PAQUISTÃO: UM PAÍS EM PERMANENTE EBULIÇÃO

Analistas de relações internacionais são unânimes em apontar a importância estratégica do Paquistão na “luta contra o terrorismo”, empreendida pelo Presidente norte-americano George W. Bush após os atentados de 9/11. País montanhoso, politicamente instável e imerso em lutas intestinas envolvendo diferentes grupos religiosos e étnicos pelo controle do país, o Paquistão ocupa um papel fundamental no equilíbrio geopolítico na região do Sudeste Asiático – e agora, graças aos EUA, também no Oriente Médio…

Criado em 1947 após o colapso da dominação britânica na Índia, inicialmente o Paquistão foi criado para abrigar os muçulmanos que viviam na região. Além disso, sua posição de proximidade com a Índia serviu para frear os impulsos expansionistas desse gigante do Sudeste Asiático. No entanto, a corrida armamentista entre os dois países – que, diga-se de passagem, vivem às turras – aumentou o grau de instabilidade na região, que atingiu o seu ápice com o desenvolvimento de armas nucleares táticas por parte das forças armadas de ambos os países. Apesar de Índia e Paquistão serem uma “colcha de retalhos” étnica, cujo governo central é controlado por um grupo étnico dominante, é neste último que as atenções do mundo tem se voltado desde o final dos anos 1980.

É sabido que o Paquistão tem servido de “santuário” para os grupos guerrilheiros talibãs e extremistas islâmicos desde a invasão soviética no Afeganistão, ocorrida nos anos 1980. As áreas tribais no norte do país serviram de base para a resistência afegã – financiada, diga-se de passagem, com recursos americanos e sauditas -, e para lá afluiram milhares de muçulmanos egípcios, sauditas, paquistaneses e iemenitas dispostos a passar pelo “martírio” e lutar pelo Jihad. É também sabido, segundo nos informa o belíssimo livro do jornalista americano Laurence Wright (O Vulto das Torres, Editora Record, 2007), que Osama bin-Laden se dirigiu para aquela área, durante a década de 1980, a fim de dar suporte financeiro e logístico aos esforços da resistência afegã contra a dominação soviética.

A origem da Al-Qaeda está intimamente ligada a esta região, e os serviços de inteligência do mundo todo consideram o norte do Paquistão como a base de operações da organização de Osama Bin-Laden. É para lá, nessa região montanhosa repleta de cavernas e túneis construídos na época da guerrilha afegã, que os esforços militares norte-americanos se dirigem para “eliminar” o líder da Al-Qaeda – até agora, sem sucesso…

A “colcha de retalhos” que é o Paquistão pode assim ser entendida, a partir de uma divisão geográfica de seu território:

1. Provínicia da Fronteira Noroeste e as Áreas tribais: estão localizadas na fronteira com o Afeganistão, e sua população é composta pela etnia pashtun – a mesma dominante no Afeganistão -, que abrange cerca de 8% da população do Paquistão. É uma área escarpada, montanhosa e erma que não obedece as ordens do governo central paquistanês. A cidade de Peshawar é o hot spot das ações militares e de inteligência na região, posto ser um local de enorme confluência de militantes extremistas islâmicos e de guerrilheiros talebãs. A coisa se torna mais complexa pois o serviço de inteligência do Exército paquistanês fortaleceu esses grupos ao injetar dinheiro, armas e suprimentos para conter a invasão soviética no Afeganistão e incentivar os grupos separatistas islâmicos na região da Caxemira – em litígio com a Índia. Tudo o que os grupos pashtuns da região querem é não sofrer a intervenção do governo de Islamabad, daí os combates ferozes nesta região entre essas milícias e as forças do governo paquistanês.

2. Baluqistão: também no norte do país, localizado na fronteira entre o Irã e o Afeganistão, essa região abrange a etnia baluque – cerca de 3% da população total do país -, além de grupos pashtuns, cuja organização social é baseada em clãs. Rica em gás natural, de baixa densidade demográfica, sofrendo da crônica falta de água e de investimentos em infra-estrutura governamental, o Baluqistão também é uma província rebelde que abriga o comando da milícia talebã – na cidade de Quetta -, além de ser a base para o comércio de heroína entre o Afeganistão e o Paquistão. Os baluques reinvidicam do governo paquistanês maiores investimentos em infra-estrutura, além de um aumento dos royalties proveninetes da extração do gás natural em sua região.

3. Província de Sind: localizada no sul do país, banhada pelo Mar Arábico, onde se localiza Karachi – a maior cidade e o principal porto do país -, a província majoritariamente rural é a base de apoio político da ex-Primeira Ministra Benazir Bhutto, que recentemente retornou ao país após alguns anos de exílio causado por acusações de corrupção durante o seu governo. Os sindis abrangem 12% da população total do país, e nos últimos anos vem se organizando sob forma de um movimento de libertação nacional. Os conflitos na região são intensos entre as forças locais controladas por Benazir Bhutto e as forças do governo – representadas pelo Movimento Nacional Mohajir, aliado do Presidente Pervez Musharraf. Os sindis estão em conflito permanente com a etnia punjabi – a dominante em território paquistanês -, e anseiam por uma maior participação política nos destinos do país, além de reinvindicarem maiores investimentos governamentais em infra-estrutura, energia e educação.

4. Punjab: é o centro do poder e a faceta pública do Paquistão perante a opinião pública mundial. A região abrange a maior parte da população do país, dividida entre a etnia majoritária punjabi (48%) e a siraiki (10%). Além de abrigar a capital Islamabad, também lá se localiza a cidade de Lahore, o centro cultural do Paquistão. O aparato federal e militar do país é dominando pelos punjabis, o que é motivo de muita discórdia e ressentimento por parte dos outros grupos étnicos, que se sentem sub-representados na administração central. Especificamente, Lahore é uma cidade emergente, que abriga uma imprensa independente e uma elite culta e bastante próspera. A classe média afluente, que se expandiu durante o governo de Musharraf, contrasta com o sul agrário e pobre da província, cuja principal atividade econômica é o cultivo de algodão. Os punjabis têm uma rivalidade muito grande com a vizinha Índia, e a reinvindicação histórica da região montanhosa da Caxemira – um grande reservatório de recursos hídricos – aumenta a instabilidade no Sudeste Asiático.

A tensão política no Paquistão aumentou muito nos últimos dias com o atentado terrorista contra o comboio que levava a ex-Primeira Ministra Benazir Bhutto, ocorrido no último dia 18 de outubro, quando esta retornava ao país após anos de exílio. O governo indiano manifestou um apoio discreto a Bhutto, quando o chanceler Pranab Mukherjee emitiu uma nota de três linhas condenando o atentado e lamentando a perda de vidas durante o ataque. Apesar da relativa calma na relação entre os dois países, isso não deixa de ser um ingrediente a mais no intrincado tabuleiro geopolítico da região…

É nesse caldeirão de interesses divergentes e rivalidades étnicas que o Presidente do Paquistão Pervez Musharraf decretou, ontem, o estado de sítio no país. Este ato ensejou a dissolução da Suprema Corte do Paquistão – e afastamento de seu presidente Iftikhar Mohammed Chaudry, principal opositor de Musharraf – e a suspensão das liberdades individuais – o que suscitou a censura aos meios de comunicação e a prisão de vários líderes oposicionistas.

Só nos resta a esperar o que será do Paquistão daqui em diante, um país tão importante ao qual diferentes interesses regionais e mundiais convergiram nos últimos anos…
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