser repousado em barris de carvalho por aproximadamente 18 meses) e dotado de um teor alcóolico semelhante aos vinhos tânicos chilenos e norte-americanos – 13,5%. Seu corte é dado pelas castas Cabernet Sauvignon (60%), Merlot (30%) e Petit Verdot (10%), o que dá vinhos mais intensos, mais fortes, e menos redondos – logo, recomenda-se um tempo de repouso e de amadurecimento na garrafa, a fim de que suas características mais “agressivas” possam ser amenizadas com o tempo de guarda.
Sua cor é de um vermelho rubi intenso, com um aroma de frutas maduras e especiarias – com toques de pimentão, noz-moscada e cravo -, tornando-o bastante aromático e agradável ao paladar. Ao ser decantado, evolui de maneira muito boa, deixando com que os aromas apareçam de maneira mais generosa. Na boca, o ataque inicial é bastante amadeirado – graças à presença do carvalho no processo de vinificação -, bastante encorpado e um final bastante saboroso.
O vinho acompanha muito bem pratos como carne vermelha grelhada, assada e ensopada, dada a sua estrutura complexa e o seu caráter tânico.
Os vinhos libaneses – especialmente os produzidos pelo Chateau Ksara, bem como outras vinícolas na região – vêm ganhando prêmios internacionais, tornando o Vale do Beeka uma referência na região da bacia do Mediterrâneo e no Oriente Próximo. É um produto promissor e, como tal, vale a pena ser explorado pela iniciativa privada, pelos importadores e pelas autoridades governamentais libanesas – dada a dificuldade de importação e de localização dos vinhos dessa região no Brasil…
Eu confesso que bebi o vinho rezando, e realmente ele lembra em muito os vinhos chilenos mais potentes – cuja tradição de vinhos tinto é consagrada no mundo inteiro -, e também alguns norte-americanos mais renomados – especialmente os da região do Napa Valley, dado o seu caráter amadeirado e condimentado.

Esse Escriba atesta: está mais do que aprovado! Agora, eu espero desgustá-los em sua região de origem, lá no Vale do Beekaa, onde certamente a experiência será primorosa…
Ao meu amigo e seu pai, shukran gazillan! Aos meu enófilos leitores, saha’at!
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