ADEUS, CARO STOCKHAUSEN

Morreu na quarta-feira passada, último dia 5 de dezembro, o compositor alemão vanguardista Karlheinz Stockhausen, aos 79 anos de idade. Um dos maiores expoentes da música contemporânea – junto com excepcionais compositores como John Cage, Pierre Boulez, Iannis Xenakis, Olivier Messaien, Steve Reich, Luigi Nono e Philip Glass -, Stockhausen foi o pioneiro nas experimentações com computadores e sintetizadores, o que levou-o a ser reconhecido pela crítica musical como o pioneiro – junto com o francês Pierre Schaeffer -do que denominamos de música eletrônica.
A dissonância e o caráter abstrato da música de Stockhausen devem ser entendidas como uma derivação natural do caminho aberto pelo dodecafonismo e atonalismo alemães do início do século XX, propostos pelo “trinca” Arnold Schoenberg, Anton Webern e Alban Berg – aliás, a versão coreografada do Pierrot Lunaire de Schoenberg, dançada pelo bailarino russo Rudolf Nureyev, é algo próximo do sublime!
Assim como as suas mixagens eletrônicas já tinham sido anunciadas anteriormente por alguns compositores que já faziam “colagens mecânicas” sonoras em partituras clássicas – como, por exemplo, sons de buzinas de carros, motores a pistão, sirenes -, mais notadamente o genial francês Edgard Varése.
No entanto, não dá para entender a música pop rock atual sem entender o papel seminal de Stockhausen. Das colagens sonoras do Sgt. Peepers dos Beatles, passando por Frank Zappa, Kraftwerk, Pink Floyd, Bjork, David Bowie, King Crimson, Nine Inch Nails, Chemical Brothers, Aphex Twin e até mesmo os cantores de rap e de hip-hop – mestres dos samples e das fusões rítimicas proporcionadas pelos sequenciadores -, toda a música atual foi (e continua sendo) influenciada pelo “corte e cola” de sons isolados, pinçados, remixados e processados por toda a parafernália eletrônico-computacional que foi introduzida pelo maestro alemão.
Além disso, muitos músicos de jazz sofreram algum tipo de influência de sua obra: Miles Davis, Cecil Taylor, Charles Mingus, Herbie Hancock… a lista é longa!
Além disso, Stockhausen fugiu do “padrão” da música clássica ao apresentar as suas obras em anfiteatros e auditórios especialmente preparados para dar uma maior consistência à experiência musical de audição de suas peças. Utilizou também textos retirados de línguas orientais como o sânscrito, ao compor uma ópera baseada em tópicos da religião budista. Aliás, diga-se de passagem, assim como John Cage, ele incentivou bastante o diálogo entre a música ocidental e a produzida em outras regiões do globo, como as geradas na Indonésia (mais especificamente, nas ilhas de Bali e de Java) e na Polinésia.
No momento em que Stockhausen iniciou as suas composições, muitos críticos se assustaram afirmando que a sua música indicava o fim do elemento humano e da emoção na música – um produto, aliás, genuíno de nossa espécie.
Neste ponto, me permito discordar: apesar de mecânica e um tanto quanto monótona – propositalmente – em alguns compositores, não há dúvida que os sintetizadores, os sequenciadores e os computadores revolucionaram as formas de compor, tocar e apresentar a música nos dias de hoje. Os samples, os beats, os loops, os ritmos quebrados e fracionados em micro-segundos, as dissonâncias e os ruídos, tudo vem dele. Uma de suas maiores contruibuições foi a de aproximar a “música erudita” da chamada “música popular”, relativizando a fronteira entre o “clássico” e o ” popular”.
Daí, sua obra ser considerada seminal, típica dos gênios que, bissextamente, vêm nos surpreender e propor novas soluções para uma experiência tão humana que é a musical…
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