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RACHEL BRICE: A RAINHA DO TRIBAL FUSION BELLY DANCE

Por essas andanças desse Escriba pelo mundo da dança do ventre, eis que no ano passado a minha mulher chega em casa com um DVD e me fala: “Você precisa ver isso!”. Pensei cá com os meus botões: “Meu Deus, aí vem mais um vídeo com bailarinas dançando sempre as mesmas coisas – candelabros, véus, espadas, bengalas..”. Mas, como diria uma velha campanha publicitária, “não basta ser marido, tem de participar”. Enfim, sentei e fui ver o bendito vídeo. Ao final, meus caros leitores, confesso que fiquei em estado de choque, chapado, alucinado, estonteantemente impressionado com o que vi…

O DVD – em realidade, uma aula seguida de uma rápida apresentação – era da bailarina norte-americana Rachel Brice, um monstro da dança contemporânea, e um dos expoentes do Tribal Fusion Style Belly Dance. Esse estilo, também chamado de “dança do ventre pós-moderna” ou “dança do ventre gótica”, é uma elaboração complexa e criativa de movimentos rítimicos e técnicas de expressão corporal que fusionam diferentes elementos da dança do ventre, dança indiana, dança das tribos indígenas norte-americanas, dança flamenca, com pitadas góticas, ciganas e um ar moderníssimo, charmoso e cool. Ou seja, um liquidificador de referências que, ao serem combinadas, formam algo original e fantástico de se ver, longe de qualquer tipo de clichê que impera no gênero.
Rachel Brice é a diretora artística e a coreógrafa de sua própria companhia – The Indigo Belly Dance Company -, fundada em 2003, e baseada na cidade de São Francisco (tinha de ser lá!). A sua trajetória é bastante interessante. Ela despertou para a dança do ventre ao assistir a apresentação do grupo de dança oriental Hahbi’Ru, em 1988. Formada em Etnologia da Dança pela San Francisco State University, ela iniciou seus estudos com a professora Carolena Nericcio, e passou por várias companhias de dança (Jill Parker’s Ultra Gypsy, Belly Dance Superstars), até formar a The Indigo Belly Dance.
Além de até hoje estudar com Nericcio – diga-se de passagem, a criadora do American Tribal Style -, a bailarina estuda com a professora de dança do ventre Suhalia Salimpour, e pratica ioga com Gary Kraftsow. Nesse ano, Brice e sua companhia criaram o seu primeiro espetáculo, intitulado Le Serpent Rouge , que atualmente está em turnê mundial…
A The Indigo Belly Dance, além da própria Brice, é integrada por outras bailarinas – Mardi Love, Sharon Kihara e Zoe – tão exóticas como ela mesmo, e para quem quiser maiores informações é só acessar o site (http://www.rachelbrice.com).
Como eu falei antes, assistir a uma apresentação da Rachel Brice é, simultaneamente, belo e assustador, dada a excepcionalidade técnica de seus movimentos, e pode-se dizer que ela leva a máxima potência o conceito central da dança do ventre – a desconstrução/reconstrução do corpo. Seus movimentos, graciosamente controlados por uma concentração digna de um iogue, buscam inspiração em um mosaico de referências: dança do ventre, dança indiana, danças indígenas norte-americanas, além de um trabalho abdominal excepcional, aliado à movimentos de ioga – um show à parte, de controle muscular e de extrema flexibilidade corporal…
Como se não bastasse isso, o seu figurino é, no mínimo, inusitado! Além de um corpo esguio e flexível repleto de tatuagens, o seu figurino – como qualquer coisa que se rotule de “pós-moderno” – é uma miscelânia de diferentes vestimentas, com adornos ciganos, orientais e tribais, além de piercings, brincos enormes, com predominância da cor preta – o que denota, alíás, um visual super-gótico. Olhando para o seu figurino, ela se assemelha a uma “cigana gótica-psicodélica”.
Como se não bastasse, a trilha sonora de suas coreografias é o máximo da contemporaneidade. A trilha usa e abusa de ritmos árabes e indianos tradicionais (repletos de tablas e derbakes), aliados a um conjunto de samples e de texturas eletrônicas (feedbacks e loops) muito loucos, dignos de um Trent Reznor (do Nine Inch Nails). A trilha sonora de suas apresentações é composta pelo grupo Pentaphobe, e é o envelope sonoro ideal para as suas coreografias. O resultado só pode ser esse: exótico, sombrio, taciturno, introspectivo, moderníssimo, que remete a uma atmosfera de um Blade Runner primitivo, tribal, de tempos ancestrais…
Em linhas gerais, Brice se assemelha a uma deusa gótica (dada a predominância da cor negra em seu figurino), cujos movimentos corporais convidam a uma introspecção profunda a respeito dos mistérios da existência. Não se trata apenas de uma performance para dançar, mas também para pensar, dado o minimalismo e a complexidade de seus movimentos. Brice faz milagres em um pequeno espaço no palco, dado que suas coreografia não são compostas por movimentos largos e generosos, mas sim abstratos, contritos e contorcidos, mostrando um excepcional domínio mental sobre o corpo, além da tensão que exala pelos seus poros. A sua performance não é apenas dança por dança, mas um gesto em seu sentido mais conceitual possível, uma verdadeira “obra em aberto” – como diria Umberto Eco -, cuja significação dos movimentos é construída e resignificada pela audiência. Vê-la, sem sombra de dúvida, é uma experiência acachapante…
Brice e sua companhia são a prova de que, além de evoluir, a dança do ventre pode (e deve!) se fundir com outros ritmos, movimentos e texturas sonoras, gerando algo singular e genuinamente inovador. Brice é a nossa deusa gótica, que relembra tempos imemoriais, onde corpo e mente ainda não tinha sofrido a cisão cartesiana. Em uma palavra, sua coreografia remete a tensão essencial da nossa subjetividade. Pensamento e corpo estão indissociados em sua dança, e a tensão envolvida em sua execução nos lembra o quão complexo, abstrato, sombrio e introspectivo pode ser o corpo humano…
É para ver, espantar-se, rever, jubilar-se, olhar mais uma vez, e refletir. É o corpo como veículo da abstração, projetado no vácuo como uma tela de Miró, uma peça musical de Miles Davis, um móbile de Alexander Calder, um ready-made de Marcel Duchamp. É a abstração em estado puro, o esvaziamento do pensamento frente a sutil corporeidade de nossa carne. Uma pausa para refletir sobre o vazio da existência.
Aproveitem, pois é raro termos essa sensação. Talvez, em situações limítrofes, como a do êxtase religioso, ou do gozo místico…
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  1. yallah
    abril 4, 2008 às 2:24 am

    Olá, José Mauro,
    sou dançarina e pesquisadora da dança (sou doutoranda do PPG em Antropologia Social da UnB) e me interessou muitíssimo sua opinião sobre da dança. Por vários aspectos. Estou em franco desenvolvimento do projeto e gostaria muito de ter você como interlocutor. Podemos nos falar? Vou te enviar um e-mail, pode ser?

  2. yallah
    abril 4, 2008 às 2:26 am

    Não achei seu email. Foon. Podes me contactar?

  3. José Mauro Nunes
    abril 4, 2008 às 2:34 am

    Olá Yallah, tudo bem?
    Grato por entrar em meu blog. Será um prazer ter algum tipo de interlocuação com uma bailarina, e aluna de um programa de pós. Entre no meu orkut (José Mauro Nunes), e lhe mando uma mensagem restrita com o meu e-mail.
    Abraços,
    José Mauro Nunes

  4. yallah
    outubro 1, 2008 às 7:12 pm

    Olá, José.
    Somente hoje vi sua recomendação. Há vários registros no seu nome. Por gentileza, procure por mim lá: Roberta Salgueiro. É o primeiro que aparece.
    Abraço,
    Roberta

  5. Zahrah
    junho 19, 2009 às 5:22 pm

    Oi, José Mauro. Obrigada pelo interesse e parabéns pela profundidade em suas palavras. Encare isso como uma crítica CONSTRUTIVA, mas Gothic Bellydance e Tribal Fusion são estilos diferentes. A Rachel Brice não é performer de Gothic Bellydance. Perdoe- me se pareço grosseira a uma primeira vista, mas coloco- me inteiramente à disposição para esclarecimentos, sou precursora da Gothic Bellydance no Brasil e coloco meus poucos conhecimentos totalmente á disposição. Sobre o Tribal, vc pode procurar pessoas como Bety Damballah e Shaide Halim, são especialistas no estilo Tribal no Brasil!

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