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A DANÇA DO VENTRE E O FOLCLORE ÁRABE

Os queridos e obsequiosos leitores do PRAGMA sabem que uma das minhas atividades profissionais envolve um estreito relacionamento com a comunidade libanesa no Brasil – mais especificamente, no Estado do Rio de Janeiro. Além desse envolvimento profisional, também há o lado pessoal: a minha mulher tem como hobby a prática de danças orientais, como a dança do ventre e a dança indiana. Sendo assim, apesar de neto de portugueses (e carioquíssimo da ” gema”), tenho uma grande simpatia pela cultura e pelo folclore árabes – orientais, de um modo geral – em seus diferentes aspectos, isto é, a música, a dança, a arquitetura, a literatura, o cinema e a culinária.

Por isso, acabo assistindo muitos shows, apresentações em restaurantes e casas de espetáculos, além de vídeos de bailarinas de dança do ventre brasileiras e estrangeiras. Para os homens, um colírio para os olhos, diriam alguns! Para as mulheres, especialmente as que não apreciam a dança ou a acham vulgar, um pesadelo…
Para quem não conhece as nuances do estilo, em um primeiro olhar tudo parece a mesma coisa. No entanto, um olhar mais profundo revela a complexidade e a profundidade dos movimentos sensuais do quadril e do tronco, isolados ou não, acompanhados de ondulações abdominais, além dos tremores e das batidas do quadril – mais conhecidos como shimmies, um dos passos básicos da dança .
A dança do ventre (raqs sharqi, “dança oriental”, ou raqs baladi, “dança folclórica” em árabe, ou bellydance em inglês) foi um termo criado no final do século XIX para ilustrar as manifestações da dança feminina presentes no folclore árabe. Na base da denominação, o olhar ocidental sobre o exotismo da cultura do Oriente, descrito de maneira categórica pelo intelectual palestino Edward Said de Orientalismo. O imaginário ocidental sobre a bailarina da dança do ventre é composto por múltiplas facetas, ligadas aos arquétipos de deusa, mãe, concubina e mulher…

Suas origens são controversas, cercadas de grande polêmica acerca de suas raízes. Alguns pesquisadores creditam o seu início à práticas religiosas ancestrais – rituais iniciáticos relacionados ao culto da Deusa-Mãe e de outras divindades femininas. Outros estudiosos atestam a existência de vínculos estreitos entre a dança do ventre e o culto à deusa egípcia Ísis – a Deusa-Mãe do Egito, filha de Geb (o Deus do Céu) e de Nut (a Deusa da Terra), casada com Osíris.
Tal como suas raízes, a sua localização geográfica é bastante dispersa, envolvendo diversos países na região do Leste Europeu e do Oriente Médio – Egito, Iraque (antiga Babilônia), Líbano, Síria, Pérsia, Grécia e Turquia -, além da Índia. Dada a sua característica bastante sensual, rica em plasticidade e expressividade, a dança do ventre foi alvo de críticas severas e de proibições nos países islâmicos (até hoje, em algumas regiões) e na própria Europa cristã, durante o século XIX e o início do século XX, por ser considerada impura e pecaminosa, dado o seu caráter erótico para os seus detratores.
Em linhas gerais, como toda expressão corporal, a dança do ventre possui uma concepção bastante característica a respeito dos movimentos corporais. A palavra-chave para se entender a dança do ventre passa pelo binômio conceitual desconstrução/reconstrução do corpo. Os movimentos executados pelas bailarinas envolvem uma conjunção/separação dos movimentos do tronco e do quadril, em eixos síncronos e assíncronos, o que dá a sua beleza estética – realçada em demasia por uma execução técnica esmerada…
Por sua difusão no Oriente Médio, a dança do ventre absorveu muitos costumes regionais das comunidades locais. Tal herança se manifesta nos diferentes estilos e variações da dança, com o uso de diversos elementos como a espada, o punhal, os véus, o candelabro (shamadan), as taças, o khaligi (ritmo dançado com uma bata longa e os cabelos soltos, típico da região do Golfo Pérsico), o jarro, a bengala (saïdi), a hagallah e a meleah iaff.

O recurso a esses diferentes elementos do folclore da região ilustram o mosaico que é atualmente a dança do ventre. No Brasil, o movimento ganhou um forte impulso nos últimos anos com a abertura de academias e cursos de dança do ventre, além da expansão significativa dos locais de performance – teatros, restaurantes típicos de culinária árabe, casas de chá e cafés. Além do mais, workshops abertos à comunidade e a difusão, pela imprensa, dos benefícios da dança do ventre para o incremento da auto-estima da mulher ajudam ainda mais na popularização do estilo nos grandes centros urbanos de nosso país. Atualmente, São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte apresentam a maior concentração de professoras, bailarinas, adeptos e praticantes da dança do ventre em nosso país.
Conta também a abertura do Brasil às manifestações culturais de outros países e regiões do mundo, o que ajuda em muito a difusão desse estilo de dança. Como a nossa cultura é um caleidoscópio de múltiplas influências – aliás, qual cultura não é um mosaico? -, a absorção dessas manifestações ajuda a mitigar um pouco a visão, difundida pela mídia de massa global, de que o todo o Oriente Médio é fundamentalista islâmico…
Por ser um estilo aberto a diferentes influências, a dança do ventre está em constante evolução, absorvendo elementos da dança indiana, da dança cigana, do flamenco e de movimentos da ioga – o maior exemplo dessa evolução é o movimento intitulado tribal fusion, capitaneado pela excepcional bailarina norte-americana Rachel Brice (o que irá merecer de minha parte um post todo especial sobre o assunto!).
Aguardem outros posts sobre o assunto. É esse Escriba entrando em ritmo de férias, procurando oferecer aos seus leitores mais lazer, entretenimento e cultura…
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  1. yallah
    abril 4, 2008 às 2:33 am

    Opa! Finalmente algo coerente sobre a dança. Já tô fã. Vais escrever mais sobre o tema?

  2. José Mauro Nunes
    abril 4, 2008 às 2:41 am

    Obrigado pelo fã. Procuro fazer o melhor que posso, apesar de não ser um especialista no tema, e sim apenas um entusiasta das diversas manfestações da cultura árabe. Se vascilhares mu blog, vais achar muita coisa sobre temas do Oriente Médio. Pretendo publicar sim, mais alguma coisa sobre dança do ventre.

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