BAIXE O CD, PAGUE O QUE QUISER

Que a vida das gravadoras de música não anda fácil, isso todos nós sabemos. A internet, o formato MP3 e o iPod definitivamente modificaram o consumo de música no mundo inteiro. A cada mês, legiões de jovens “baixam” na rede para os seus computadores milhares de músicas de graça, via softwares de compartilhamento como Kaazaa, Emule e outros. Isso, sem falar na pirataria que assola os grandes centros urbanos… Resultado: o número de CDs vendidos vem diminuindo sensivelmente a cada ano, a ponto de muitos executivos e analistas de mercado decretarem solenemente o fim do disquinho.

No entanto, nunca houve tanto consumo de música quanto nos dias atuais, e o número de ingressos vendidos a cada show aumenta vertigionosamente! O consumo de música, assim como o vestuário, é definidor de estilo de vida, tornando-se setores sensíveis para o público jovem e adulto. A única explicação plausível para o fenômeno é essa: uma tremenda miopia de marketing das gravadoras, que remonta aos tempos da proibição do Napster – o “pai” de todos os programas peer-to-peer

Enquanto isso, cada vez mais os artistas e as bandas vêm apostando na internet como veículo de divulgação e comercialização do seu trabalho, eliminando intermediários como gravadoras e distribuidoras. Artistas como David Bowie, Bjork e Annie Lennox – mais antenados com as tecnologias da informação e da comunicação – são alguns exemplos nesse sentido. No entanto, nunca ninguém ousou tanto quanto agora propõe a banda inglesa cult Radiohead

A banda de Thom York & Cia. resolveu inovar a comercialização de seu novo disco – In Rainbows. O fã que desejar adquirí-lo poderá baixar a totalidade das músicas pelo site da banda (http://www.inrainbows.com/), e pagar o quanto quiser ou achar justo pelo disco. Basta inserir o número do cartão de crédito e… voilá, eis o novo trabalho dos carinhas na sua máquina! Brand new one!

O assunto está “bombando” nos blogs, sites e listas de discussão dos fãs da banda e de apreciadores de música de um modo geral. Cansados de esperar de seis meses a 1 ano entre a gravação do álbum e o seu lançamento comercial, o Radiohead resolveu “chutar o pau da barraca” de vez! Dada a novidade, a pergunta que todo mundo está se fazendo é a seguinte: será que esse modelo de distribuição aponta para o futuro da comercialização da música? É o início da consolidação da internet como canal de vendas?

A liberação de preço acaba por se tornar um interessante experimento sobre o comportamento do consumidor de música, além de permitir uma melhor avaliação de aspectos mais profundos do fã e de seu relacionamento com os seus artistas prediletos. Assim como no caso de torcedores de futebol ou em situações de escolhas eleitorais, o relacionamento entre o fã e o seu artista é baseado na lealdade – isto é, no grau de envolvimento emocional e cognitivo do consumidor com o produto. Enquanto que, por seu turno, a fidelidade repousa mais no hábito de compra, na conveniência e na comodidade da transação. A lealdade é uma relação mais profunda por justamente estar diretamente relacionada com o conjunto de crença e valores dos clientes – nesse caso, dos fãs da banda…

Uma breve vasculhada nos blogs e listas de discussão dedicadas à banda permite perceber a oscilação do valor a ser pago para adquirir o novo trabalho dos caras. Alguns não querem pagar nada – nesse caso, o consumidor apenas arca com a taxa de transação do cartão de crédito. Outros, adoradores da banda, querem pagar até US$ 80 (!) pelo disco, por considerarem a banda uma verdadeira obra de arte!

O mais interessante nisso é que, ao transferir a decisão de pagamento para o ouvinte das canções, o Radiohead criou as condições para a realização de um survey sobre economia comportamental. Argumentos racionais – pagar menos, receber mais – e emocionais – envolvimento e lealdade com a banda – dividem os “corações” e as “mentes” dos fãs. É com base no investimento financeiro que se pode definir o tipo de relacionamento do consumidor com o produto a ser consumido. Alguns, mais avarentos e utilitários, pagam o que consideram o suficiente – face ao conjunto de suas despesas correntes mensais… Outros, mais envolvidos e devotos, são capazes “dar” a sua alma – e abrir as suas carteiras – para ter acesso em primeiro mão ao mais novo trabalho do artista do seu coração…

Para o fã mais apaixonado do Radiohead, o site oferece a possibilidade de adquirir uma caixa com dois CDs, um LP, um folheto e um livro de capa dura, pelo preço módico de 40 libras – cerca de U$ 82, ou R$ 164…

No entanto, essa jogada pode ser arriscada, caso o artista não tenha um legião de fãs fiéis, ou então o seu próprio trabalho não seja de uma qualidade tão acentuada. Artistas comerciais, sazonais e iniciantes, em meu entendimento, devem continuar sob o guarda-chuva protetor da engrenagem de marketing das gravadoras… Também, uma banda com um conjunto de fãs de baixo poder aquisitivo torna a operação de comercialização pela internet muito pouco rentável…

Enfim, os riscos são inúmeros, mas não deixa de ser interessante observar o desenvovimento de novos canais de venda e promoção. Como cansam dizer os “gurus” de estratégia corporativa, o que é ameaça para uns se transforma em oportunidade para outros…
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: