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BRASIL, UM PAÍS DO FUTURO… E DE IDOSOS

Quantos mais nos debruçamos sobre as pesquisas do IBGE, mais nos surpreendemos com a velocidade das transformações no âmbito da sociedade brasileira. Especialmente, no que diz respeito às transformações demográficas, uma série de truísmos vêm sendo questionados pela marcha inexorável e fria de nossa dinâmica populacional. O maior destes, sem sombra de dúvida, é que somos um país jovem. No mínimo, esta afirmação pode ser considerada uma meia-verdade…
A explosão de natalidade observada nos anos 1980 levou a um crescimento da população jovem (0 a 24 anos), que atingiu o seu ápice em 2007 – cerca de 87 milhões de jovens em nosso país. As perspectivas levantadas pelo IBGE são as de que este patamar permanecerá estável por cerca de 20 anos, para depois declinar a partir de 2027. Já a população adulta (25 a 64 anos) irá crescer a uma velocidade declinante por aproximadamente 40 anos, onde atingirá um patamar estável. O mais interessante disso tudo, no entanto, são as perspectivas que se desenham para a população idosa (acima de 64 anos)…
O segmento da terceira idade irá crescer a taxas cada vez maiores em nosso país, atingindo o patamar de 49 milhões de pessoas em 2050. Os dados são taxativos: caminhamos a passos largos para um progressivo envelhecimento de nossa população. Os motivos para essa tendência demográfica são vários, sendo os mais importantes: a diminuição do número de filhos por casal, graças a crescente urbanização de nosso país, bem como a elevação da escolaridade dos casais; o aumento da longevidade graças à melhora das condições de vida, o avanço da tecnologia médica e a preocupação crescente das pessoas em adotar um estilo de vida mais saudável; e a elevada taxa de mortalidade de jovens nos segmentos menos favorecidos de nossa sociedade – os chamados jovens em situação de risco -, dada a violência por armas de fogo, tráfico de drogas, conflitos sociais, etc.
Sendo assim, o país do futuro está ficando cada vez mais grisalho e experiente. Quais as implicações deste movimento demográfico para os gestores públicos e os profissionais de marketing?
Primeiro, haverá uma mudança na composição dos gastos públicos, especialmente no que diz respeito à educação e os programas de transferência de renda. Com um número menor de jovens, o investimento por aluno será maior – supondo-se a manutenção do patamar atual de gastos. Já os gastos com os programas de transferência de renda – Bolsa-Família, por exemplo – tenderá a diminuir, pois estes dependem diretamente do número de famílias com crianças.
Criminalidade e a taxa de homicídios também tendem a decrescer, pois estes se encontram diretamente ligados à população jovem. O declínio da última repercute positivamente na diminuição dos primeiro. A diminuição desses indicadores aliviará a pressão dos gastos públicos no âmbito da segurança, levando a um redirecionamento para programas preventivos de apoio aos jovens e de suporte às famílias carentes. As áreas de educação e saúde serão as principais beneficiadas por essa diminuição.

No entanto, o envelhecimento da população elevará implacavelmente os gastos com a saúde e a previdência social. Nestes primeiros, haverá o deslocamento de verbas de programas pré-natais e de pediatria para investimentos em geriatria e doenças do envelhecimento. Além disso, atingimos o nivel de reposição populacional – a média da mulher brasileira é de 2,1 filhos -, significando que caminhamos a passos largos para o crescimento “zero”.
Mais idosos usufruindo de pensões, e menos jovens trabalhando – e contribuindo menos para a seguridade social. Eis uma combinação explosiva e tanto… Especialmente, quando se observa que o maior número de vagas abertas no mercado de trabalho ocorre no âmbito de ocupações informais. Os problemas de caixa que atualmente são gravíssimos, tendem a se tornar críticos se algo não for feito no sentido da ampliação da base de contribuintes do sistema previdenciário. Isso é algo que está certamente tirando o sono dos gestores de políticas públicas no Brasil e no mundo…
A longo prazo, se essa tendência se confirmar, deveremos enfrentar a questão da importação de mão-de-obra para sustentar a nossa economia – repleta de idosos, e não tanto de crianças. Curiosamente, é o Brasil se aproximando da Europa…
No âmbito do marketing, a implicação desta tendência é a urgência com que as empresas deverão começar a pensar no desenvolvimento de produtos e serviços voltados para uma população mais madura, cujas expectativas de vida tendem a aumentar ao longo do tempo. Para isto, basta um olhar mais aprofundado para a Europa e os Estados Unidos, a fim de compreender os desafios futuros que se impõem em nosso mercado doméstico. Além da permanência cada vez maior no mercado do trabalho, e da necessidade urgente de uma segmentação mais profunda da chamada “terceira idade”, uma série de oportunidades de negócios – turismo, educação, lazer e entretenimento, serviços de suporte, saúde e acompanhamento ao idoso – se descortinam a longos passos. A pergunta que se coloca é se nós estamos preparados para encarar essa mudança de ares em nossos briefings de concepção de produtos…
Sir John Maynard Keynes afirmava, em uma célebre frase, que no longo prazo todos nós estaremos mortos… Que ela chegará, um dia, todo ser humano sabe… Mas a novidade é que ela pode demorar a chegar… Isso, definitivamente, é uma idéia que todos nós devemos começar a nos acostumar…
Fonte: Naercio Menezes Filho, Os efeitos da transformação demográfica brasileira, Valor Econômico, 21 de setembro de 2007, p. A15.
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