A "MILITARIZAÇÃO" DA ANTROPOLOGIA

Parece que a aventura militar norte-americana no Afeganistão e no Iraque, que inclui a possibilidade da abertura de uma terceira frente no Irã dos aiatolás, está pondo à baixo uma série de aforismos que até então guiavam a estratégia americana nessas regiões. A principal delas – baseada em uma visão otimista e prometaica da tecnologia -, é que o poderio militar maçico é a “mãe de todas as batalhas” (desculpem os meus indulgentes leitores, mas esse Escriba não resistiu ao trocadilho infame)…

Em qualquer curso introdutório de Ciência Política, em especial de Relações Internacionais, se faz uma distinção entre o hard power e o soft power. O hard power é definido como sendo o poder coercivo exercido sob forma da força militar e das sanções econômicas. É a famosa “diplomacia das canhoneiras”, onde os objetivos políticos são alcançados a partir de um exercício militar de força bruta. Já o soft power implica na alteração da força do adversário via o convencimento e a argumentação racional. É a diplomacia convencional tal como nós entendemos, exercida nos gabinetes, nos fóruns internacionais, e também nos seminários, nos convescotes, nas festas e eventos sociais. Trata-se da alteração da vontade do oponente não pela via da coerção e da punição, mas sim por intermédio da troca de idéias, do conhecimento das crenças e valores que justificam as ações, das produções culturais e do intercâmbio entre os povos. Numa, a vontade de um país é exercida pelo seu poderio militar; noutra, o mesmo se dá via construção de uma agenda em comum, pelo discreto charme – não apenas o da burguesia – mas das idéias e pontos de vista…

Claro está que a Pax Americana, especialmente no governo republicano e neorealista dos Falcões, está apoiada em quantidades maciças de hard power, via equipamentos militares inteligentes, ataques “cirúrgicos”, armamentos de última geração e planejamentos estratégicos de dar inveja à qualquer grande corporação. No entanto, além do fracasso evidente desses esforços, a arrogância norte-americana não permite perceber que uma guerra se conquista não apenas pelo fervor patriótico e pela movimentação de tropas, mas também pela construção de uma agenda de valores que fomente o diálogo e a cooperação entre os diferentes povos. Dito de uma outra maneira, uma guerra não se conquista apenas no campo de batalha, mas também na esfera dos “corações e mentes” dos oponentes. Parodiando Nélson Rodrigues, é “óbvio e ululante” que essa Guerra ao Terror levaria a esse impasse atual. A história está aí para nos servir de testemunha: os ingleses na África do Sul e na Índia, os franceses na Indochina, os americanos no Vietnã, os americanos, franceses e italianos no Líbano, os russos no Afeganistão, a dissolução da União Soviética…
Dado esses fracassos, parece que aos poucos a abordagem norte-americana frente a esses conflitos vai se modificando, mesmo que lentamente. Certa vez o General Dwight Eisenhower – Comandante-em-Chefe das tropas aliadas durante a invasão da Normandia, e depois Presidente dos EUA – afirmou que “a guerra é um assunto deveras importante para ficar apenas na mão dos generais”. Parece que o Pentágono está se adequando a essa máxima, ao anunciar na semana passada o recrutamento de Antropólogos para os seus quadros, segundo matéria publicada no site da BBC News (http://news.bbc.co.uk/2/hi/americas/7042090.stm)
Antropólogos são treinados para compreender a cultura de outros povos e grupamentos sociais, além de serem especialistas em lidar com questões relativas à alteridade. Os militares americanos apontam a urgência dessa necessidade ao criarem um novo programa intitulado Human Terrain System (HTS), que tem o objetivo de estudar as organizações sociais no Iraque e no Afeganistão. Em tela, a preocupação de entender a mentalidade desses povos, suas crenças, valores, expectativas, anseios e formas de estruturação social. É o hard power se rendendo ao poderio do soft power
O HTS é composto, atualmente, por seis equipes inseridas em divisões e brigadas militares americanas nesses países, com a presença de pelo menos um cientista social – geralmente um antropólogo -, um linguista, um militar da reserva ou um oficial de inteligência, além de pessoal de logística e suprimentos. São verdadeira unidades de inteligência e de contra-insurgência. O intuito é gerar informações sobre hábitos e costumes desses povos a fim de auxiliar o pessoal militar na tomada de decisões táticas no campo de batalha. O Pentágono paga uma parte dos custos desse programa, que é repartido com a empresa de sistemas de inteligência militar BAe Systems – que, inclusive, é responsável pelo recrutamento e contratação dos antropólogos.
A proposta, como não poderia deixar de ser, gerou uma grande controvérsia no seio da comunidade de Ciências Sociais nos EUA. Não apenas a American Antropological Association (AAA) lançou um manifesto contrário à Guerra do Iraque, como considerou inaceitável e anti-ético o uso de antropólogos para tarefas militares e de inteligência. Muitos acusam o governo norte-americano de “militarizar” a Antropologia, ao utilizar esses profissionais como membros de wise teams de contra-insurgência. Por outro lado, muitos antropólogos que trabalham no referido programa afirmam que a iniciativa é benéfica por justamente permitir uma “antropologização” das Forças Armadas…
As expectativas do governo com o sucesso do programa são bastante elevadas, e o Pentágono pretende aumentar o número de times em operação no Iraque e no Afeganistão de 6 para 28 equipes. Outros comandos militares norte-americanos, localizados no Pacífico e na África, também se interessaram em ter esses wise teams multi-disciplinares trabalhando em suas áreas de atuação.
Como se vê, nem sempre a força é a melhor conselheira em momentos de crise…
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