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ERIC HOBSBAWM: UMA MENTE LÚCIDA EM UM MUNDO TURBULENTO

Ótima a entrevista publicada na Folha de S. Paulo de domingo passado (30/09/2007) com o historiador britânico Eric Hobsbawm. O autor é um dos mais lúcidos e respeitados intelectuais da atualidade, tendo publicado uma série de obras de peso sobre a história do mundo ocidental. A sua aclamada obra Age of Extremes: The Short Twentieth Century, 1914 – 1991 (1994) é um clássico sobre os estudos do século XX – considerado por ele um século bastante curto, repleto de tragédias, guerras e mortes…

Hobsbawm não é propriamente um pessimista mas, dado os seus 90 anos, e tendo presenciado uma série de fenômenos históricos importantes – tais como as duas Grandes Guerras Mundiais, a Guerra Fria, a explosão da bomba atômica, a Guerra do Vietnã, os conflitos no Oriente Médio e a Queda do Muro de Berlim -, sua leitura a respeito da contemporaneidade é eivada de reservas quanto a reducionismos totalizantes e análises reificantes que reduzem as questões atuais ao paradigma simplista do “choque de civilizações”. Além do mais, sua erudição, didatismo e seu senso de humor auto-complacente – very british indeed -, lhe dão um certo charme e elegância em um mundo cada vez mais repleto de pessoas ignorantes, patéticas, fanáticas e boçais…

Por ser um dos intelectuais mais aclamados da atualidade, Hobsbawm demonstra na entrevista um certo enfado quanto a vida de um intelectual midiático – diga-se de passagem, o que ele se tornou nos últimos anos meio a contra-gosto – por ser solicitado a todo instante para opinar sobre qualquer assunto e sobre todos… A toda hora, jornais e canais de TV do mndo inteiro o chamam para comentar sobre um determinado issue – desde música, futebol, o conflito árabe-israelense, as últimas declarações de George W.Bush e do Primeiro Ministro Britânico Gordon Brown

Apesar disso, suas análises são de uma lucidez absurda – um contraste frente às visões difundidas em escala planetária pela mídia de massa global. O autor tem uma leitura extremamente crítica da dominação americana mundial, ancorada no poderio militar maciço sem precedentes na história recente. Os paralelos entre o ideário liberal da Revolução Francesa e o messianismo cristão do Império Americano se tornam inevitáveis:

“As idéias podem viajar, mas não a bordo de tanques. Os ideais da Revolução Francesa se espalharam pela Espanha, pela América Latina e causaram grandes transformações. Mas, quando a França quis exportar suas instituições à força, não teve sucesso (…)”.

Como um bom comunista que testemunhou os horrores do regime stalinista, nas entrelinhas se observa uma crença na falibilidade, a médio e longo prazos, de qualquer projeto político embasado em qualquer tipo de fundamentlismo – seja ele de natureza religiosa, étnica ou política… O seu ódio ao totalitarismo se justifica por uma razão biográfica: Hobsbawm cresceu na Alemanha de Hitler, fato este que justifica por si só a sua repulsa a regimes políticos dessa natureza…

Muitos acham irônico o fato de justamente um autor inglês – proveniente de um dos maiores impérios coloniais de outrora – ser um dos mais veementes críticos dos EUA. Mágoas contra a ex-colônia? Claro que não:
“A política do Império Britânico era apenas a de seguir a lógica e os interesses de sua economia. Por um breve momento, realmente controlou boa parte do planeta. Mas tampouco houve um grande inimigo. Acho que o mundo continuará a ser plural, com algumas unidades políticas que serão mais poderosas do que as outras. Mas não haverá um único império (…)”.

Para Hobsbawm, é claro que o projeto messiânico da direita fundamentalista cristã norte-americana está fadado ao fracasso. Esse, aliás, é um dos pontos centrais de seu novo livro – Globalization, Democracy and Terrorism (2007). Basta olhar para as enormes dificuldades que as tropas americanas enfrentam em países como Iraque, Afeganistão e Paquistão para entender a derrocada gradativa do projeto americano de dominação mundial:

“Defendo no livro que o projeto norte-americano está falindo. O que não significa que os EUA se tornarão um país mais fraco, ou que estejam em declínio ou colapso. Mesmo que percam os seus soldados, continuarão sendo uma nação importante, econômica e politicamente (…) O império norte-americano não permanecerá, entre outras razões, por questões internas. A maior parte dos norte-americanos não quer saber de imperialismo e sim de sua economia interna, que tem mostrado fragilidades. Logo os projetos de dominação mundial terão de dar lugar a preocupações econômicas. E os outros países, se não podem conter os EUA, têm de acreditar que é possível tentar reeducá-los (…)”.

Quanto ao fundamentalismo islâmico, e em especial a Al-Qaeda, Hobsbawm não crê que esta constitua uma ameça à segurança mundial, apesar dos atentados de 11 de setembro. A idéia de Bin-Laden de criar um califado muçulmano da Pérsia à Espanha é, em seu entendimento, uma utopia, uma bazófia que não terá grandes consequências em escala mundial. Para ele, o mais significativo dessa questão é a reação americana, uma resposta militar desmesurada para um problema que em seu entendimento é meramente de natureza policial, que acaba por trazer insegurança e instabilidade mundiais…

Também o entrevistado aborda a irrelevância da América Latina no cenário mundial, apesar dos avanços econômicos, políticos e sociais alcançados pelos países da região nos últimos anos. Apesar disso, Hosbabawm vê uma fresta para a inserção estratégica do Brasil na economia mundial, graças a crise global de produtos primários – alimentos, minérios e combustíveis -, segmento este onde o nosso país apresenta vantagens competitivas incontestáveis…

Lendo isto, não consigo me furtar a parodiar uma frase do Prof. Melhelm Chaoul , proferida no mês retrasado na UERJ, ao discutir as dificuldades que a comunidade internacional têm para entender o que se passa no Líbano… Se para nós brasileiros é difícil compreender o Brasil, imagina explicá-lo para visitantes estrangeiros? Nem Hobsbawm, que é um tremendo historiador, consegue entender? Imagina o resto do mundo…

Ler Hobsbawm é um imenso prazer, e seus livros são uma presença constante nas leituras desse Escriba. Para quem quiser, segue o link (http://www.folha.com.br/072715). Recomendo fortemente a leitura…
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  1. Helena
    outubro 8, 2007 às 1:33 am

    Gostei muito de seus comentários sobre este autor. Vou ler sobre ele.

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