Início > Comportamento do Consumidor, Culinária, Indústria Alimentícia, Tendências de Consumo > FEIJÃO-COM-ARROZ: UMA MISTURA EM EXTINÇÃO?

FEIJÃO-COM-ARROZ: UMA MISTURA EM EXTINÇÃO?

Quando discuto em minhas aulas e palestras a problemática do Comportamento do Consumidor, sempre alerto as pessoas que nós devemos captar as transformações de curto – chamadas de modismos – e de longo prazo – denominadas de tendências de fundo ou macrotendências. Em uma visão estratégica e pró-ativa de negócios, os profissionais de marketing devem sempre estar atentos a tais transformações, bem como analisar de maneira detalhada os possíveis impactos em seus respectivos setores de atividade.

Um dos setores onde as transformações no comportamento de compra são mais sensíveis é o segmento alimentício. Novas pesquisas sobre dietas milagrosas, a preocupação com um estilo de vida saudável, alimentos transgênicos, sobrepeso e obesidade, além de doenças sistêmicas como diabetes, hipertensão e doenças coronarianas pautam as preocupações a escolha dos hábitos alimentares das pessoas. Parodiando o nome de um seriado de canal a cabo, cada vez mais nós somos o que comemos!

Além disso, a difusão de hábitos alimentares de países diferentes via globalização e mídia de massa, a difusão dos restaurantes fast-food e de comidas prontas e o incremento do ritmo de vida das pessoas levam à alterações de fundo (macrotendências) nos hábitos alimentares das pessoas em diveros países do mundo. No caso do Brasil, um dos patrimônios da culinária nacional encontra-se ameçado de extinção: a famosa dupla feijão-com-arroz

Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (ABIA), o consumo de feijão e arroz no Brasil está atualmente em 17 e 42 quilos por habitante, respectivamente. Esses números são alarmentes, se levarmos em consideração o fato de que o consumo de alimentos cresceu 56% em nosso país entre 1995 e 2006, e a população aumentando em 16% no mesmo período. Será que estamos vivendo o ocaso de uma tradição tão brasileira em nossas mesas?

As causas para tal fenômeno estão na a mudança dos hábitos alimentares dos brasileiros nos últimos anos. Em primeiro lugar, decresce a cada dia o número de pessoas que fazem suas refeições em casa, em função do aumento da jornada de trabalho – especialmente no segmento de baixa renda, onde a informalidade é o padrão nas relações de trabalho. Consequentemente, as pessoas cozinham menos em casa, diminuindo o consumo de produtos alimentícios de baixo valor agregado – casos do feijão e do arroz. Além do mais, o aumento das despesas com serviços, telefonia celular e prestações de eletroeletrônicos adquiridos a prazo concorrem diretamente com o share of wallet do consumidor. E mais: quanto maior o aumento de renda, maior a probabilidade do consumidor diversificar os seus hábitos alimentares…

Dado um macroambiente tão hostil, o que fazer? Como devem agir os profissionais de marketing que trabalham nesse setor?

Algumas empresas do setor optam por um leque de estratégias objetivando aumentar a compra de produtos como arroz e feijão. Algumas como a Broto Legal, a Kicaldo, a Pirahy e o Carrefour incrementaram suas vendas com ações promocionais – concursos de receitas, sorteios de carros zero km e raspadinhas premiadas. O público jovem também não é esquecido, uma vez que os hábitos alimentares são em grande parte desenvolvidos na infância. A Prato Fino – marca da Pirahy Alimentos – visita as escolas promovendo o jogo “Roda Premiada”, no qual as crianças concorrem a brindes da marca, incentivando o consumo do público jovem e estreitando os laços de relacionamento das empresas com esses consumidores e as suas famílias.

Outras, por seu turno, investem na diversificação e no desenvolvimento de produtos de maior valor agregado. Por exemplo, a Josapar – dona da marca Tio João – e a Mars – que fabrica o arroz Uncle Ben’s – investem em produtos semi-prontos, como feijão em caixinha, arroz saborizado e risotos semi-prontos.

Mesmo assim, muitas empresas duvidam desses produtos, uma vez que a qualidade percebida pelo consumidor não é a mesma do que no caso de produtos preparados na hora. O preço elevado, o sabor, a aparência e o tempo demorado de preparação são os maiores fatores de restrição à compra, devendo serem vencidos para aumentar a aceitação de pratos semi-prontos por parte de consumidores cada vez mais ansiosos por conveniência, rapidez e praticidade…

Outras opções passam por campanhas promocionais que incentivem o consumo do arroz e do feijão, chamando a atenção dos clientes para os benefícios à saúde e o alto valor nutricional desses alimentos. Parcerias com entidades médicas, endocrinologistas e nutricionistas também são bem-vindas, dado esses profissionais serem formadores de opinião e grandes influenciadores da compra dos consumidores. O Carrefour, na semana de 10 de outubro, estará lançando a campanha “Semana do Arroz e do Feijão”, em parceria com a Embrapa, incentivando a venda casada dos dois produtos e comunicando os benefícios nutricionais desse casamento à população…

Como se vê, a atividade de marketing ocorre em um ambiente de mercado por vezes hostil, mas que deve ser visto como fonte de oportunidade para os profissionais que tenham uma visão estratágica mais apurada. Se nós conseguimos vender água e pastilhas de areia, porque não conseguiríamos aumentar as vendas do feijão-com-arroz, a mistura clássica de nossa tão saborosa e nutritiva cluinária?

Fonte: Daniele Madureira, Fabricantes de arroz e feijão tentam alavancar vendas com marketing. Valor Econômico, 26 de setembro de 2007, p. B1.
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: