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ACRASSICAUDA: A ÚNICA BANDA IRAQUIANA DE HEAVY METAL

Há uma certa concordância de que a vida de músico não é nada fácil. O glamour das turnês e a paixão dos fãs esconde uma vida cansativa, extenuante, e na maioria das vezes desregrada. A coisa piora ainda mais quando este está no início da sua carreira, e ainda por cima se propõe a fazer um tipo de música bastante segmentada, radical e barulhenta – no caso, o heavy metal (diga-se de passagem, a música predileta desse Escriba). Agora, imaginem se esses músicos integram uma banda composta por quatro jovens iraquianos, e que no meio dos escombros e da insegurança de Bagdá, tentam manter a chama da música pesada viva! Eis a história do Acrassicauda, a primeira banda de heavy metal iraquiana…

Alguém, em um arroubo de humor negro, pode pensar: “Cara, não existe melhor lugar do mundo para se fazer heavy metal como em Bagdá!”… Afinal, o heavy metal – estilo musical por excelência do público jovem – alia guitarras rapidíssimas e baixo-e-bateria pesadas com letras que falam da morte, da destruição, do ódio, da frustração, do rancor e do anticristo. Nada mais natural, portanto, que a capital iraquiana seja a Meca da música pesada nos dias atuais, pois todas essas “qualidades” para lá convergem. O que habita as fantasias das mentes dos jovens americanos, ingleses e alemães, os iraquianos vêem todos os dias na porta de suas casas: em cada bomba detonada em carros e mercados públicos, nos corpos muitilados e calcinados nas ruas, nos checkpoints das diferentes milícias, nas notícias de sequestros e assassinatos de amigos e parentes que se espalham como um raio… Mas, podem acreditar, além disso tudo, a vida dos caras não anda nada fácil (como se em algum dia da vida deles esta esteve boa)…

O Acrassicauda – palavra do latim que significa Escorpião Negro – é composto por quatro jovens e diletantes iraquianos de um pouco mais de 20 anos: Marwan Reyad (bateria), Firas al-Lateef (baixo), Tony Aziz (guitarra solo) e Faisal Talal (vocais e guitarra base) – que envelheceram, certamente, mais 20 durante os últimos acontecimentos em seu país natal. Juntos desde 2001, os caras retiraram sua inspiração dos momentos difíceis do país durante as suas infâncias – Guerra Irã-Iraque nos anos 1980, primeira Guerra do Golfo em 1990 – onde, a parte das agruras desse contexto, andavam serelepes pelas ruas da capital iraquiana em busca de discos piratas de ícones mundiais do trash metal como Metallica, Slayer e Slipknot.

Durante o regime de Saddam Hussein, a banda só obteve permissão para continuar tocando se compusesse músicas em homenagem ao ditador executado. Daí, veio a inspiração para a música Youth of Iraq (Following our leader Saddam Hussein/We”ll make them fall/We’ll drive then insane…) -, que os próprios músicos afirmam hoje ter sido um produto de adolescentes encantados com o nacionalismo baathista. Depois, com a segunda Guerra do Golfo e a queda de Saddam, os integrantes da banda começaram a sofrer uma série de ameaças de morte por parte de grupos religiosos extremistas, que os consideravam “entreguistas”, “satanistas” e excessivamente “americanizados”.

Dessa maneira, ameçados e sem locais para se apresentar, só restou aos caras fugir do país… Inicialmente, de posse de passaportes sunitas e xiitas, dirigiram-se para Damasco, capital da Síria. Lá, a “barra pesou”, e foram então para o sul da Turquia, ao norte do Iraque, na região do chamado Curdistão – atual local de tensões, onde o exército turco ameaça invadir o território iraquiano para liquidar com as milícias curdas que fustigam o seu território. Ou seja, a sorte persegue os caras: não é nada legal ser iraquiano naquela região…

Resultado: sem eira nem beira, sem instrumentos – foram deixados em Bagdá durante a fuga da cidade – e sem apresentações em tela, os músicos estão tendo a amarga sensação de exilados em um mundo hostil. Isto acaba por refletir nas composições do Acrassicauda – a música Message from Baghdad é um reflexo desse estado de angústia da banda (“As I grew bounded to my fate/Rewinded wounded memomries that I gained/So weak, I can hardly breathe/Sick of their lies, tired of deceit/Is it the god’s will or just a lie?/People lives, and other die”…).

Desde então, a banda lançou três demos: Between the Ashes, Underworld e Massacre, que incorporam os sons do dia-a-dia atual de Bagdá como tiros de fuzis, barulhos de bomba e de “cantadas” de pneus de carros. Atualmente na Turquia – conseguiram se mudar para Istambul, a capital do país -, os caras sobrevivem de doações de fãs e da comunidade metálica internacional, e esperam ansiosamente a decolagem da suas carreiras musicais – leia-se, radicar-se na Europa e gravar um CD…

No entanto, a saga insólita dos quatro headbangers iraquianos virou documentário. Heavy Metal in Baghdad foi oficialmente lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto em setembro desse ano. O filme é dirigido pelos canadenses Eddy Moretti e Suroosh Alvi, com a produção executiva do jovem e criativo diretor norte-americano Spike Jonze – diretor de clips musicais de artistas como Beastie Boys, Weezer e Bjork, além de filmes muito loucos como Adaptação e Quero Ser John Malkovich. O documentário conta a trajetória do Acrassicauda desde a queda de Saddam Hussein, em 2003, até o seu exílio nos dias de hoje.

Para quem quiser conferir a história dos caras, vejam a reportagem que saiu no The Independent (http://news.independent.co.uk/world/middle_east/article3121188.ece) bem como o site oficial do documentário (http://www.hevaymetalinbaghdad.com).

Como seu vê: Heavy metal rules, up from the ashes!
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