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DICA DE CD – MARK KNOPFLER: Sailing To Philadelphia

Eu tenho um amigo que é simplesmente fanático pelo guitarrista escocês Mark Knopfler – e, por consequência, da sua finada superbanda Dire Straits. Ele sempre me insta a escutar os seus discos, e me fala que eu estou perdendo uma jóia rara do rock…

Confesso que sempre tive uma má vontade com a banda desde os meus 15 anos, quando via na TV o videoclip de Sultans of Swings – seu clássico hit. Longa, pulsante, very bluesy, me chamava muito a atenção aquele guitarrista de bandana na cabeça, com um sorriso tímido como os ingleses, muito habilidoso em seu instrumento, porém sem ser virtuoso e arrogante.

Eu estava no final dos anos 1990, onde os guitar heros da época apostavam corrida para ver quem chegava mais rápido ao fim da escala musical… Era a época de solos rapidíssimos e pentatônicos do heavy metal e do hard rock: todo mundo queria ser um Eddie Van Halen, um Steve Vai, um George Lynch, todo mundo queria copiar a atitude poser do rock californiano vigente, presente em bandas como Motley Crue, Ratt, Dokken, Poison, White Lion, Warrant… Para a molecada da época, era essa atitude rock’n roll que importava no momento: guitarras distorcidas, muito álcool e mulheres a rodo. Girls, Girls, Girls!…

(Enquanto isso, eu continuava a não enteder muito bem o guitarrista de atitude cool, meio calvo, que cantava com uma voz a la Bob Dylan, cujos solos dedilhados eram nitidamente inspirados por toda um tradição sulista que vinha de J.J. Cale)

Quando saiu o multiplatinado álbum Brothers in Arms (1985), todas as TVs e a MTV passavam o dia inteiro clips do Dire Straits. Resolvi comprá-lo, então, meio que por pressão, meio que por curiosidade haja visto que, em uma das faixas, um dos meus ídolos – Sting, do The Police – fazia um dueto com Knopler. Money for Nothing foi um estouro de audiência, assim como So Far Away, Walk of Life, Your Latest Trick, Brothers in Arms… Minha resistência diminuiu, mas ainda não compreendia muito bem a proposta do guitarrista escocês, filho de pai judeu e mãe inglesa…

Agora, escutando o segundo álbum solo de Mark Knopfler, Sailing to Philadelphia (2000), compreendi por que até então não tinha conseguido entender a sua proposta… O que me faltava, de fato, era cultura musical, era ouvido para as sutilezas do timbre acústico, da voz rouca e pouco afeita aos vocais, como a de Knopfler. Para chegar a ele, percorri um longo caminho desde os anos 1990. Ampliei a minha discografia, mergulhei de alma no blues (como exige essa música), escutei muitos clássicos como Leadbelly, Blind Lemmon Jefferson, Muddy Waters, John Lee Hooker, Robert Johnson, guitarristas brancos como Eric Clapton e J.J. Cale, e toda uma nova safra de bandas criativas como a Dave Matthews Band, Code Magenta e Bella Fleck & The Flecktones. Graças a eles é que, então, Mark Knopfler chegou até mim, por meio desse disco, e muito por causa do meu amigo…

O álbum todo é uma maravilha: Sailing to Philadelphia é daqueles discos que, a cada audição, você descobre novas sonoridades, novos timbres, novos climas. Knopfler é um arquiteto de sons, e suas tessituras são delicadas, simples e very cool, porém dotadas de uma grande sofisticação que só ouvidos apurados conseguem perceber… Sua voz é a de um menestrel, tal como Bob Dylan, e seu dedilhado – é um mestre na técnica, diga-se de passagem – nos remete diretamente a J. J. Cale, o grande fundador do Tulsa sound, bastante resenhado por esse Escriba e grande inspiração de Knopfler. Numa Inglaterra onde reina Eric Clapton, com seus solos rasgados, distorcidos e doídos, Knopfler é um mar de tranquilidade, dedilhando calmamente suas notas sem se preocupar com o tempo, convidando o ouvinte a adentar nas mais diferentes camadas sonoras por ele arquitetadas…

Apesar de ser cool, Knopfler sabe da importância de se ter uma banda poderosa que sustente o som, e a formação desse disco é a mesma utilizada no Dire Straits – duas guitarras, baixo, bateria e dois teclados. Além disso, ele se cerca de grandes músicos: o álbum tem a participação de ícones como James Taylor (mais conhecido por sua voz analasada e pelo folk agridoce) e Van Morrison (o gigantesco bardo irlandês de voz trovejante). Esses, por seu turno, contrastam com a suposta modéstia do guitarrista sem, no entanto, encobri-lo em nenhum momento durante todo o disco…

Falar das músicas é muito difícil, pois todas são ótimas. Como disse antes, é um álbum para ser escutado muitas vezes e pacientemente, de preferência em estados de humor alternados. O disco é uma ode ao som da América, em suas mais variadas manifestações musicais do Norte e do Sul, branco, negro e latino. O disco tem ótimas peças de rock, blues, folk, country e baladas, sempre com um instrumental poderoso e com timbres jazzísticos. As minhas músicas prediletas são: What It Is (típico Dire Straits), Who’s Your Baby Now (um rock potente e pulsante!), Baloney Again (um blues pungente e maravilhoso!), The Last Laugh (dueto com Van Morrison), El Macho (bem interessante), Praire Wedding (uma peça country belíssima, com uma harmonia muito delicada, que faz o Sul correr por nossas veias), Junkie Doll (um blues do jeito que esse Escriba gosta, para ser ouvido bem alto, pois lembra tudo de bom que os negros fizeram na América!), a instrumental Sands of Nevada e a típica Silvertown Blues, que parece ter sido feita para um disco do Dire Straits. Como os meus leitores podem ver, o disco todo é excepcional, e escolher algumas músicas se torna impossível…

Sailing to Philadelphia, junto com álbuns To Tulsa and Back (J.J. Cale) e The Road to Escondido (Eric Clapton & J.J. Cale), são as melhores formas de adentrar ao universo musical do sul dos Estados Unidos. É uma viagem sonora às entranhas da América, onde negros e brancos se cruzam, produzindo uma densa e rica sonoridade que nos leva a diferentes paradas no Mississipi, Georgia, Alabama, Texas, Memphis, Indiana, Oklahoma, Pennsylvannia, Kentucky…

Se todos os artistas que citei me fizeram ver (e entender melhor) Mark Knopfler, quem sabe agora ele me faz superar a minha histórica má-vontade com Bob Dylan? Não direi nada, pois tudo na vida é possível…

Agora, eu posso conversar melhor com o meu amigo… Que, diga-se de passagem, está ouvindo até cansar o novo álbum de Knopfler – Kill To Get Crimson (2007).

Boa audição, meu amigo! E, não se esqueça:

A little bit of this’d get you up, a little bit of that’d get you down…

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  1. Anonymous
    setembro 28, 2007 às 8:37 pm

    Prezado zé Mauro,
    Devo dizer que o seu comentário sobre o Mark Knopfler resgata um dos mais refinados guitarristas do mundo. Quanto ao Sailing to Philadelfia, ele se carateriza, como nem disse, na reconstrução do sul dos EUA e o som de jJ cale acaba transbordando por entre as melodias.Parabéns pelo comentário e pela crítica, bastante generosa e eloqüente. Sugiro os álbuns de Knopfler em suas incursões pelas trilhas sonoras, com destaque para: Local Hero (com o terrível nome de Momento Inesquecível), The Princess Bride )A princesa Prometida), Cal, Metrolnad (fantástico, com resgate de Django Reinhardt), Last Exist to Brooklin, wag the Dog e A Shot at Glory.
    abraço
    M.

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