CANTO GERAL NO GLOBO

A internet é um negócio fantástico, mas às vezes é preciso um pouco de cuidado! A facilidade de acesso à noticias, resenhas de livros, análises de cenário, entrevistas, informes e outras bases de conhecimento contrasta com uma questão central: qual é a qualidade do conteúdo que se apresenta na tela diante de nós, que somos leitores? Gerar conhecimento não passa apenas pela questão do acesso, mas também da fonte na qual se originou a informação – isto é, quem a escreveu…

Sei que é um pleonasmo surrado, mas somos um país atrasado em inúmeras coisas. Para quem – como esse Escriba e outras inúmeras pessoas – gosta de ler resenhas de temas como Política Nacional, Relações Internacionais e assuntos culturais de um modo geral, estamos à anos-luz atrás do que é ofertado aos leitores do Hemisfério Norte. The New York Review of Books, The Times Literary Supplement e o Le Monde Diplomatique são alguns exemplos de publicações especializadas desse tipo, que contam em sua grade de articulistas com os principais escritores e intelectuais da atualidade. Infelizmente, na Terra Brasilis, temos uma carência enorme desse tipo de material, e para quem não domina o inglês e o francês, só resta “garimpar” essas informações nas colunas e cadernos de nossos periódicos de maior qualidade – leia-se O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo, principalmente. Como a oferta é escassa, qualquer coisa escrita é bem-vinda, mas nem sempre isso se traduz em garantia de qualidade…

Abro O Globo de ontem (10/11/07), e me deparo com uma belíssima resenha – publicada no caderno Prosa & Verso – do livro Pobre Nação, do correspondente britânico Robert Fisk, escrita pelo jornalista e especialista em Relações Internacionais Jorge Jreissati. Para quem acompanha o PRAGMA, basta ver que na coluna de prediletos à direita tem um link para o blog CANTO GERAL, escrito pelo próprio Jorge, que há pouco comemorou um ano de atividade na rede. Nem preciso dizer que é leitura diária desse Escriba que vos fala…

Considero Jreissati um dos maiores especialistas sobre Oriente Médio em nossa cidade, especialmente dedicado às intricadas démarches da política libanesa. Escritor arguto, de escrita sofisticada e humor fino, a leitura de seus textos é a garantia de se ter acesso a uma análise das questões levantinas sem o tom exagerado da cobertura da mídia ocidental – a região como um refúgio de fundamentalistas islâmicos prontos a explodir a tudo e a todos. Também não resvala em um discurso esquerdista e naturalizador da “causa árabe”, uma vez que ele discute em seus textos a falta de uma agenda em comum que coordene os esforços dos países da região, bem como a ausência total de coesão de seus atores políticos principais. Longe de ser um bloco coeso, o Oriente Médio é um mosaico fluido de interesses cambiantes, cujas matizes bailam ao sabor – no caso do Líbano – dos ventos do Mar Mediterrâneo. Para ele, o Oriente Médio não pode ser analisado pelo prisma retórico do “preto-no-branco”, posto a região ser composta por uma infinidade de tons de cinza…

A resenha em si analisa o “calhamaço” – mais de 900 páginas – escrito pelo jornalista britânico, que é correspondente no Oriente Médio há mais de 30 anos, e atualmente articulista do periódico The Independent. Por estar baseado em Beirute, Fisk presenciou os acontecimentos mais importantes da história recente do Líbano, e o seu livro é um relato pungente sobre esses momentos dramáticos. O drama libanês deve ser visto à luz não apenas da política regional (o embate dos grupos políticos internos, bem como a interferência de potências locais como a Síria e Israel, bem como a Questão Palestina e a Causa Árabe), mas também dos movimentos da política internacional das Grandes Potências (leia-se Estados Unidos, França e Inglaterra), cujos interesses convergem e acabam por reverberar na política interna do Líbano. O relato de Fisk é uma aula de Relações Internacionais, onde se demonstra a tese de que o jogo politico de um país é produto tanto de seus agentes políticos internos quanto dos interesses regionais dos países vizinhos, além das questões maiores da geopolítica mundial…

A posição de Jreissati – um olhar crítico das retóricas discursivas de legitimação tanto pró-ocidente quanto pró-árabe – é reflexo da história de vida de seu próprio autor, um carioca descendente de libaneses, que morou na Inglaterra durante alguns anos. Seu olhar aguçado sobre as questões da política mundial reflete uma sólida formação intelectual, aliada à busca constante de fontes de informação consistentes e de qualidade – um atestado inconteste de honestidade intelectual, o que para mim é o mais importante. Além de analista internacional, Jreissati também é um belo cronista do cotidiano. Acessando o seu blog, toma-se contato com um conjunto de pequenos textos que retratam as angústias e as idiossincrasias da vida urbana em uma cidade como o Rio de Janeiro – sempre permeadas por uma ironia sutil e fina, indicando um very british mood, indeed…

Canto Geral é sinônimo de informação e de entretenimento sofisticado, internacionalizado e de qualidade, bem distante do que se vê escrito por aí. Parabéns ao Jorge pelo seu belo texto!
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