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SOBRE A ARTE NO FUTEBOL

Esse Escriba não conseguiu deixar de abordar a querela envolvendo o atacante cruzeirense Kerlon, e o seu já famoso “drible da foca”. Tudo por causa da celeuma criada em torno da falta violenta no atacante feita pelo lateral Coelho, no final do clássico mineiro Cruzeiro X Atlético-MG – um jogo, diga-se de passagem, eletrizante…

Eu, particularmente, gosto de futebol-arte, daqueles bem moleques, com dribles rasgados, fintas desconcertantes e olés no final do jogo… O futebol é uma manifestação catártica, os nossos desejos, anseios e expectativas se depositam nos pés dos jogadores dos nossos times. Quem já assistiu a uma partida de futebol nos estádios espalhados por esse Brasil sabe muito bem o que eu estou falando. Em um mundo tão cruel, hediondo e corrupto – tipo Tropa de Elite -, onde cada um esbarra violentamente no outro para conseguir o seu espaço, nada melhor do que um pouco de fantasia e prazer dionisíaco para colorir a paleta dos nossos sonhos… Futebol é fruição, é descontração, é molecagem, é uma lufada de ar fresco em um mundo lúgubre e cinzento… Vejam uma “pelada” no campinho de várzea no fim de semana, e vocês vão entender o que eu quero dizer…

Por esse motivo é que eu não gosto de futebol-força, do tipo truculento e cheio de faltas – apesar de acreditar que, nos dias de hoje, a força física e a marcação são as grandes características do esporte. Ganhamos uma Copa do Mundo em 1994 com base em um futebol feio, cheio de cabeças de área, duro na marcação e escasso de oportunidades de gols. A sorte é que tínhamos na frente jogadores geniais como Romário e Bebeto. Surgiram gerações e mais gerações de brucutus a la Dunga, Mauro Silva, Mazinho e, posteriormente, Emerson, Gilberto Silva, Mineiro, e foi-se a arte no futebol…

Felizmente, o nosso futebol se reinventa constantemente e, apesar dos pesares, surgem novos jogadores como Alexandre Pato e Kerlon. A minha pergunta é: o que seria do nosso futebol sem os dribles desconcertantes de um Zico? E as pedaladas de um Robinho? E o toque de letra clássico de um Dr. Sócrates? E os dribles curtos e mortais na área de um Romário? E molecagem toda de um Ronaldinho Gaúcho?

Hoje, o colunista do O Globo Renato Maurício Prado publicou um e-mail do ídolo maior da Nação Rubro-Negra Zico defendendo o “drible da foca” do Kerlon. Ao mesmo tempo, no mesmo jornal, há uma manchete com o atual técnico da Seleção Brasileira Dunga – que deu nome a geração de jogadores truculenta e sem inspiração – dizendo que o jogador foi excessivo ao querer humilhar os adversários…

A celeuma foi criada, mas é claro que o que está em jogo não é o gesto (ou o drible) em si do jogador, mas a garantia do espaço da criatividade e do improviso no futebol. Nós somos brasileiros, e não ingleses. O nosso diferencial é unir a habilidade técnica ao poder da marcação e do vigor físico. Sem isso, não há oxigênio. E nós somos seres aeróbicos…

Por isso, um apelo aos amantes do futebol: deixem os nossos craques jogar e encantar as multidões com as suas jogadas desconcertantes. E viva os Zicos, os Sócrates, os Robertos Dinamites, os Romários, os Bebetos, os Denners, os Ronaldinhos, os Robinhos, os Dodôs, os Rivaldos e os Renatos que estão vivos, seja na memória dos boleiros de ontem, ou nos dribles dos nossos peladeiros de hoje…
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