ESTAVA DEMORANDO…

Hoje, por volta das 7 da manhã (horário local), um carro bomba explodiu em Beirute, no bairro cristão de Baabda, matando o general François Al-Hajj, chefe de operações do exército libanês. O atentado de hoje representa uma elevação do grau de instabilidade política do país, não apenas pelo nível da autoridade atingida – nesse caso, um militar de alta patente -, como também este ocorreu em uma área extremamente importante e nevrálgica da capital. Neste bairro, além do Palácio Presidencial, estão localizados outros órgãos políticos relevantes como o Ministério da Defesa, muitas embaixadas, bem como a residência de vários políticos importantes. Supostamente, a área deveria ser de “segurança máxima”, mas infelizmente os fatos – sempre os fatos – acabam contradizendo as intenções.

Para quem é de fora, e não conhece o intrincado mosaico de interesses políticos no País dos Cedros, tal ato é lamentável e digno de repúdio. Porém, para quem é de lá ou possui laços estreitos com o país, sabia que mais cedo ou mais tarde isto iria acontecer. Era só uma questão de saber quando, e com quem

O atentado aconteceu um dia após o adiamento – pela oitava vez (!) – da eleição do novo Presidente do Líbano. Até o presente momento – posto que lá, os humores políticos mudam ao sabor das marés do Mar Mediterrâneo -, há um nome de consenso, o General Michel Suleiman, atual chefe do Exército do Líbano, já aceito tanto pela situação (pró-Ocidente e anti-Síria) quanto pela oposição (pró-Síria e anti-Ocidente). No entanto, as tertúlias a respeito do preenchimento dos cargos de segundo e terceiro escalões do governo são intestinas, e o principal líder da oposição, o general cristão Michel Aoun – que conta com o apoio do partido Hezbollah, dos grupos pró-Irã e Síria e dos muçulmanos xiitas – vem levantando uma série de questões a respeito da legitimidade do atual governo “provisório” capitaneado pelo Primeiro Ministro Fouad Siniora, dado término do mandato do ex-Presidente Emile Lahoud, ocorrido em 24 de novembro último.
Ou seja, um imbroglio só…

Como o cargo principal da República encontra-se atualmente em vacância, o Líbano vive um vácuo de autoridade governamental, consequentemente, sem um rumo político claro, o que perigosamente abre espaço para iniciativas de grupos radicais de ambos os lados que, diga-se de passagem, andam se rearmando freneticamente nos últimos meses. O atentado de hoje pela manhã é uma prova do risco eminente que corre o Estado Libanês, haja visto que os sucessivos adiamentos da escolha do Chefe da Nação são indicativos das fraturas existentes entre os diferentes clãs e comunidades confessionais que compõem o mosaico de interesses cambiantes na seara interna do País dos Cedros.

O atentado contra o Gen. Al-Hajj é um ato político eivado de significado posto que, com a iminente eleição do Gen. Suleiman para a magistratura do país, o primeiro deveria – pela ordem – ocupar o cargo de Comandante-em-chefe das Forças Armadas do país – uma instituição bastante respeitada pela população, em função de sua elevada credibilidade. Além do mais, o Gen. Hajj foi o líder das operações que desbarataram o grupo islâmico Fatah al-Islam, que operava no campo de refugiados de Nahr al-Bared, no norte do país, até o meio deste ano. Explodir o veículo do general, dada essas circunstâncias, é um típico caso de associação entre a fome e a vontade de comer. Uma obra ou de quem quer bagunçar o coreto, ou então de quem quer apressar o processo de escolha do próximo dignatário do país.

Os libaneses, especialmente os habitantes de sua capital, Beirute, estão bastante apreensivos com a perspectiva sombria de uma nova guerra civil – algo relativamente corriqueiro na história recente do país. Muitos habitantes já mudaram as suas rotinas, e a tensão é nítida nos olhares apertados das pessoas nas ruas. Bares, cafés, shopping centers, praças e outros locais de encontro vêm perdendo frequentadores nos últimos meses, indicando uma escalada da tensão interna no país. Ou seja, a “fervura” da panela está aumentando…
Segundo o aforisma clássico de Carl von Clausewitz, general prussiano e um dos maiores teóricos da guerra moderna, “a guerra é uma continuação da política por outros meios”. Nesse sentido, atentados não são apenas atos bárbaros e sanguinários, mas também mensagens políticas cujos signos devem ser decodificados e interpretados. Dessa maneira, a pergunta que não quer calar é: a quem interessa a desestabilização do Líbano?
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