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DICA DE CD – BEBEL GILBERTO: Momento

Todos os meus leitores devem estar ser perguntando: “Ué, o Escriba enlouqueceu?”. Sendo este que vos escreve um roqueiro convicto, realmente é de se estranhar a inclusão de um CD de MPB – em especial, de bossa nova – na lista de indicações do PRAGMA. Mas em realidade, apesar de ser a princípio um disco de música brasileira, e a artista ser filha da cantora brasileira Miúcha e do ícone-mor da bossa-nova – o baiano e estranho João Gilberto -, acabei ouvindo por curiosidade o novo trabalho de Bebel Gilberto intitulado Momento(2007), e gostei… E muito!!! Sabem por quê?

Bebel Gilberto faz parte dessa nova geração de artistas que, antenados com os beats, os samples e os loops da música eletrônica, promove uma fusão entre a música popular brasileira – e a bossa-nova – e as batidas do trance, do drum ‘n bass e do trip-hop, criando composições muito intimistas, com uma ambientação eletrônica que dá um toque de sofisticação e contemporaneidade ímpares. Atualmente, são de várias nacionalidades os artistas que têm promovido esse diálogo entre as músicas acústica e eletrônica: portugueses (Madredeus), argentinos (Gothan Project), uruguaios (Bajofondo) e, como não poderia deixar de ser, brasileiros – outra artista que também trabalha na mesma linha é a cantora Katia B.

Esse é o terceiro disco da cantora brasileira, radicada em Nova York desde 1991. Bebel trabalhou com artistas de vanguarda da música norte-americana como David Byrne (do Talking Heads) e Arto Lindsay, e seu novo trabalho apresenta uma releitura vigorosa e bastante interessante da bossa-nova e da MPB com os ritmos eletrônicos que dominam o cenário atual da música pop contemporânea. O resultado é um disco muito sofisticado, elegante, com mixagens que ressaltam a atualidade da proposta sem perder o balanço e o swing da nossa música.

A ponte aérea Rio de Janeiro – Manhattan está mais do que nunca evidente na participação de artistas como The Brazilian Girls e a Orquestra Imperial, assim como nas letras das músicas que alternam o português e o inglês – línguas que, diga-se de passagem, Bebel se expressa fluentemente. Além do mais, sua voz sussurrante, cool e suave lembra em muito as maravilhosas vocalistas dos grupos britânicos de trip-hop, como Beth Gibbons (do Portishead) e Skye Edwards (ex-Morcheeba).

O disco todo é muito bom, e fica muito difícil escolher as músicas que mais se destacam. Seguem algumas delas: Momento (uma ensolarada abertura!), Bring Back The Love, Close To You (incrivelmente cool!), Os Novos Yorkinos (com uma percussão tipicamente brasileira), Azul, Caçada (baião composto em 1972 pelo tio de Bebel, Chico Buarque), Night and Day (a piece de résistence do cancioneiro americano Cole Porter), Tranquilo (uma salsa muito legal!)… Enfim, tudo é muito de bom-gosto…

Para quem gosta de música brasileira com um toque de sofisticação e contemporaneidade, o CD é uma pedida e tanto! Afinal, não foi o pai de Bebel que internacionalizou a bossa-nova ao lançar uma série de discos com o saxofonista norte-americano Stan Getz, um dos expoentes do cool jazz, nos anos 1960? Agora, dando continuidade ao caminho aberto pelo pai, a filha magistralmente busca fundir o ritmo com as batidas eletrônicas.

Música da cabeça e do coração, estimulante intelectualmente, que nos acaricia afetivamente, doce em sua delicada regionalidade internacional. Esse Escriba aplaude de pé!
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