Início > Brasil, Educação, Ensino Superior, Professor > PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR ( I ): AS INSTITUIÇÕES PRIVADAS

PERSPECTIVAS PARA A EDUCAÇÃO SUPERIOR ( I ): AS INSTITUIÇÕES PRIVADAS

Amanhã, dia 15 de outubro, se comemora o Dia do Professor. Todo o ano é a mesma coisa: muitos encartes especiais lançados nos jornais, mesas-redondas nas TVs, debates no rádio e especiais durante o dia todo irão dominar a programação festiva. Todos eles, em meu entendimento, inócuos…

Leciono em ensino superior há quase 15 anos, entre cursos de graduação e de pós-graduação em todo o Brasil. Nesse razoável espaço de tempo, pude observar transformações muito claras e rápidas no alunato, nas instituições de ensino, nos gestores educacionais, graças em grande parte a uma transformação no próprio conceito de educação, o que obviamente repercutiu dramaticamente no próprio ofício de professor.

Em homenagem aos professores, inicio uma série de posts no PRAGMA onde procurarei levantar algumas questões que penso serem urgentes na educação superior – minha área de atuação profissional -, tanto em instituições de ensino privadas quanto públicas.

A relação da nossa sociedade com o estudo mudou bastante, com o declínio da finada classe média a partir dos anos 1990 – que coincidiu com a ascensão dos segmentos mais populares em nosso país. A educação formal como meio preferencial de ascensão social é um dos valores definidores da chamada classe média, posto que esta preparava seus integrantes para ocupar tanto cargos de nível gerencial (gerentes, supervisores, superintendentes), seja no âmbito do serviço público ou em empresas privadas, quanto na formação de profissionais liberais (engenheiros, médicos, advogados, professores, psicólogos) – nichos ocupacionais tradicionais da classe média.

O fim da classe média apontou também para o fim do monopólio da escolarização formal como veículo princeps de ascensão social. Não apenas nos últimos anos assistimos várias pessoas enriquecerem e obterem destaque social sem um investimento educacional sustentado, bem como a grande maioria dos cursos de graduação em nosso país se encontram cada vez mais distanciados das necessidades do mercado de trabalho. Novos nichos profissionais surgem fora das chamadas graduações “tradicionais” – profissões como, por exemplo, webdesigner, programador de jogos, fashionistas, gestores de segurança, gastronomistas, enólogos. A formação desses profissionais é feita em cursos rápidos – denominados de graduações “tecnológicas” ou “politécnicas” -, pensadas a partir do modelo americano dos community colleges. Tratam-se de cursos de curta duração (no máximo 2 anos), baratos, com horários flexíveis e currículos interdisciplinares. As instituições particulares de ensino superior que investiram pesado neste filão estão enchendo as “burras” de dinheiro…

Dessa maneira, os alunos hoje em dia buscam cursos rápidos, levemente informativos, com ênfase na prática, sem grandes discussões teóricas, e mais baratos que os cursos tradicionais. Este é simplesmente um panorama completamente diferente de quando me graduei há cerca de 16 anos atrás, na UFRJ, em um curso pesado, com muitas e densas leituras, eivado de muitas discussões teóricas – bons tempos que não voltam mais… Na minha época, era uma verdadeira briga de foice participar dos vários grupos de estudo oferecidos pelos nossos mestres, em horários fora das aulas regulares. Agora, a situação é outra: o aluno atual chega atrasado, cansado, lê muito pouco, participa menos ainda, e sai cedo – para dar tempo de pegar a última condução…

Claro que a culpa não é só do aluno! Houve também uma mudança do conceito de educação, vista no últimos tempos como negócio. Desde os anos FHC, observa-se uma expansão acelerada da criação de universidades, centros universitários e faculdades isoladas pelo Brasil, levando a um aumento exponencial das vagas ofertadas no ensino superior privado – crescimento esse, diga-se a verdade, causado pela falta de investimento do poder público na expansão da rede de ensino superior em nível federal e estadual. Esse Escriba mesmo viveu de perto esse momento, uma vez que iniciei a minha carreira docente no ensino superior privado, ao qual permaneço vinculado até os dias de hoje.

O excessivo aumento do número de vagas em relação à demanda dos estudantes criou um excesso de oferta, levando as universidades particulares a utilizarem todas as ferramentas de marketing de relacionamento disponíveis para a captação e a retenção desse aluno – commodity cada vez mais escassa. O resultado disso tudo é a ascensão daquilo que eu considero o que há de mais perverso nesse modelo – a metáfora do aluno-cliente

A metáfora do aluno-cliente é uma distorção canhestra e funesta das instituições particulares de ensino, fruto de uma adaptação apressada e ignara da idéia do “cliente tem sempre razão”, originada dos ensinamentos do marketing de relacionamento. A idéia é simples: o aluno remunera a instituição sob forma de mensalidades, que por sua vez remunera o professor que tem o compromisso de prestar o serviço contratado, segundo as prerrogativas do… aluno! Logo, o aluno se torna um cliente extremamente exigente, cujos critérios de valor são baseados em dois grande alicerces: ter aulas com professores “motivadores” – leia-se, profissionais engraçados, divertidos e informais -, e ser aprovado com facilidade – leia-se, provas em dupla, em trio, em quarteto, com consulta, seminários…

Tudo isso, é claro, acompanhado por “gestores educacionais” que, além de ouvirem em demasia as queixas dos alunos, estão mais preocupados em preservar os seus empregos – leia-se, diminuir as reclamações dos alunos-clientes -, implementando para isso um corte dramático das cargas horárias dos docentes, um enxugamento das grades curriculares – de preferência, introduzindo ferramentas de Educação à Distância (EaD) sem a reflexão pedagógica necessária -, além do uso indiscriminado de avaliações institucionais que, ao fim e ao cabo, levam à conclusões de que o problema da educação hoje é, sem sombra de dúvida, o professor!

In my humble opinion, o cliente da universidade não é o aluno, e sim a sociedade. É ela que espera que sejam formados profissionais competentes, com uma sólida formação teórica, preparados para atuar na prática com base em valores éticos e de responsabilidade social. Pensar o aluno como cliente é, no mínimo, um tremendo reducionismo, quando não uma tremenda má-fé!

Nada encorajador para quem quer ser professor, podem pensar alguns dos meus abnegados leitores. Desculpem-me a franqueza, mas são apenas algumas observações que faço do alto de meus anos de experiência em ensino superior. E, olhem bem, isso ainda vai piorar mais ainda…

Coitado do professor, destinado a sofrer a influência dos agentes da natureza… É da natureza deste ocupar o lugar equivalente ao de um marisco, exposto aos inclementes raios solares e a força das ondas na rocha…

Alguns podem afirmar que isso ocorre apenas no ensino privado, já que na universidade pública o negócio é diferente… Vocês acham mesmo? Esperem os próximos posts da série
Anúncios
  1. Nielson
    outubro 15, 2007 às 2:37 am

    Parabéns Mestre, sua conduta serve de exemplo e inspiração.
    Admiro muito o seu trabalho!

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: