Início > Eventos, Guerras, História Contemporânea, Israel, Líbano, Oriente Médio, Palestina, Política, Robert Fisk > 25 ANOS DO HORROR DOS CAMPOS DE SABRA E CHATILA

25 ANOS DO HORROR DOS CAMPOS DE SABRA E CHATILA

Entre os dias 16 e 17 de setembro de 1982 – isto é, há cerca de 25 anos atrás – se deu o maior e mais repugnante massacre ocorrido na guerra civil libanesa de 1975-1990: o assassinato indiscriminado de palestinos e muçulmanos libaneses nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, localizados nos subúrbios de Beirute, operado por milicianos cristãos sob as “vistas grossas” do exército israelense – responsável pelo controle da capital libanesa naquela época…

É preciso contextualizar o acontecimento. Após a invasão do Líbano por Israel, com o pretexto de eliminar os focos “terroristas” palestinos no sul do país, liderados pelo até então líder da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) Yasser Arafat, estabeleceu-se um acordo político entre Israel e o Partido Falangista (Kataeb) – cristão maronita -, com vistas à “pacificação” do Líbano, que levou à Presidência o seu líder Bashir Gemayel – filho do lendário fundador do partido, Pierre Gemayel. Após a sua subida ao poder, Gemayel foi assassinado por uma explosão à bomba no quartel-general do seu partido, o que incitou os milicianos falangistas à revolta e a empreender o “troco” dado aos palestinos e muçulmanos libaneses, considerados responsáveis pelo atentado, e até hoje apontados como o grande obstáculo para a unificação da nação libanesa por parte de seus opositores.

O massacre de Sabra e Chatila, narrado com tons de horror e de repulsa no capítulo 11 do livro Pobre Nação, do jornalista inglês Robert Fisk, é até hoje uma ferida aberta no seio da sociedade libanesa, sendo fonte de controvérsia e de debates acalorados entre os lados envolvidos – o exército israelense, as milícias cristãs, os muçulmanos e os palestinos. Poupo os meus leitores dos detalhes hediondos da carnificina, mas acredita-se que cerca de 700 a 3 mil pessoas foram sumariamente executadas – entre elas, mulheres e crianças – com requintes de crueldade, nesses dois dias intermináveis…

O ponto mais controverso da questão é a entrada das milícias cristãs no campo de refugiados com a aquiescência do exército israelense, o que levou a uma profunda cisão no seio da sociedade israelense – similar ao que aconteceu nos Estados Unidos, por ocasião dos massacres do exército norte-americano à população civil durante a Guerra do Vietnã. Após a ocorrência do massacre, o gabinete do Primeiro-Ministro Menachem Begin criou uma comissão de inquérito – a chamada comissão Kahan – que concluiu pelo envolvimento indireto do exército israelense, e pela responsabilidade pessoal do Ministro da Defesa Ariel Sharon no episódio. A comissão recomendou a demissão de Sharon do cargo, o que foi prontamente aceito por Begin, levando o velho e brioso comandante da brigada de infantaria blindada da Guerra dos Seis Dias a um longo e doloroso período de ostracismo político…

Os desdobramentos do ocorrido há 25 anos atrás são mais do que conhecidos. O líder da resistência palestina Yasser Arafat, tornou-se um estadista ao assinar, em 13 de setembro de 1993, os acordos de paz de Oslo com o então Primeiro-Ministro Ytzak Rabin, que logo depois caducaram por causa do fracasso das negociações de Camp David, em setembro de 2000, com o substituto de Rabin – assassinado por uma ativista judeu de extrema-direita -, Ehud Barak. O fracasso do acordo propiciou o surgimento da segunda Intifada – levante palestino nos territórios ocupados -, e a população israelense, cansada do conflito, elegeu como Primeiro-Ministro e “salvador” o mesmo Ariel Sharon, do partido de direita Likud – repaginado como “avô” simpático e respeitável -, que estabeleceu de pronto uma política implacável de ataque e esvaziamento de Arafat e da Autoridade Palestina, encurralando-o em seu quartel-general na cidade de Ramallah.

Arafat sai do cerco para falecer no ostracismo, em Paris, em 11 de novembro de 2004. Em janeiro de 2006, Sharon entra em um coma profundo e irreversível causado por um acidente vascular cerebral, após ter anunciado a retirada total dos israelenses da Faixa de Gaza – um movimento surpreendente para o velho “lobo de guerra”, que até hoje não é muito bem compreendido tanto pelos seus eleitores do Likud quanto pelos analistas políticos internacionais. O fato é que essa retirada, além da surpresa do fato, gerou uma tremenda revolta que cindiu ao meio a sociedade israelense, entre os mais fanáticos defensores da ocupação e os advogados da retirada unilateral. Até hoje, as imagens dos jovens judeus sendo expulsos com veemência pelo exército de Israel dos assentamentos é certamente uma das mais marcantes de nossa história contemporânea…

Enquanto isso, no Líbano, a política de assassinatos seletivos à políticos anti-Síria continua a pleno vapor, lançando sombras sobre o processo eleitoral que irá ocorrer na próxima semana. Além disso, a questão dos palestinos no Líbano ainda é bastante sensível, o que indica que tudo permanece inalterado, tal como há 25 anos atrás…
Uma conclusão bastante palusível é a de que a Roda da Fortuna gira em um moto contínuo, mas às vezes ela para no mesmo lugar de tempos imemoriais, nos fazendo momentaneamente perceber que, tal como em uma natureza-morta, o cenário presente é uma mera reedição de situações passadas…
Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: