LE BEAUJOLAIS NOUVEAU EST ARRIVÉ!

Na terceira quinta-feira do mês de novembro – isto é, no último dia 15 – ocorre a já tradicional e esperada chegada do Beaujolais Nouveau, um dos vinhos franceses que mais foi alvo de um trabalho de marketing por parte da indústria da viti-vinicultura. Neste dia, os bistrôs, restaurantes e cafés parisienses são embandeirados com cartazes anunciando a chegada da nova safra – o famoso “Le Beaujolais Nouveau esta arrivé” -, menus de degustação são lançados para a harmonização do vinho com a comida, e várias ações promocionais são empreendidas a fim de incentivar o consumidor a exercitar as suas papilas gustativas ao redor de uma garrafa de Beaujolais.

Não há dúvida que o Beaujolais Nouveau é um sucesso de vendas – cerca de 11 milhões de garrafas foram vendidas em 2006 -, provando ser um verdadeiro case de marketing. No entanto, as perspectivas não são tão róseas assim – contrastando com as 400 mil garrafas de Beaujolais Nouveau em sua versão rosé, direcionadas para o maior mercado consumidor da bebida, o Japão, que só em 2006 consumiu cerca de 11 milhões de garrafas da bebida…

Ironicamente, o problema do Beaujolais Noveau está no seu próprio sucesso, isto é, o fato de ter se tornado o “vinho de entrada” para uma massa cada vez maior de consumidores iniciantes, ávidos por apreciar os mistérios do elixir de Baco. O Beaujolais é uma bebida leve, de baixo teor alcóolico, de aroma e gosto leves que lembram frutas frescas como banana, morango e framboesa. É uma bebida leve, que deve ser resfriada e servida gelada, e degustada sem grandes compromissos, muito mais para reunir os amigos ao redor de uma mesa para bate-papo, do que em grandes degustações onde o apuro técnico invariavelmente impera. Ou seja, o Beaujolais é um “visto de entrada” para o mundo dos vinhos mais complexos, e conforme o consumidor vai educando e sofisticando o seu paladar – sempre a base de muitas degustações e várias garrafas de vinho -, a tendência é que ele, como um filho ingrato, abandone a superficialidade e a frivolidade dos Beaujolais em direção a vinhos mais complexos e poderosos, como os Bordeaux, os Borgonhas, os Barollos, os vinhos portugueses do Alentejo, e até mesmo os vinhos do Novo Mundo, como os chilenos, os argentinos e os californianos…

As reclamações em torno da bebida começam na própria França, onde o Beaujolais é considerado um “golpe de marketing”, um verdadeiro desserviço para os apreciadores da bebida e para a indústria vinícola francesa como um todo. A culpa na queda da demanda mundial dos vinhos franceses mais poderosos – os Bordeaux e os Borgonhas – é, em parte, causada pelo ataque dos vinhos do Novo Mundo, e em parte causada pelos próprios efeitos da campanha de marketing do Beaujolais, que acabou afetando a imagem mundial dos vinhos franceses. Apesar da polêmica, esse vinho frívolo ainda é um sucesso em seu país de origem, detendo cerca de 53% das vendas em 2006.

Os produtos do Novo Mundo, em especial os californianos e os chilenos, são em parte responsáveis pelo declínio do Beaujolais. Ambos são vinhos feitos com castas poderosas – Cabernets Sauvignons e Merlots, principalmente -, que geram bebidas muito encorpadas, trabalhadas em barris de carvalho novos, proporcionando um gosto bastante amadeirado e rústico ao vinho. Além disso, a relação custo-benefício é muito alta, especialmente no caso dos vinhos chilenos, proporcionando ao consumidor experimentar vinhos mais complexos e poderosos, sem pagar tanto como no caso de uma garrafa de Beaujolais. Em um linguajar mercadológico, os vinhos do Novo Mundo acertaram a mão, ao oferecer uma proposta de valor maior ao consumidor de vinhos, do que no caso dos franceses.

Eu mesmo sou uma testemunha da ascensão e queda do Beaujolais Nouveau no Brasil. Quando começei a degustar vinhos, há cerca de nove anos atrás, eu acompanhava com expectativa a cada ano o lançamento da bebida. Depois disso, quando passei para vinhos mais potentes, perdi completamente o ardor por esse vinho, e inclusive não gasto um centavo por uma garrafa dessa – apesar de que, se um amigo me convidar para degustá-lo, não me recuso a partir para o sacrifício…

Vendido entre 3 e 5 euros na França, a garrafa do Beaujolais Nouveau 2007 chega a R$ 71,90 nas importadoras brasileiras, podendo atingir até R$ 169 em alguns restaurantes de São Paulo. Enquanto isso, um belo vinho chileno ou argentino pode custar até 30% a menos, o que justifica o desencantamento com o Beaujolais por parte dos brasileiros…

Sendo assim, como hoje é domingo e amanhã é dia de “enforcamento”, aproveite o dia ensolarado e brinde aos deuses com uma bela garrafa de vinho branco ou rosé, ou até mesmo um espumante nacional. Afinal, a vida é uma só, e nós merecemos fruí-la de vez em quando…
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