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O PARADOXO DA UNIVERSIDADE PÚBLICA BRASILEIRA

Saiu no último domingo (dia 30/12), na Folha de S. Paulo, uma matéria bastante reveladora acerca dos destinos do alunato que frequenta os bancos das universidades públicas brasileiras. Nada que seja excepcional ou inédito para quem, como esse Escriba, milita nas salas de aula de graduação dessas instituições – em meu caso, em uma universidade estadual…

Na última década, o número de alunos que ingressam na universidade pública vem crescendo a passos largos. As explicações para esse aumento são variadas mas, de um modo geral, a introdução das políticas de cotas – étnicas ou sociais – são, sem dúvida nenhuma, as grandes responsáveis pelo ingresso de segmentos menos favorecidos da população brasileira no ensino superior público. No entanto, o que parece solução também pode gerar problemas inesperados…

O mais interessante é que, conforme o número de ingressantes aumenta, diminui também o números de alunos formados dessas instituições – uma redução de cerca de 10%, segundo dados do Ministério da Educação.

Essa diminuição é causada por dois grandes fatores: o aumento da evasão (isto é, alunos que desistem do curso) e o aumento do tempo que os estudantes dessas instituições levam até obter o diploma de conclusão do curso. As causas para esse fenômeno, segundo os pesquisadores, residem na insatisfação crescente dos alunos com os cursos de graduação, além da necessidade premente desses em trabalhar conjuntamente à realização do curso.

Em relação a 2004, a queda de alunos formandos foi de 9,5% – cerca de 19.177 estudantes a menos -, o que representa quase o dobro de vagas ofertadas no vestibular da USP, por exemplo! Em contrapartida, o número de formandos nas universidades particulares aumentou em 30,5% durante o mesmo período.

Para quem está fora do contexto, esse paradoxo no mínimo é assustador. Afinal, o sonho de consumo de qualquer estudante do ensino médio é ingressar no ensino superior público, que é gratuito e de qualidade – por exemplo, na última edição do Enade (Exame Nacional de Cursos, o antigo Provão), 21,2% dos cursos das universidades públicas alcançaram o conceito máximo (nota 5), contra apenas 1,6% dos cursos oferecidos pelas universidades particulares. Algo se passa, então, entre o ingresso do aluno e o seu percurso na universidade. O que, mais especificamente?

A primeira explicação reside no ingresso cada vez maior de camadas mais pobres na universidade pública. A grande maioria é egressa do ensino médio sem as competências mínimas necessárias à educação superior – leitura e interpretação de textos escritos, operações matemáticas e raciocínio hipotético-dedutivo -, o que acaba gerando enormes dificuldades durante a estadia do aluno na universidade. Por outro lado, apesar da gratuidade do curso, existem custos indiretos como transporte, alimentação, vestuário e investimentos em material didático – as mal-fadadas apostilas “xerocadas”. Como a ajuda de custo para esses alunos é na maioria das vezes irrisória, muitos deles acabam por ter de trabalhar, e aí é que mora o perigo…

Exaustos, na maioria das vezes a grade de horário obedece aos interesses do corpo docente, e não aos dos alunos. Eu falo isso por experiência própria, tanto como aluno quanto professor. Quando estudei na UFRJ nos anos 1990, os horários eram tresloucados, os “buracos” eram enormes (cerca de 2 a 3 horas de intervalo para cada aula), o que levava ao aluno que trabalhava à “trancar” disciplinas e, consequententemente, adiar a conclusão de seu curso em até três semestres letivos. As direções das unidades e os professores não eram nem um pouco sensíveis às demandas do trabalhador-estudante, e o panorama não mudou nada após mais de uma década. A conclusão é que a universidade pública é ainda elitista por parte de seus dirigentes e professores, pois ela ainda não está preparada para lidar com o dublê de aluno/trabalhador – apesar do que se diz nas salas de aula por parte dos professores “esquerdóides”…

A desistência também é fomentada, na grande maioria das vezes, por um modelo de ensino antiquado e defasado das demandas atuais da sociedade, bem como grades curriculares enfadonhas e desatualizadas – na maioria das vezes anacrônicas, pautadas em métodos pedagógicos cansativos como leituras de texto, seminários, debates e aulas expositivas -, com pouca interação entre a teoria e a prática.

Os professores, por seu turno, têm também a sua parcela de culpa nesse processo. Atualmente, os critérios adotados na avaliação docente (padrões CAPES e CNPq) referem-se apenas à indicadores de produtividade acadêmica – leia-se artigos publicados em periódicos indexados e de renome internacional, bem como relatórios e bolsas de pesquisa -, pouco levando-se em consideração fatores como a avaliação discente, número de turmas lecionadas na graduação, dentre outros fatores.

Isso, evidentemente, levou ao enfraquecimento à olhos vistos do ensino de graduação na universidade pública, com a criação de um corpo docente “especializado” em publicar os mesmos artigos com títulos diferentes, a serem publicados em revistas diferentes, a fim de que consigam a pontuação adequada – leia-se, mais tempo para pesquisa, menos tempo para sala de aula. Com a entrada de professores adjuntos, há pouco incentivo para a sua progressão funcional, o que os leva a serem muito mais “pesquisadores” e menos “professores”. Daí o desinteresse, e até mesmo o desprezo, para com o ensino de graduação e para os colegas que eventualmente se dedicam mais à sala de aula…

O que fazer? Não há solução? Claro que sim, mas é preciso que haja coragem dos gestores educacionais para que tal panorama deixe de ser o que é atualmente: uma vergonha, e um desperdício de recursos públicos!
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