Início > Brasil, Economia, Globalização, Inovação, Política, Relações Internacionais > UM PROJETO ESTRATÉGICO PARA O BRASIL

UM PROJETO ESTRATÉGICO PARA O BRASIL

Muito tem se falado esses dias acerca da descoberta de novos poços de petróleo nas bacias de Santos, Campos e Espírito Santo, localizados em alto-mar, aproximadamente a 7.000 metros abaixo do nível do mar. Somente no campo de Tupi, na Bacia de Santos, a expectativa da Petrobrás é a da extrair por volta de 8 bilhões de barris de petróleo – mais da metade da reserva nacional de petróleo, que é atualmente de 14 bilhões de barris. A notícia é alvíssara em meio a uma crise energética que tem dominado o noticiário nacional nos últimos dias. Bem entendido, essa crise começou desde a mudança no cenário político boliviano a partir da entrada do Presidente Evo Morales – diga-se de passagem, parceiro do Hugo Chávez -, que nacionalizou a extração e o refino de petróleo no país, até então na mão de várias empresas estrangeiras – dentre elas a estatal brasileira Petrobrás.

O acesso a recursos energéticos é de fundamental importância para o desenvolvimento econômico brasileiro, e é natural que Governo Lula faça uma festa daquelas em cima dessa descoberta. Inclusive, a Ministra da Casa Civil Dilma Roussef – responsável pela comunicação deste fato à nação -, em um gesto calculado de marketing político, acabou por se “cacifar” como uma possível presidenciável para as eleições de 2010…

No entanto, uma questão ausente – porém urgente – em toda essa discussão acaba por incomodar, e muito, esse Escriba: qual é o projeto estratégico de inserção do Brasil no circuito da economia mundial globalizada? Quais seriam os nichos competitivos nos quais o nosso país pode buscar uma melhor projeção no cenário mundial? Essa questão é pensada por nossos atores políticos nacionais e tomadores de decisões governamentais, ou seja, os responsáveis pelos destinos da nação? Em suma, qual o nosso projeto de nação? Será que temos algum, já formulado, ou nunca nos colocamos esse tipo de questionamento?

Nas categorias de uso geopolítico, o Brasil é um país que ocupa uma posição periférica na economia mundial. Isto significa que, salvo honrosas exceções, nos encontramos apartados do circuito de produção de bens de alto valor agregado, definidos a partir do uso intensivo das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TICs). O Brasil é ainda um grande importador de tecnologias – leia-se, um grande pagador de royalties – que levam o país a estar sempre duas ou três gerações atrasado frente ao que há de mais up to date em termos de TI.

Dada as nossas riquezas naturais, aliada a nossa grande extensão territorial, nada mais óbvio do que a nossa vocação seja a de ser um país cujo modelo econômico encontra-se apoiado (ainda!) na exportação intensiva de commodities agrícolas – por exemplo, soja, milho, algodão, cana-de-açúcar, bem como a pecuária bovina e suína – e de riquezas mineirais – ferro, manganês, bauxita e, mais recentemente, cobre. Agora, com o aquecimento global causado pela emissão de gás carbônico na atmosfera oriunda de combustíveis fósseis, o Brasil desponta como um país na ponta do processo de produção de matrizes energéticas alterantivas – leia-se biocombustível, dada a expertise adquirida com o desenvolvimento do programa governamental de álcool combustível. O problema é nos deslumbrarmos a tal ponto de retrocedermos no tempo, e promovermos uma volta ao ciclo econômico da cana-de-açúcar, tal como no século XVI…

Por outro lado, a fragilidade tecnológica das empresas brasileiras – leia-se um baixo investimento de capital em P & D – também nos deixa em uma posição no mínimo desconfortável, quando não vulnerável. Basta participar de reuniões de planejamento estratégico em empresas brasileiras, para saber que palavras como “inovação”, “pesquisa & desenvolvimento” e “investimento tecnológico” não fazem parte da agenda de preocupações dos nossos empresários, ao contrário de questões relativas à finanças, logística, marketing e vendas. Daí, o Brasil estar extremamente atrasado em termos de tecnologias emergentes tais como nanotecnologia, semi-condutores, microcomputação, indústria química e farmacêutica…

Ao mesmo tempo, é mais do que “batido” afirmar que existem “ilhas de excelência” em nosso país, onde o investimento pesado em P & D leva ao domínio de tecnologias sensíveis. O Brasil hoje possui empresas que dominam tecnologias sofisticadas de extração de petróleo em águas profundas (Petrobrás), de nanotecnologia e indústria alimentar (Embrapa), na indústria aeronútica (Embraer), fora outras que não me ocorrem agora à cabeça. Além do mais, o movimento de crescente internacionalização das empresas brasileiras é um indicativo claro de que definitivamente o capitalismo veio a se instalar ao sul da linha do Equador. Os casos de empresas como Vale do Rio Doce, Gerdau, Sabó, Friboi e outras são alguns exemplos da dinâmica crescente da inserção brasileira nos fluxos globais de capital.

No entanto, enquanto exercício de reflexão por parte de atores governamentais, do setor privado e da sociedade civil, quais seriam os principais nichos de oportunidade passíveis de uma inserção competitiva por parte do Brasil: Commodities agrícolas? Extração de petróleo e gás? Novas matrizes energéticas, especialmente biocombustível? Produção de aço? Commodities minerais? Ou áreas de maior valor agregado, tais como automação bancária, produção de softwares e de jogos de computador, além de tecnologias de manipulação genética?

Enfim, eis uma bela oportunidade de pensarmos o Brasil, essa Esfinge que nos sorri e que nos propõe enigmas, aos que tentam desvendar os seus segredos…

Volto a dizer: o que me incomoda nessa questão das jazidas de petróleo em alto mar é que, em nenhum momento, há uma discussão aprofundada sobre a inserção estratégica do Brasil no cenário mundial nesse novo milênio. Ou seja, pode até existir uma política de governo, mas falta uma consistente política de estado, tal como há nos Estados Unidos. Seja um governo republicano ou democrata, não importa: o “destino manifesto” dos EUA, desde os tempos de George Washington, é o de ser uma potência hegemônica

E o nosso destino, qual é? Será que existe algum, ou estamos ainda deitados eternamente em berço esplêndido, vendo as nossas palmeiras e ouvindo o canto do sabiá?

A culpa dessa ausência de uma visão estratégica de nação se deve a baixa institucionalização da nossa sociedade, bem como a baixa representatividade de nossos atores políticos?

Meus leitores, ajudem esse Escriba a refletir sobre esse tema…

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: