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O GUARDIÃO

Nesse ano que se finda implacavelmente, faz aproximadamente 20 anos que se deu por encerrada a minha passagem da adolescência para a vida adulta – isto é, a saída do colégio para a entrada na faculdade…

Estudei no mesmo colégio por aproximadamente uma década. Fiz grandes amizades, e lá aprendi tudo o que eu veria mais tarde com mais intensidade na vida: a mentira, a inveja, o ódio, o rancor e a intriga.

Mas também foi lá que vi coisas boas e belas: me apaixonei intensamente algumas vezes, amores ora factíveis porém, na grande maioria das vezes, impossíveis ou inacessíveis. Descobri o valor do companheirismo e da amizade, apesar das matizes plúmbeas da competição e da rivalidade, que gravitam ao redor das pessoas como nuvens que prenunciam a tempestade vindoura…

Um mundo em expansão, repleto de amores, rosário de nomes multicoloridos tendo o céu por testemunho: mundo de Rosanas, de Valérias, de Anas, de Sandras, de Lilians, de Andréias, de Patrícias, de Simones, de Solanges

Desde garoto, um imperativo habitava obsessivamente os meus pensamentos: o que ser quando crescer? Achava essa pergunta um tanto quanto incômoda – quando não inoportuna -, pois não sabia quase nada do que era a vida, e vivia o meu microscópico “mundinho” de colégio de segundo grau. Meus amigos eram tudo para mim, e me sentia pleno, satisfeito em meu provincianismo, fechado em copas – sempre! Je suis le roi de mon châteu, repetia sempre para mim mesmo…

Cumpri o que os meus pais sempre esperaram de mim – em termos, pois minha mãe nutria um desejo secreto de que eu fosse militar. Passei para uma universidade pública, tirando 2o. lugar no concurso vestibular. Saí de uma “redoma” confortável para um mundo desagradavelmente hostil, austero, cuja opressão era sutil porém onipresente, onde a postura existencial de meus colegas era bastante diferente da minha. “Ser-no-mundo”, diria Heidegger; “Mal-estar”, diria Freud; eu, perdido, a meio caminho dos dois…

(Mal sabia que eu estava a praticar o suave exercício da diferença, ao lidar com a alteridade e com visões de mundo diferentes do meu mundo. Nunca a máxima de Wittgenstein me pareceu tão adequada naqueles momentos: “o universo do meu pensamento é delimitado pela minha linguagem”. Afinal, tratava-se de um suburbano da “gema” adentrando ao universo colorido e matizado da Zona Sul…).

Foi na universidade que descobri o que mais tarde Richard Sennett descrevia com a noção de “força de laços fracos”: nunca interagi com tantas e diferentes pessoas; nunca elas foram tão ausentes para mim, o que reforçava ainda mais a minha “orfandade funcional” – (copyright reserved ao meu amigo psicoterapeuta de casal e família!)

Na universidade me fiz profissional, descobri a minha vocação – seguir o caminho do magistério, tal como os meus pais (mais psicanalítico, impossível!!!) -, mas o meu caráter – mal sabia eu – já estava formado muitos anos antes, nas carteiras do colégio onde estudei. Parodiando um certo cientista social, é preciso que nos desterritorializemos para nos reterritorializarmos, pois o passado nos ajudar a resignificar o presente, e a prospectar o futuro…

Reencontro o meu amigo após 20 anos – duas décadas que, ao primeiro abraço, se esvaem em um intervalo de apenas dois dias! Esse meu amigo que me conheceu dos dez aos dezoito anos de idade, e que me acompanhou nas aulas, nos jogos de futebol no colégio, nas festas, na bebedeiras e, principalmente, no olhar incomodamente distópico sobre tudo e todas as coisas – presente apenas naqueles que se sentem um “peixe fora d’água”.

Aliás, diga-se de passagem, sempre me senti estranho, distante, apesar de incluso no mundo, e esse sentimento de não-pertença, de não-lugar, de “orfandade territorial”, me acompanha desde tempos imemoriais – afinal, como diria Ariano Suassuna, o principal feito de um homem na vida é mostrar que a sua história – por mais diminuta e irrelevante que ela possa parecer – nada mais é do que uma atualização de um drama universal, daqueles bem possantes, que só um Shakespeare, um Goethe, um Borges, um Guimarães Rosa, um Baudelaire, um Kerouac é capaz de sintetizar, com uma enervante lucidez…

Ao brindar o reencontro, o meu amigo me disse: “Você continua o mesmo de sempre”! Fiquei preocupado, pois isto é o ápice da falta de criatividade e de reinvenção existencial! Retruquei, “Não acho”, e ele me rebateu dizendo o seguinte: “a sua maior virtude naquela época foi a de circular por todos os grupos sem, no entanto, nunca pertencer de fato a algum”…

Fiquei desconcertado com essa observação, pois este era o link que me faltava para urdir a trama da memória entre o passado e o presente. Só podia vir dele, o Guardião das lembranças amareladas nas páginas da minha memória, mas que na dele pareciam nítidas e frescas, tal como uma brisa à beira-mar. Ele é o Guardião dos “causos”, das pilhérias envolvendo colegas, das traquinagens feitas em sala de aula, dos amores e namoros, das festas, dos conluios políticos. Porém, ele também zela pelos discursos inauditos, os intertextos, as traições, as maledicências, as intrigas, as sacanagens contra os colegas…

Ao vê-lo desfilar as lembranças durante à noite, regado a um considerável número de canecas de cerveja, me lembro de um conto de Jorge Luís Borges, intitulado “O Imortal”. As estações passam, e como diria o velho e sábio filósofo grego Heráclito, é impossível se banhar em um mesmo rio duas vezes seguidas. Mas, a despeito dessa advertência, ele teima em desafiar o devir, o fugidio e a veleidade do momento, asseverando a permanência e a constância, lançando uma âncora em alto-mar, tendo ao fundo um farol que projeta sua luz em um passado que, a cada dia que passa, fica aos poucos mais distante…

No entanto, meu amigo também lembra com amargor os anos que se passaram após o colégio. Ele até hoje se sente um estranho, um avião fora de rota, um navio sem porto, um andarilho sem pouso, uma nau sem um baía escondida a protegê-lo dos ataques dessa memória que o atormenta. A mão que beija é a mesma que escarra, já diria um conhecido poeta de nossa língua.

“Vocês deram certo, e eu não!”, disse ele de maneira categórica! Não me contive: “Cuidado para não virar uma caricatura de si mesmo, tal como uma foto desbotada em uma parede embolorada, uma recordação empalhada, fruto da técnica mais refinada de taxidermia, que jaz ao largo, sem viço, sem luz, sem tônus…”

“Você fez o melhor de si”, continuei, “afinal só podemos dar aquilo que é possível naquele momento”. Mas o meu amigo estava lá, impávido, inflexível, o rosto taciturno e sombrio, ocupando o constrangedor papel de carrasco de si próprio, o hediondo algoz de sua auto-estima…

Mal sabe ele o quão importante ele é para todos nós – os desmemoriados -, o nosso Guardião de todas as lembranças, que tendem a ficar cada vez mais pálidas e esquálidas com o passar dos dias, dos anos, das décadas… Para mim, ele é uma das pessoas mais importantes de minha vida, pois trata-se do verdadeiro arauto dos melhores anos de nossas vidas. Num piscar de olhos, amigos presentes ou ausentes, lembrados ou não, aparecem como num passe de mágica na tela de nosso espírito…

Ele teme o futuro, posto encarar o presente da perspectiva de uma personagem do passado, semelhante a um vidro empoeirado disposto em uma prateleira perdida em uma botica antiga – daquelas na qual a palavra “farmácia” ainda se grafava com “ph”. Não me contive: “A experiência é um farol que ilumina para trás”, e subitamente um brilho no olhar emergiu de soslaio de uma face carregada, típica de quem vagou por anos e ainda não se encontrou. “Meu amigo de anos atrás voltou”, pensei, “mesmo que momentaneamente”.

Não podemos ser tão duros e implacáveis consoco, deixemos que o mundo se encarregue de nos devolver isso. Fracassos existem, elaborá-los é mister, mas o melhor é ver o passado tal como um thriller de suspense, mas que já sabemos de antemão o seu final. “Afinal”, pontuei, “nós somos os senhores dos nossos destinos”

Se o meu amigo vai compreender as coisas da maneira como as vejo, sinceramente não tenho a menor idéia. Só sei que o pior tipo de sofrimento é o do passado idealizado – e ele não tem nada de edificante. Às vezes, é salutar que cortemos as cordas com o passado, para que não possamos permanecer atados a um futuro-potência que não se transforma em ato – um vir-a-ser desperdiçado.

No entanto, o mais importante disso tudo é que certamente nos veremos mais vezes, para me guiar pelos recônditos da minha mente. Ele, juntos com outros amigos e amigas queridos, fazem parte do mosaico flutuante da minha imaginação…

Welcome back, my friend, to the show that never ends…
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Categorias:Geral, Pensamentos, Poesia
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