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CRÍTICAS À AL QAEDA POR CLÉRIGOS ISLÂMICOS

Parece que Osama Bin-Laden não é mais uma unanimidade no seio dos clérigos islâmicos. O seu reaparecimento nas telas de tv do mundo inteiro – mais magro, com uma aparência abatida e barba aparada e tingida -, ao comemorar (!!!!) o sexto aniversário dos atentados de 11 de setembro, suscitou uma torrente de críticas entre os intelectuais do Islã – sua outrora base de apoio política e religiosa.

Em uma carta aberta publicada no site Islamtoday.com, o clérigo saudita Salman al-Oadah fez violentas críticas ao modo de agir de Bin Laden e de sua organização, responsabilizando-o diretamente por inúmeras agruras infligidas à população de países como o Afeganistão, Iraque, Palestina e Paquistão. “Quantas crianças inocentes, pessoas idosas e mulheres foram mortas em nome da Al-Qaeda? Quantas pessoas foram obrigadas a abandonar as suas casas, e quanto sangue foi derramado em nome da Al-Qaeda?”, pergunta al-Oadah.

Al-Oadah é uma das figuras proeminenetes do salafismo, movimento fundamentalista puritano, que prega a criação de um estado islâmico na Arábia Saudita, que tem como uma de suas reinvindicações a retirada imediata das tropas norte-americanas no país. Proscrito pelo regime saudita desde a primeira Guerra do Golfo em 1990, Bin-Laden cita Al-Oadah e os salafistas como uma das fontes de inspiração para os objetivos políticos de sua organização terrorista.

Apesar das declarações contrárias aos ataques de 11 de setembro, até então as relações entre Bin Laden e Al-Oadah eram ambíguas. Agora, a nuvem se dissipou, e esta crítica é um acontecimento importante para a legitimação da causa da Al-Qaeda no seio da comunidade islâmica mundial. Além de acusar Bin-Laden pelo sofrimento de milhares de pessoas, Al-Oadah critica-o por iludir um número incalculável de jovens muçulmanos, além de macular a imagem do Islã no mundo inteiro.

Um dos principais resultados dos ataques de 11 de setembro foi a identificação – feita de maneira bem-sucedida pela administração W. Bush com a ajuda da mídia de massa ocidental – entre o Islamismo e o terrorismo. O resultado é que, para a grande maioria dos ocidentais, o islamismo é uma religião que prega o ódio, a xenofobia e a indiferença perante os fiéis de outras religiões. Há uma identificação clara, para o Ocidente, entre os islamistas e os jihadistas, como se ambos fossem gêmeos idênticos – uma clara operação de reducionismo proposital. Parece que os intelectuais do Oriente Médio estão começando a se dar conta dos efeitos catastróficos dessa imagem para o futuro da causa islâmica…

Tal carta recebeu ampla acolhida na mídia árabe, tendo sido divulgada na rede de televisão Al Jazeera e no site Islamonline.com. A polêmica da divulgação da carta do clérigo gerou uma raivosa reação dos defensores de Bin Laden, demonstrando o quão polêmico e explosivo é essa questão no âmbito do mundo árabe.

A crítica não poderia ser desferida em um momento pior para a Al-Qaeda e seus colaboradores. Em todas as frentes no mundo árabe – Paquistão, Arábia Saudita e especialmente no Iraque -, as populações civis desses países dão sinais de cansaço dos ataques, que acabam por provocar cisões e dissonâncias no seio de suas sociedades.

Não bastassem os problemas nesses países, no início desse mês, o exércio libanês desmantelou o grupo militante islâmico Fatah al-Islam, ao atacar a sua base no norte do Líbano localizada no campo de refugiados palestinos Nahr el Bared. O grupo era muito rejeitado tanto pela população libanesa quanto pelo restante do mundo árabe, pelas ligações estreitas mantidas com Bin Laden e seus colaboradores.

A perda de respaldo político de Bin Laden no mundo árabe coincide com uma mudança na retórica de seus discursos. Agora, as citações do Alcorão e as mensagens anti-ocidentais convivem com referências marxistas e anti-globalização, retiradas de intelectuais ocidentais de esquerda como Noam Chomsky. As críticas são dirigidas aos interesses das grandes corporações multinacionais, o capital, a sociedade de consumo, a globalização e a indústria bélica, indicando uma clara inflexão da retórica de legitimação de sua organização. Isto pode ser uma tentativa de angariar a simpatia dos críticos da direita americana que são radicalmente contrários aos neocons entranahados no governo Bush, reduzindo as metáforas religiosas e messiânicas que até então permeavam os seus discursos, num movimentoclaro de secularização da agenda política da organização.

As fissuras no seio da base de apoio da Al-Qaeda indicam um questionamento profundo das ações políticas de Bin Laden no interior do movimento salafista – que até então eram justificadas pelo apoio do Al-Qaeda ao movimento de resistência à ocupação norte-americana no Iraque.
O futuro a Deus – ou melhor, a Alá – pertence. Mas não resta dúvida que Osama Bin Laden e a Al-Qaeda não gozam mais do mesmo prestígio de outrora no seio da comunidade islâmica e do mundo árabe…
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