Início > Educação, Ensino Superior, Política, Professor > PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR ( II ): AS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS

PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR ( II ): AS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS

Continuando a série em homenagem ao Dia do Professor – que, diga-se de passagem, se comemora hoje -, falarei um pouco agora do que venho presenciando da educação superior no âmbito das instituições públicas. Falo disso a partir de duas grandes experiências em minha vida: uma como aluno, e outra como professor nessas instituições…

Como aluno, estudei no final da década de 1980 na UFRJ, em um dos campus mais charmosos do Brasil, o da Praia Vermelha – que, aliás, o atual Reitor de lá quer transferí-lo para a iniciativa privada, e levar todos os cursos para a fétida Ilha do Fundão. Foram, sem sombra de dúvida, os melhores anos da minha vida, olhando em retrospecto – naquela época não tinha consciência sobre o tempo nem noção do que a vida me reservava no futuro.

As mazelas que assolam a universidade pública brasileira hoje estavam lá, em menor escala é claro, mas estavam surgindo: a falta de professores, os laboratórios mal equipados, as bibliotecas desatualizadas, as salas de aula e a infra-estrutura predial caindo aos pedaços… Mas, mesmo assim, os tempos eram outros, e nada no mundo irá apagar da minha memória recordações como as de sentar no jardim em frente ao Instituto de Psicologia, junto com os meus colegas, a discutir as intermináveis querelas entre a Psicologia e a Psicanálise; debater filósofos tão complexos como Foucault, Hegel, Heidegger e Aristóteles, na companhia dos amigos e do cafezinho do seu Astérios; fazer parte de vários grupos de estudo sobre temas diversos – Filosofia, Epistemologia, Psicanálise, Lingüística, Ciências Sociais – com colegas de vários períodos… Enfim, foram anos importantíssimos em minha formação profissional, que me levaram a desenvolver fortes laços com o estudo, a pesquisa e o trabalho acadêmico. Vivenciei de maneira plena um verdadeiro ambiente acadêmico. O resultado, é claro, não poderia ser diferente: alguns anos depois, virei professor…

Agora, há cerca de um ano ingressei na UERJ via concurso público, mais especificamente na Faculdade de Educação, e aos poucos vou tomando contato com os pontos positivos e negativos da universidade pública. O grande diferencial entre a educação superior pública e a privada é, sem sombra de dúvida, a valorização do professor – apesar dos baixos salários. No entanto, nem tudo que reluz é ouro…

A estabilidade do servidor público influencia o tipo de relação existente dentro do corpo docente. Estas são bastante limitadas pelo fato de que todos estão muito ocupados em suas pesquisas, orientações e publicações de artigos, isto é, estão preocupados com os seus interesses particulares. Como o critério de produtividade é de natureza acadêmica – quantitativo, na grande maioria das vezes -, é muito difícil a constituição de laços mais estreitos entre os professores de uma determinada unidade acadêmica.

O resultado acaba sendo que cada um “fica na sua”, e muitas das vezes não se sabe o que o colega ao lado está pesquisando ou escrevendo. Os diretores e chefes de departamento, por seu turno, ficam impotentes diante dessa situação uma vez que tal aproximação depende muito mais da atitude voluntária de cada docente, mais do que propriamente uma pressão dos órgãos colegiados. Em suma, criam-se verdadeiros blocos do “eu sozinho”, verdadeiras unidades subatômicas, sob forma das infames sinecuras – mais conhecidas como “panelas” -, invariavelmente estabelecidas nos programas de pós-graduação de cada instituição.
Os órgãos colegiados são verdadeiras “brigas de foice”, onde as lutas se dão pela afirmação dos interesses de grupos de pressão, muito mais preocupados com questões pontuais do que propriamente com uma discussão mais global a respeito dos rumos da própria universidade. Contrariando o axioma gestaltista, é o verdadeiro triunfo das partes sobre o todo. Daí, como diria Jurandir Freire Costa, os Conselhos Departamentais das Unidades Acadêmicas serem o palco preferencial do exercício mais vil e mesquinho do “narcisismo das pequenas diferenças” – uma verdadeira “fogueira das vaidades”…
Se no âmbito do ensino privado há a presença do aluno-cliente, na universidade pública ocorre a ocorrência de um outro tipo de aluno: o estudante-profissional ou estudante-aparelhado. Explico melhor: trata-se do estudante que é “custeado” por um determinado partido político, invariavelmente menos interessado em estudar e se aprimorar, e mais interessado em difundir a doutrina partidária e “aparelhar” os órgãos estudantis – centros acadêmicos e DCE’s. Normalmente, é um “chato” em sala de aula que patrulha professores e estudantes com um discurso esquerdóide, dito politicamente correto, e que acaba promovendo uma torção das questões debatidas em sala de aula a fim de defender o seu grande financiador – o partido político que paga as suas contas. Em suma: assim como os docentes, estes estão muito mais interessados em seus interesses pessoais do que os interesses coletivos – apesar de afirmarem o contrário.
Não raro ocorre um conluio de interesses de ambas as partes – alunos e docentes -, especialmente durante os períodos eleitorais. Aí, entra em ação a máquina da difamação, da intimidação, da venda de favores, das negociatas e de outros males que assolam o nosso país. Isto é, no mínimo, um fenômeno bastante peculiar para olhares mais aguçados…
Enquanto isso, a grande massa de alunos sofre entre o descaso dos professores e o aparelhamento insidioso dos alunos profissionais. São eles que, ao fim e o cabo, são o sustentáculo da universidade pública, posto que adentram todos os dias nas salas de aula cheios de esperança, vontade e disposição. Um professor não pode – aliás, não deve! – de maneira alguma decepcioná-los…
Mesmo assim, sou apaixonado pelo que faço, e só sei fazer isto em minha vida. Apesar dos percalços, não há nada melhor do que lecionar para um conjunto de alunos de espírito aberto, questionadores e engajados em sua formação acadêmica e profissional. É neles em que penso todos os dias antes de iniciar o meu trabalho.
Conheço muitos colegas que, como eu, gostam do que fazem, apesar dos pesares. É a eles que eu dirijo o meu abraço carinhoso nesse dia tão feliz, que é o nosso dia!
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: