SOBRE A LIBERDADE E A ESCOLHA

Esse Escriba começou a ler um livro que parece promissor: O Paradoxo da Escolha – Por que menos é mais (Editora A Girafa, 2007), do cientista social Barry Schwartz. O objetivo geral do texto é o de abordar a questão da tomada de decisão em situações onde as pessoas se encontram diante de um vasto leque de opções ou alternativas.

O julgamento mais comum diante dessas situações – o que nós psicólogos denominamos de racicínio intuitivo – é o de que mais é mais sempre , isto é, a presença de um leque maior de alternativas de decisão favorece as pessoas em situações de decisão. Certo? Não é o que pensa o autor do livro…

Como estou no início da leitura, ainda não posso aprofundar no PRAGMA os argumentos apresentados pelo autor. Mas, pela introdução, já dá para perceber que este é um belo livro…

Dois grandes autores, cujos argumentos eu compartilho de maneira muito estreita, são citados na introdução: o filósofo político britânico Isaiah Berlin e o economista, filósofo e Prêmio Nobel de Economia, o indiano Amartya Sen.

Da obra de Isaiah Berlin, o autor retira os conceitos de liberdade negativa e liberdade positiva. A liberdade negativa – também conhecida como “liberdade de” – diz respeito ao fato do homem não sofrer restrições que o impeçam de empreender suas condutas e suas ações, assim como não receber nenhum tipo de ordem coercitiva de outras pessoas. Entende-se que essa noção circunscreve o que nós, os ocidentais, entendemos como sendo o mais básico e o mais fundamental direito à liberdade – pedra de toque dos direitos fundamentais do ser humano -, presente nos ideais da Revolução Francesa.

Por outro lado, a noção de liberdade positiva – entendida como “liberdade para” – implica na possibilidade do homem dispor de oportunidades para criar a sua vida e traçar o seu próprio destino, dando-lhe um significado intrínseco a sua própria experiência. Este tipo de liberdade está diretamente ligado ao conceito, desenvolvido pelos fenomenologistas, de intencionalidade da consciência. Esta propriedade dos nossos estados mentais, segundo Husserl e Brentano, nos coloca a possibilidade de escolher livremente diante da variedade de opções que a vida nos oferece. Enquanto a liberdade negativa está ligada ao conceito básico de liberdade, a noção de liberdade positiva encontra-se atrelada ao conceito de escolha.

O problema é que, com uma certa frequência, há uma certa confusão entre essas noções e tais conceitos acabam sendo vistos como sinônimos – o que não necessariamente isso seja verdade. De um modo mais amplo, a liberdade negativa é anterior a todas as outras formas de liberdade. Ela é que dá suporte e sustentação para o exercício da liberdade positiva, tornando-se a condição sine qua non para que toda e qualquer escolha de natureza intencional por parte dos indivíduos possa acontecer. A liberdade negativa é a moldura que define os contornos da tela, onde irão se dispor e se combinar as diferentes paletas que constituem o universo da ação coletiva e da escolha individual – esta última no âmbito subjetivo e privado.

No entanto, nem sempre um aumento na liberdade positiva – ou seja, uma ampliação do leque de opções de escolha – repercurte de maneira significativa no quantum de liberdade negativa. E ai é que reside o chamado Paradoxo da Escolha, que dá nome ao livro de Schwartz. Dessa maneira, pode-se concluir que toda liberdade negativa incrementa a liberdade positiva, mas o inverso não ocorre da mesma maneira…

Essa correlação paradoxal é discutida com propriedade por Amartya Sen em seu livro Desenvolvimento como Liberdade, onde questiona se a liberdade de escolha traz mais felicidade ou sabedoria para os seres humanos. Problematizar essa relação é sempre complicado, haja visto que a noção de liberdade constitui um dos vértices do triângulo do pensamento ocidental – as outras duas noções são as de racionalidade e de indivíduo. Nós estamos acostumados a pensar que o incremento da liberdade permite a expressão plena do potencial da racionalidade de um determinado indivíduo. Justamente por ser um homem de múltiplas identidades – ocidental/oriental, inglês/indiano, global/local -, é que Sen identifica o Paradoxo da Escolha, estabelecendo um claro vínculo entre a ampliação do universo possível de escolhas e a restrição ao exercício da liberdade da ação individual.

Sen afirma que o estilo de vida ocidental tem uma relação fetichista com a liberdade de escolha – tão propalada pela sociedade de consumo global como o ícone da liberdade e da existência plena -, que esta acaba por escamotear o drama embutido no incremento considerável das opções de escolha, bem como suas implicações tanto no âmbito do processo decisório quanto para a esfera da subjetividade. Uma série de perguntas incômodas, dessa forma, se impõem: a liberdade de escolha favorece ou restringe a nossa mobilidade no tecido social? Ela aumenta ou diminui a nossa auto-estima e o nosso respeito próprio? Ela incrementa ou prejudica a inserção do sujeito na vida em comunidade? Ela aumenta a nossa sabedoria em lidar com a diversidade e a multiplicidade? Ou ela diminui a nossa tolerância e, tal como o abrir da Caixa da Pandora, acaba por libertar males como a intolerância, a ignorância, o desprezo e a estreiteza de caráter?

O essencial na argumentação que Schwartz apresenta é que nem toda escolha aumenta a liberdade. Isso é especialmente visível nas decisões de compra, onde a miríade de opções, modelos, variações, designs, cores, tamanhos e formatos de produtos aumenta a incerteza decisória e, por extensão, o risco e a tendência ao erro. O dispêndio de tempo e energia ao apreciar o sem-número de opções disponíveis no horizonte decisório, desvia os nossos esforços de outras atividades – individuais e coletivas -, que porventura possam efetivamente aumentar o nível de liberdade.

Esse é um dos paradoxos mais dramáticos e desafortunados da existência humana, que assume proporções monumentais na contemporaneidade dado o signo do excessoA marca da Sociedade de Consumo. O Paradoxo da Escolha é um mecanismo perverso de aprisionamento sutil, criado em grande parte por nós mesmos, a partir do que chamo de “inflação” (super-dimensionamento) da esfera do indivíduo – entendido como princípio, o meio e o fim da ação individual e coletiva – no pensamento ocidental. Para quem é psicólogo e se dedica a estudar o fenômeno do consumo como esse Escriba, os impactos de tal paradoxo na esfera subjetiva são avassaladores e inclementes. Na raiz do adoecer psíquico contemporâneo, jaz o excesso de opções disponíveis, a “inflação” do universo das escolhas, compondo essa armadilha panóptica que, em grande parte, foi engendrada por nossos princípios e ações. Daí, o sem-número de patologias que lotam os consultórios dos psiquiatras, os divãs dos psicanalistas e os sofás dos psicoterapeutas. Curiosamente, há escolhas para todos os gostos e estruturas subjetivas: depressões, síndromes bipolares, transtornos de ansiedade generalizada, transtornos obsessivos-compulsivos, histerias de angústia… Haja Freud, Lacan, psicofármacos, CID-10, DSM-IV e hospitais-dia para dar conta de todos esses quadros…

A ideía de paradoxo remonta às origens do pensamento ocidental, uma vez que os filósofos gregos – tanto os dogmáticos quanto os sofistas – foram os grandes mestres na criação destas sofisticadas figuras de retórica. Ao engendrarem o paradoxo com a finalidade de ilustrar o caráter antinômico da natureza e do universo, acabaram por extensão dando expressão a nossa própria existência. Outros, como Lewis Carroll, escrevem romances como Alice no País das Maravilhas, para chamar a nossa atenção para o non-sense do mundo, ao nos convidar a entrar na toca do coelho junto com a garotinha curiosa. Michel Foucault, com a poderosíssima metáfora do Panóptico presente na obra Vigiar e Punir, também nos mostra até que ponto estamos submetidos a um regime de poder que não exerce uma pressão bruta, violenta e coercitiva nos corpos, mas sim que age suave e sutilmente em nossos corações e mentes, conquistando as nossas esperanças, nossos anseios e nossas expectativas pela via do convencimento a partir da argumentação lógica e racional. Poder esse que age sem ser visto, posto seu foco de origem ser extremamente difuso e multifacetado…

Cada vez mais penso em Albert Camus e o Mito de Sísifo, utilizado como metáfora da existência humana. Penso também nas humilhações e no desespero dos labirintos – os de ferro intransponíveis, e os de areia móvel – presentes no conto de Jorge Luís Borges, Os Dois Reis e Seus Dois Labirintos…

Estamos fadados a correr para não chegar? A empurrar trabalhosamente a enorme pedra para o alto da montanha, para depois ela descer graciosamente, como que zombando do nosso pesado fardo? Estamos todos fadados ao fracasso, independentemente do quão tenhamos consciência ou não disso? Será que, como dizia Freud, nós somos os nossos maiores algozes?

“Vaidade de vaidades, diz o pregador, vaidade de vaidades. Tudo é vaidade!
Que proveito tem o homem, de todo o seu trabalho, que faz debaixo do sol?
Porque na muita sabedoria há enfado; e o que aumenta em conhecimento aumenta em dor”
(Eclesiastes, 1: 2-3-18).
Anúncios
  1. Débora
    agosto 13, 2009 às 12:27 am

    Gostei da dica!

    Lerei assim q possível!

    Abraços.

    PS: Parabéns pelo blog! E muito fôlego para escrever mais outros tantos 700 posts!

  2. José Mauro Nunes
    agosto 13, 2009 às 2:02 am

    Obrigado Débora, pela visita, pelos comentários, pelo incentivo…

    Abraços

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: