Início > Brasil, Desigualdade Social, Economia, Política, Renda, Rio de Janeiro > A DEGRADAÇÃO DO SUBÚRBIO CARIOCA

A DEGRADAÇÃO DO SUBÚRBIO CARIOCA

Apesar de ter escrito ontem um libelo sobre o subúrbio carioca – e mais especificamente sobre o bairro de Madureira, local onde nasci -, cresce a olhos vistos a degradação do subúrbio carioca. Apesar de hoje não morar mais lá, quando ando por lá de carro, a pé, ou então vou ao estádio do Engenhão, é evidente que a Zona Norte carioca já não é mais a mesma…

Diga-se de passagem, isso não tem nada a ver com saudosismo frente ao progresso de minha parte, nem mesmo resultando de uma visão “romântica” e idealizada da região. Pelo contrário, falo da perspectiva de um jovem que passou parte da sua infância e adolescência pelas ruas de seus bairros, e que não se conforma com a decadência econômica e social de nossa cidade…

É fato que a cidade do Rio de Janeiro entrou em decadência econômica nas últimas décadas, e os fatores que explicam esse fenômeno são inúmeros, assim como a literatura que se debruça sobre o tema. Basicamente, as respostas para essa perda de dinamismo podem ser resumidas a partir de uma conjunção de fatores nada virtuosa: a perda do status de capital federal, governos ineptos e tolerantes à desordem social e a transferência da atividade produtiva do Rio para outras cidades brasileiras.

No que tange ao aspecto econômico, é óbvio que o Rio é uma cidade cujo contingente populacional, em sua imensa maioria, estava engajado em algum tipo de atividade no setor público. Ministérios, Senado, Câmara Federal, Autarquias Federais, Universidades, Colégios, enfim, todos esses órgãos absorviam a população carioca, e os seus proventos tornavam a cidade um grande centro comercial e de serviços. A prova disso é que é quase impossível não encontrar um membro de uma família carioca que seja – ou tenha sido – funcionário público.

Além do esvaziamento político da cidade, com a transferência dos cargos federais mais importantes para Brasília, os anos 1990 foram cruéis para o funcionalismo público. A estabilização econômica obtida com o Plano Real foi especialmente funesta para esse segmento, dada a perda do poder aquisitivo do funcionalismo a partir da política de reajustes salariais ridículos implementada pelo Governo FHC, e seguida a risca por Lula. O resultado é que, além do enfraquecimento econômico e político, o funcionalismo público é visto por grande parte da população brasileira – graças a um belíssimo trabalho de construção de imagem feita pela nossa mídia – como a grande “chaga” do Estado Brasileiro, para onde convergem todos os males de nossa sociedade: corrupção, leniência, tráfico de interesses, descaso para com a população, corporativismo, patrimonialismo…

Desde a redemocratização que o Rio de Janeiro vem sendo brindado com governos – em nível municipal e estadual – incompetentes e ineptos, para sermos gentis e educados. Além de terem asistido passivamente a gradativa perda da importância econômica do Estado, falharam na tarefa de fomentar politicas de reconversão de sua atividade produtiva. A bem da verdade, a indústria petrolífera vem sendo o destaque nos últimos anos, e os benefícios obtidos com os royalties da extração do petrólero vem transformando – para o bem (casos de Rio das Ostras e Quissamã) e para o mal (o caso de Campos dos Goytacazes é emblemático) – a realidade de muitos municípios fluminenses. No entanto, a indústria petrolífera emprega um contigente menor de pessoal do que o quantitativo de desempregados em nosso Estado, o que ajuda a aumentar as desigualdades internas do Estado.

No caso específico da cidade do Rio de Janeiro, os sucessivos governos foram lenientes e omissos em relação à degradação do espaço público, permitindo a favelização e a ocupação desordenada dos morros, agravada pela falta de uma política habitacional para a população de baixa renda. Associada a corrupção e a falta de investimento do Estado nessas comunidades, o resultado é o crescimento do poder do tráfico de drogas, que ocupa o vácuo deixado pelo poder público. À falta de oportunidades de emprego digno e remunerado no mundo do “asfalto”, a indústria da droga responde com a conscrição em massa de jovens e adolescentes pobres, em situação de risco social e loucos para se inserirem na sociedade de consumo. O resultado desse ciclo vicioso todos nós já sabemos….

É na Zona Norte da cidade, reduto das classes média baixa e baixa, que os efeitos perversos da perda da pujança econômica aliada à degradação crescente do espaço urbano foram mais sentidos. A perda de poder aquisitivo acabou gerando uma diminuição da demanda do comércio de bairro, o que levou a uma migração das lojas para os shopping centers e a manutenção de uns poucos enclaves comerciais em bairros como Méier e Madureira. Em alguns bairros que possuíam enclaves industriais fortes como São Cristóvão, Penha, Olaria, Bonsucesso, Inhaúma e Del Castilho, as indústrias fugiram não apenas por causa da transferência de seus negócios para outros estados, mas também pela violência crescente do tráfico de drogas associada à favelização no entorno das fábricas. Hoje, ao andar por esses bairros, o panorama é desolador: galpões abandonados, escritórios fechados e depredados, mato e lixo acumulado…

A violência e o empobrecimento somaram-se à falta de investimento do poder público na recuperação e melhoria dos equipamentos urbanos nesses bairros. Ruas esburacadas, mal iluminadas, pessimamente sinalizadas são frequentes na Zona Norte. Os seus moradores, por seu turno, colaboram com a falta de conservação de suas casas e agravam a situação, invadindo a linha férrea, jogando lixo nas ruas e nos córregos, que evidentemente retorna às casas por ocasião das enchentes em dias de fortes chuvas. Ou seja, uma convergência irresistível: poder público omisso e população mal-educada…
Escrevi esse post para dar continuidade a um comentário anterior que fiz sobre Madureira, um dos bairros-símbolos do subúrbio carioca, e local de criação do Escriba. O mais dramático disso tudo é que essa região é rica culturalmente, tanto por parte dos seus habitantes quanto das instituições que estão lá localizadas – clubes de futebol, escolas de samba, colégios… Para mim, nascido e criado nessa região, andar hoje pelas ruas do subúrbio carioca é testemunhar um cataclisma, uma espécie de tsunami que tem origem na falta de uma política governamental específica para a revitalização e reurbanização desses bairros.

Para homenagear todos os habitantes desses bairros, sofridos mas tenazes diante das circunstâncias, fecho esse comentário com um samba muito famoso de autoria de Carvalinho e J. Monteiro, intitulado Madureira Chorou, gravado em 1958 por Joel de Almeida:

Madureira Chorou/Madureira chorou de dor/Quando a voz do destino/Obedecendo ao divino/A sua estrela chamou/Gente modesta/Gente boa do subúrbio/Que só comete distúrbio/Se alguém menosprezar/Aquela gente/Que mora na Zona Norte/Ate hoje chora a morte/Da estrela do lugar…
Anúncios
  1. Jaqueline Ramiro
    janeiro 29, 2009 às 12:42 pm

    Gostei muito. Principalmente quando você resalta as concequências da tranferência da Capital ferderal para Brasília.

  2. maio 14, 2009 às 1:23 pm

    Excelente post.

    Nasci no Méier e moro lá até hoje (41 anos).

    A degradação da Zona Norte é algo – no mínimo – assustador.

    Favelados, traficantes, construções irregulares, desordem urbana e muito mais.

  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: